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Arquivo diário: 19 de janeiro de 2009

Charlie Parker – At Storyville (1953)

Esse único ítem do imenso catálogo da gravadora Blue Note com Charlie Parker mostra Bird em duas apresentações realizadas no clube Storyville em março e setembro de 1953 em Boston. Ambas foram transmitidas pela rádio local WHDH com direito a apresentador/mestre de cerimônias (sic), cidadão tão gentil que solenemente interrompeu o solo de Red Garland em Out of Nowhere tagarelando enquanto o pianista desenvolvia seu solo. Na apresentação do dia 10 de março Bird estava à frente de um quarteto e a de 22 de setembro com a formação de quinteto. 1953 foi um período especialmente dificil para Parker, livre de uma crise depressiva e da heroína, seu consumo de álcool era imenso. Apesar disso sua performance no sax alto era sempre notável. Durante esse período de sua carreira Bird não conseguia manter um grupo estável, servia-se de alguns músicos locais e amigos que sempre admirararam sua música e nunca se afastaram definitivamente do convívio, difícil, com Parker. Esse é exatamente o caso dos bateristas Kenny Clarke – na formação de quinteto e Roy Haynes – no quarteto. Destaque para a rara oportunidade de ouvir-mos Bird acompanhado pelos pianistas Tommy Flanagan e Sir Charles Thompson.
Charlie Parker Quartet
Charlie Parker (as) Red Garland (p) Bernie Griggs (b) Roy Haynes (d) WHDH radio broadcast, “Storyville”, Boston, MA, March 10, 1953
Moose The Mooche, I’ll Walk Alone, Ornithology, Out Of Nowhere
Charlie Parker Quintet
Herb Pomeroy (tp) Charlie Parker (as) Sir Charles Thompson (p) Jimmy Woode (b) Kenny Clarke (d) WHDH radio broadcast, “Storyville”, Boston, MA, September 22, 1953
Now’s The Time, Don’t Blame Me, Dancing On The Ceiling, Cool Blues, Groovin’ High
 

Charlie Parker entrevistado pelo radialista John McLellan e o sax alto Paul Desmond na rádio pública (WHDH) de Boston em janeiro de 1954

