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Arquivo mensal: dezembro 2009

Joe Farrell With Art Pepper – Darn That Dream (1982)

No dia 23 de março de 1982 um encontro muito especial acontecia em um estúdio de gravação na Califórnia. O saxofonista Joseph Carl Firrantello, mais conhecido como Joe Farrell, convidava o lendário altoísta Art Pepper para participar em 3 faixas de seu novo álbum, “Darn That Dream”. Esta seria a penúltima sessão de gravação de Art Pepper, que viria a falecer em 15 de junho daquele ano. Joe Farrell estava no auge de sua forma. Seu toque, profundamente influenciado por Coltrane, atingia o ápice que somente os grandes mestres conseguem se aproximar. Dono de um timbre vigoroso, que também fincava raízes no estilo de Sonny Rollins, um fraseado eloquente e extremamente dinâmico, trazia em sua música um amálgama perfeito das duas grandes escolas estilísticas do saxofone moderno. Art Pepper era já uma lenda do jazz desde sua travessia pelo árido deserto da luta para se livrar da adição à heroína, fato que desde os anos 40 o atormentou e o tirou de cena por diversas vezes, com condenações judiciais sucessivas: 1954–56, 1960-61, 1961-64 e 1964-65. Após passar por um longo tratamento na década de 70, voltou à luz de sua arte em 1975. Em seus 7 últimos anos de vida produziu o melhor de sua obra, em uma sucessão de momentos de grande arte, sejam em estúdios ou nos palcos dos clubes, diante de uma platéia sempre ávida por ouvi-lo. Sua estória foi narrada em uma autobiografia, transcrita e publicada por Laurie Pepper, sua última companheira em 1980, “Straight Life”. O álbum começa com “Section-8 Blues”, um tema complexo, com autoria creditada a todos os músicos envolvidos na sessão, notadamente os dois saxofonistas acrescidos do pianista George Cables, do contrabaixista Tony Dumas e do baterista John Dentz. O primeiro solo é de Pepper, que de pronto deixa claro que havia transcendido de sua influência de Charlie Parker e anexado as conquistas harmônicas modais de Coltrane ao seu vocabulário. O tema parece ter saído da pena de McCoy Tyner, o solo de Farrell é intenso, assim como o drumming imposto por John Dentz. A balada que dá nome ao álbum é veículo exclusivo para o sax alto de Pepper, em uma interpretação languida e emotiva. O pianista faz sua intervenção de 1 chorus atendo-se ao clima e dinâmica definidos por Pepper. “Mode For Joe”, a bela e instigante composição de Cedar Walton em homenagem ao saudoso Joe Henderson, tem Farrell solando primeiro e apresentando as amplas extensões harmônicas, tão bem utilizadas pelo homenageado. Pepper explora os registros mais graves de seu instrumento no início de um solo de maravilhosa concepção estética. Esta é a última participação de Art Pepper na sessão. “Blue & Boogie”, de Paparelli e Dizzy Gillespie, mostra a desenvoltura do quarteto no bebop, com Cables mostrando ecos de Bud Powell e John Dentz seu conhecimento sobre o estilo de Kenny Clarke. “You Stepped Out Of A Dream” tem o tema apresentado sobre um groove latino de intenso swing. Cables, Tony Dumas e Dentz apresentam performances vigorosas. “Someday My Prince Will Come” é o veículo para Farrell apresentar sua imensa capacidade de pordução de idéias musicais. Sua improvisação é fluida, rica melódica e harmônicamente. “On Green Dolphin Street”, de Bronislaw “Invitation” Kaper, com sua harmônia espetacular – como é praxe nas composições de Kaper – inicia com uma improvisação modelar de George Cables, Farrell se concentra no aspecto melódico da composição enquanto Dentz não deixa espaço carente de pulsação. Tony Dumas tem 1 chorus de improvisação antes de voltarem ao tema para sua finalização. O álbum encerra com um original de Farrell, a latina “Fun For One And All”, tema baseado em melodia popular caribenha. Podemos ver a sombra de Sonny Rollins enquanto ouvimos Farrell improvisar vigorosamente. Joe Farrell faleceria 4 anos após vitimado de câncer nos ossos, deixando a cena musical quando atingia a plenitude de sua maturidade como músico.
“Darn That Dream” é um registro especialíssimo na obra destes dois gigantes que foram Art Pepper e Joe Farrell.
Art Pepper (as) Joe Farrell (ts) George Cables (p) Tony Dumas (b) John Dentz (d) Los Angeles, CA, March 23, 1982
1- Section-8 Blues (A. Pepper- J. Farrell – J. Dentz – G. Cables – T. Dumas)
2- Darn That Dream (Eddie DeLange – Jimmy Van Heusen)
3- Mode For Joe (C. Walton)
4- Blue & Boogie (F. Paparelli – D. Gillespie)
5- You Stepped Out Of A Dream (G. Kahn – H. Brown)
6- Someday My Prince Will Come (L. Morey – F. Churchill)
7- On Green Dolphin Street (B. Kaper – N. Washington)
8- Fun For One And All (J. Farrell)
 