JM: Tem muita gente boa naquele disco, mas o estilo do sax alto é completamente diferente de todas as outras no disco ou que se tinha ouvido antes. Você tinha noção do impacto que causaria no jazz? Que você iria mudar completamente a cena nos próximos dez anos?
CP: Vamos por dessa maneira: não. Não tinha idéia de que era tão diferente.
JM: Eu gostaria de fazer uma pergunta, se possível. Gostaria de saber por que houve essa mudança violenta. Afinal de contas até então o estilo de tocar o sax alto era o estilo de Johnny Hodges e Benny Carter, e essa parece uma concepção completamente nova, não só de tocar o sax alto, mas música em geral.
CP: Acho que não há uma resposta clara.
PD: …é da mesma maneira que você come ou respira!?
CP: É o que eu sempre digo, essa foi minha primeira concepção, é a maneira como pensei que as coisas deveriam ser e continuo achando. Quer dizer, a música pode ser sempre evoluída. Muito provavelmente nos próximos 25 ou 50 anos algum jovem vai aparecer pegar a música e realmente fazer algo novo com ela. Mas desde sempre, achei qye deveria ser muito clara e precisa, principalmente precisa, e de alguma maneira acessível às pessoas, algo bonito, saca? Certamente há histórias e mais histórias que podem ser contadas no idioma musical, provavelmente idioma não é a melhor palavra, mas é tão difícil descrever música de outra maneira que não seja básica, música é basicamente melodia, harmonia e ritmo, mas pode-se dizer muito mais que isso. Música pode ser extremamente descritiva em todas as maneiras, todos os caminhos da vida. Concorda Paul?
PD: Sim! E de tudo que já ouvi seu, isso é uma das coisas mais impressionantes a seu respeito, você sempre tem uma história a contar.
CP: Esse é mais ou menos meu objetivo, é como pensei que deveria ser.
PD: Outro ponto fundamental de sua música é essa técnica fantástica à qual ninguém realmente se equiparou. Sempre me perguntei a esse respeito, se sua técnica era fruto de estudo ou foi evoluindo gradativamente com a prática.
CP: Você torna tão difícil pra eu responder, porque sinceramente não vejo o que há de tão fantástico. Pus muitas horas de estudo no sax, é verdade. Tanto que certa vez os vizinhos ameaçaram pedir para minha mãe para que nos mudássemos. Ela disse que eu os estava enlouquecendo com o sax. Costumava estudar pelo menos de onze a quinze horas por dia.
PD: Ahh! Isso que me perguntava.
CP: Sim, eu fiz isso por uns 3 ou 4 anos.
PD: Então essa é a resposta.
CP: Pelo menos são os fatos.
PD: Ouvi um disco seu recentemente que por algum motivo não havia ouvido na época do lançamento, e que em uma das faixas ouvi uma citação de dois compassos do Close Book, foi como um eco do passado. (Desmond cantarola o exercício.)
CP: É. Ela (a técnica) foi toda feita com livros.
PD: É confortante ouvir isso porque de alguma maneira achava que você havia nascido com tal técnica e que você nunca teve de se preocupar com isso, em continuar trabalhando nela.
JM: Fico feliz que esse tema tenha sido trazido à discussão, pois há muitos músicos jovens que tendem a achar isso.
PD: Sim é verdade. Já querem sair tocando…fazer uns showzinhos e viver a vida, mas não dedicam 11 horas por dia nos livros.
CP: Definitivamente o estudo é absolutamente necessário, em todas as maneiras. Como qualquer talento que uma pessoa possa ter, como um bom par de sapatos quando se põe uma graxa e dá-se um brilho, o estudo é o polimento, isso acontece em qualquer lugar do mundo. Einstein era um gênio mas estudou. O estudo é uma das coisas mais maravilhosas.
JM: Fico feliz de ouvir você dizer isso.
CP: Pode apostar.
PD: Qual será o próximo disco?
CP: Qual será?
JM: (locutor aos ouvintes) Bom… Nós escolhemos Night and Day, um dos discos de Parker. Este é com uma banda ou com cordas, Bird?
CP: Não, esse é com a banda ao vivo. Acho que tem uns dezenove músicos neste disco.
JM: Então vamos ouvi-lo e depois comentamos…[McMellan toca Night and Day]
PD: Bom Charlie isso nos leva a perguntar, quando você e Dizzy Gillespie uniram as forças? – o próximo disco que ouviremos – Quando conheceu Diz pela primeira vez?
CP: Bom… A primeira vez, nosso encontro oficial por dizer assim, foi no palco do Savoy Ballrom em Nova Iorque em 1939. Quando a banda de McShann veio à Nova Iorque pela primeira vez. Já tinha estado lá, mas fui para o oeste onde me juntei a banda e voltei para Nova Iorque. Estávamos tocando no Savoy e uma noite Dizzy veio e sentou para tocar com a banda. Eu fiquei simplesmente maravilhado com o cara e nos tornamos bons amigos. E até hoje somos. E então essa foi a primeira vez que tive o prazer de conhecer Dizzy Gillepie.
PD: Ela já estava tocando da mesma maneira, antes de tocar com você?
CP: Não me lembro precisamente. Só sei que ele estava tocando, o que costumávamos chamar, no vernáculo de rua um Beaucoup de sopros, sabe?
PD: Beaucoup?
CP: Sim…Como se tocasse todos os sopros amontoados em um só.
PD: Ahh!
CP: E costumávamos ir a diversos lugares, participar de jams juntos, e nos divertíamos um bocado. Então, depois de sair em excursão pelo oeste com McShann e voltar à Nova Iorque, encontrei Dizzy novamente em 1941 na organização do velho Hines, entrei para a banda e passamos a trabalhar juntos, isso por mais ou menos um ano. A banda era Earl Hines, Dizzy, Sarah Vaughan, Billy Eckstine, Gail Brockman, Thomas Crump, Shadow Wilson…muitos dos nomes que hoje você reconheceria no meio musical estavam naquela banda.