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Publicado por em 20 de dezembro de 2009 em Art Pepper, George Cables, Joe Farrell, John Dentz, Tony Dumas

 

Louis Smith Quintet – Here Comes Louis Smith (1957)

Edward Louis Smith nasceu em 20 de maio de 1931 em Memphis, Tennessee. Aos 13 anos se encontrou com o trompete em uma banda enquanto cursava a High School. Em 48 recebe uma bolsa para cursar a Tennessee State University, onde graduaria em musica. Iniciando sua pós-graduação, transfere-se para a University of Michigan, onde, segundo ele, começa a ter seus mais memoraveis momentos como músico de jazz acompanhando visitantes como: Dizzy Gillespie, Miles Davis, Thad Jones e Billy Mitchell. Convocado para o serviço militar em 1954, encontra-se neste contexto com seu conterrâneo, Phineas Newborn. Dispensado no final de 55, começa a lecionar na Booker T. Washington High School, em Atlanta, Georgia. Declara o próprio Louis Smith: “Meu caminho no idioma jazz é grandemente influenciado por minha ardente admiração pelos saudosos Fats Navarro, Clifford Brown e Charlie Parker. Recentemente tenho tocado com Cannonball Adderley, Percy Heath, Philly Joe Jones, Lou Donaldson, Donald Byrd, Kenny Dorham e Zoot Sims”. “Here Comes Louis Smith” é sua a primeira sessão como líder e está muito bem acompanhado para tal: Cannonball Adderley no sax alto, usando o pseudônimo de Buckshot LaFunke; os pianistas Tommy Flanagan e Duke Jordan se revezando, o contrabaixista Doug Watkins, e o mestre Art Taylor na bateria. Louis havia feito sua estréia em gravações apenas 1 ano antes, em 1956, acompanhando o guitarrista Kenny Burrell, no álbum Kenny Burrell’s Swingin’. Em 57, o produtor Tom Wilson, de Boston, gravaria o master deste álbum, que se chamaria “Transition”, mas não o lançaria comercialmente, vendendo-o a Alfred Lion, da Blue Note, em 1958. Rapidamente Lion assinaria um contrato de exclusividade com Louis e ainda o escalaria para participar de duas sessões na gravadora, de onde sairiam os álbuns “Kenny Burrell’s Blue Lights” e “Booker Little 4 “. Em 58 ainda substituiria brevemente Art Farmer no quinteto de Horace Silver, com quem participaria da gravação ao vivo no Newport Festival. “Here Comes Louis Smith” incia com um bop meio-ligeiro em tonalidade menor, uma homengaem de Louis a seu ídolo e amigo Clifford Brown, “Tribute To Brownie”. O tema é apresentado por um adlib de 30 compassos entre o trompetista e o baterista Art Taylor. Solos inspirados se seguem pelo parkeriano Cannonball, Duke Jordan com sua escola a la Bud Powell, e o inspirado trompetista iniciante se ombreando a seu ídolo e homenageado. Percebam o quanto são especiais o fraseado e o timbre deste trompetista no blues menor “Brill’s Blues”. Cannonball está em seu elemento natural, ele que foi um dos maiores intérpretes de blues surgidos na cena jazzística. “Ande” é uma paráfrase bop de “Indiana”, Louis mostra um domínio técnico só encontrado nos grande mestres, fraseado rápido, inteligente, e perfeito domínio da emissão. O Cannonball desta fase era um músico que supria com grande competência a enorme lacuna deixada pela morte de Charlie Parker. Bop, blues e uma balada são a tríade perfeita pra se testar as capacidades técnicas e expressivas de qualquer músico de jazz. “Stardust” tira qualquer dúvida que porventura ainda permaneça no ouvinte. A leitura de Louis Smith é límpida, emotiva e nada clichê. “South Side” é mais um bop perfeito para as inflexões de Louis e Cannonball, o competente e seguro piano de Jordan é uma constante em toda as faixas que participa. “Val’s Blues” encerra o álbum com o fogo que permeia a todas as faixas, provida em grande parte pelo intenso drumming de Art Taylor. Louis Smith gravou muito pouco em toda sua carreira, dedicou-se intensamente ao ofício de lecionar. Em 2005 sofreu um AVC do qual vem se recuperando com muita dificuldade para recobrar os movimentos e, até mesmo, a capacidade de falar. Esta gravação, sábiamente comprada por Alfred Lion no longíquo 1957, permanece como um dos maiores testemunhos da imensa criatividade e talento deste magnífico músico.
Louis Smith (tp) Cannonball Adderley (as) Duke Jordan (p) Doug Watkins (b) Art Taylor (d)
NYC, February 4, 7
*Louis Smith (tp) Cannonball Adderley (as) Tommy Flanagan (p) Doug Watkins (b) Art Taylor (d)
NYC, February 9, 7
1- Tribute to Brownie (D. Pearson)
2- Brill’s Blues (L. Smith)
3- Ande (L. Smith)*
4- Stardust (H. Carmichael)*
5- South Side (L. Smith)
6- Val’s Blues (L. Smith)*
 