PD: Um time e tanto…
CP: Então a banda se dissolveu no final de 41 e no ano seguinte Dizzy foi para Nova Iorque onde formou sua própria banda e tocava no Three Deuces. Juntei-me ao grupo e foi nessa época que gravamos esses discos que estamos prestes a ouvir.
PD: É, acho que foi com essa formação que lhe ouvi pela primeira vez, no Billy Berg’s.
CP: Ahh, mas isso foi em 45, chegaremos lá.
PD: Só estou ilustrando o quanto eu estava pra trás nisso tudo.
CP: Pare com isso, modéstia vai te levar a lugar nenhum.
PD: Eu sou cool.
JM: Então… vamos rodar este LP de 42… Groovin’ High?
CP: Sim.
JM: Ok! Com vocês Dizzy e Charlie.
JM: Acho que é com Slam Stewart e Remo Palmieri e não me lembro quem toca o piano.
CP: Acho que era o Clyde Hart.
JM: Ahh… é mesmo.
CP: É… e o falecido Big Sid Catlett.
PD: Você ia dizendo que em 42 Nova Iorque estava fervendo…
CP: Sim, estava, bom aqueles eram o que poderiamos chamar os bons velhos tempos, sabe Paul, a alegria da juventude…
PD: Nem me fale.
CP: Sem um centavo e cheio de vida.
PD: Olha o vovô Parker falando.
CP: Sabe, não havia mais nada a fazer a não ser tocar, e nos divertíamos muito tentando tocar. Eu tocava em um porção de Jam Sessions – foram muitas madrugadas, bastante comida boa, um lugar limpo pra morar, mas basicamente uma dureza danada.
PD: Mas isso também é bom… sem preocupações.
CP: Definitivamente, isso teve seu momento.
PD: Você gostaria que isso tivesse se prolongado indefinidamente em sua vida?
CP: Bom, querendo ou não isso aconteceu, verdade Paul. Estou feliz porque finalmente a situação melhorou um pouco, frisando bem o pouco.
PD: Sim!?
CP: Eu curto um pouco essa vida sim, na verdade, o prazer maior é tocar com o tipo de gente que eu toquei. E também conheci músicos jovens que realmente me deram muita satisfação. E se me permite, entre eles você, Paul.
PD: Oh! Obrigado.
CP: Claro, me diverti um montão tocando com você, cara… Um prazer em um milhão… and Dave Brubeck e muitos outros caras. Isso lhe dá a sensação de que se está realmente fazendo algo, sendo parte de um processo.
PD: Você pode ter toda a certeza disso, na minha opinião você fez mais pelo jazz nos últimos dez anos, para deixar uma marca definitiva, do que qualquer outro músico.
CP: Bem… ainda não Paul, mas gostaria. Gostaria de estudar um pouco mais. Não estou nem perto de terminado e não me considero velho para aprender.
PD: Não! E eu sei que há muitas pessoas nesse momento prestando atenção em você com grande interesse, imaginando com o que você vai surgir a seguir…nos próximos anos. E entre eles, na primeira fila, eu. Então, o que você tem em mente? O pretende para o futuro próximo?
CP: Falando seriamente, vou tentar ver se consigo ir para a Europa estudar. Tive o prazer de conhecer em Nova Iorque um sujeito chamado Edgar Varese. É um compositor clássico francês, um cara muito simpático, e quer me ensinar. Na verdade ele quer escrever para mim, quer dizer isso é mais ou menos sério. E quando eu terminar de estudar com ele posso ir para a Academie Musicale em Paris. Meu maior interesse ainda é aprender a tocar música.
JM: Você estudaria instrumento ou composição? Ou os dois?
CP: Os dois. Jamais gostaria de perder a técnica.
PD: E não deveria mesmo, isso seria uma catástrofe.
CP: Não gostaria que isso acontecesse, não daria certo.
JM: Bom nós estamos nos adiantando à seqüência dos discos, mas está sendo fascinante. Gostaria de dizer alguma coisa a respeito de Miles Davis?
CP: Sim, posso lhe contar como conheci Miles. Em 1944, Billy Eckstine formou sua própria banda – Dizzy fazia parte dela, Lucky Thompson, tinha também Art Blakey, Tommy Potter, muitos outros caras e por último e menos importante o que vos fala.
PD: Modéstia vai te levar a lugar nenhum, Charlie. (risos)
CP: Tive o prazer de conhecer Miles pela primeira vez em St. Louis, quando ele era ainda bem jovem e ainda freqüentava a escola. Mais tarde ele veio para Nova Iorque onde concluiu seus estudos na Julliard School. Naquela época estava formando um quinteto aqui e outro ali para me apresentar no Thee Deuces por umas sete ou oito semanas. E Dizzy havia saído da organização de Eckstine, que havia se dissolvido, para juntar sua própria formação. Tanta coisa estava acontecendo que é difícil descrever e tudo aconteceu em questão de meses. Assim fui para a Califórnia com Dizzy depois da dissolução da minha primeira banda e voltei para Nova Iorque no começo de 47 decidido a montar uma banda minha e permanente e Miles havia estado na primeira formação que se apresentou no Three Deuces. Eu tive Miles, tive Max Roach, tive Tommy Potter e Al Haig na minha banda. Outra banda que tive incluía Stan Levey, tinha Curley Russell, e Miles Davis mais George Wallington. Mas creio que você tenha um disco aí com Tommy e Duke Jordan. Qual é? Acho que é “Perhaps”, não é? Deve ter sido lançado em 46 ou 47. Estas faixas foram gravadas em Nova Iorque, Broadway 1440, e esse é o começo de minha carreira como bandleader.
 
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Publicado por em 19 de janeiro de 2009 em charlie parker

 

Kenny Drew Quintet – Undercurrent (1960)

Kenny Drew é mais um caso, entre muitos, de músico com grande respeito e apreço por parte do meio jazzístico especializado e ao mesmo tempo praticamente ignorado pelo ouvinte eventual e público em geral. Você nunca encontrará um cd ou fascículo em banca de jornal com seu nome mas corre-se sempre o risco de encontrá-lo como sideman de algum nome de reconhecimento mais abrangente. Drew teve, assim como sua referência de piano moderno Bud Powell, um aprendizado formal em música desde muito novo. Nascido em 1928 na Nova Iorque onde na sua adolescência reinavam nos clubs e transmissões de rádio Fats Waller e Art Tatum, suas primeiras influências, nos anos 40 começa a circular pela cena musical com seus colegas e vizinhos Sonny Rollins, Jackie McLean, Art Taylor e Walter Bishop Jr. Ele é um legítimo integrante de uma geração chamada por Jackie McLean de Bebop Babies. Drew grava sua primeira participação em estúdio em um álbum do trompetista Howard McGhee ao lado de músicos como J.J. Johnson e Max Roach em 1950. Nessa mesma época faz algumas apresentações com Charlie Parker e a partir de então sua carreira decola, durante toda a década será um requisitado sideman para importantes selos como Blue Note e Riverside. Drew mudou-se para a europa em 1961 e lá permaneceu até sua morte em 4 de agosto de 1993.

Undercurrent é uma típica sessão de hardbop puro com músicos já bastante entrosados, uma sessão really blowin, como se usa chamar em jargão jazzístico. O tema título do álbum, que abre o disco, é um bebop da melhor estirpe, construído em tonalidade menor e de groove rápido. Hubbard mostra suas habilidades no bebop e Drew deixa claro a ponte estilística que construiu ao unir Tatun e Bud Powell. “Funk-Cosit” mantém a tonalidade menor porém o andamento agora é puro relax, Drew mostra que apesar de suas influências de estilo veloz também aprendeu com nomes como Horace Silver e Sonny Clark o toque de sabor bluesy e funky. “Groovin’ The Blues” é veículo perfeito para todos os solistas, o clássico blues em tom menor. Todo o talento do compositor Drew vem a tona na melancólica e linda “Ballade”, por instantes não sabemos se estamos ouvindo Drew ou McCoy Tyner tal a similaridade de estilo, mas quando pensamos que essa característica talvez tenha impulsionado Coltrane a escolhe-lo como pianista do célebre álbum Blue Train, logo percebemos que se trata do Drew também pianista de vanguarda.

Tudo nesse álbum é simples e padrão. O esquema da sessão? Padrão Blue Note, 6 temas por disco, 3 originais hard bop, 1 balada, 1 blues e 1 tema de groove funky ou Rythm’n’Blues. É isso, deu certo com Horace Silver, Lee Morgan, Jackie McLean…todo mundo. É como eu disse, tudo padrão ……….. de QUALIDADE!

Freddie Hubbard (tp) Hank Mobley (ts) Kenny Drew (p) Sam Jones (b) Louis Hayes (d)
Rudy Van Gelder Studio, Englewood Cliffs, NJ, December 11, 1960
1. Undercurrent
2. Funk-Cosity
3. Lion’s Den
4. Pot’s On
5. Groovin’ the Blues
6. Ballade
 
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Publicado por em 19 de janeiro de 2009 em freddie hubbard, hank mobley, kenny drew, louis hayes, sam jones