Kirk Lightsey & Harold Danko – Shorter By Two (1983)

O amigo, leitor, blogueiro, e garimpeiro maior de raridades, Sérgio Sônico, nos presenteia com esta raridade dos pianistas Kirk Lightsey e Harold Danko, “Shorter By Two”. Danko, sobre o qual falamos no post anterior, se une ao grande parceiro de gravadora, Kirk Lightsey, para uma viagem pela obra do gênio Wayne Shorter. Um álbum com somente dois pianos não é coisa para principiantes ou para qualquer músico tentar. As armadilhas em que se podem meter são muitas e de dificil escape. Absolutamente não é o caso com estes dois mestres do piano jazz, Danko e Lightsey mostram, a todo momento, que estão cientes e senhores dos caminhos a serem percorridos nas difíceis harmonias de composições de Wayne Shorter. A escolha do repertório dá um apanhado completo da obra de Wayne, indo de composições do final dos anos 50, quando os temas foram escritos para os Jazz Messengers de Art Blakey, até os anos 70, quando Wayne mostrava direções musicais as mais amplas possiveis. “Ana Maria” é uma composição do álbum “Native Dancer”, de 1974, que contou com as participações de músicos brasileiros e de Milton Nascimento. É uma melodia de intensa beleza, onde Lightsey toca diretamente nas cordas do piano na introdução. Os músicos se revezam e completam-se na exposição melódica e harmônica do belo tema. “Dolores” foi composta para o quinteto de Miles Davis nos anos 60, no álbum “Miles Smiles”. É um tema modal de andamento médio. “Dance Cadaverous” é parte do genial álbum “Speak No Evil”, gravado pelo quinteto de Wayne em 64. O clima construído traz ares da música de Erik Satie. “Pinocchio” foi composta em 67 para o álbum “Nefertiti”, do quinteto de Miles. A interação dos pianistas na exposição do tema em uníssono é de uma perfeição ímpar. “Marie Antoinette” foi gravada pelo sexteto de Freddie Hubbard em 1961, no álbum “Ready For Freddie “. O clima de ragtime é reforçado por Lightsey emulando um banjo diretamente nas cordas do piano. “Armageddon” é um blues em tonalidade menor, gravado em 64, pelo quinteto de Wayne, no álbum “Night Dreamer”. Os pianistas fazem uma breve e solene leitura do tema. “Lester Left Town” é outra peça composta para os Messengers, gravada em 1960, no álbum “The Big Beat”. “Witch Hunt”, mais uma composição do antológico álbum “Speak No Evil”, de 1964. “Iris” é uma das gemas de Wayne que fazem parte do álbum “E.S.P.”, do quinteto de Miles Davis, gravado em 1965. Um tema modal que serve de veículo para divagações mais abrangentes dos dois músicos. “El Gaucho” fez parte do álbum “Adam’s Apple”, gravado pelo quarteto de Wayne em 1966. “Nefertiti”, composição de carater etéreo, produzida para o álbum homônimo do quinteto de Miles, em 1967, encerra este tratado pianístico da música brilhante criada pela magnífica mente de Wayne Shorter, interpretada pelos, não menos, brilhantes Kirk Lightsey e Harold Danko. At last but not least, temos que agradecer, novamente, ao amigo Sérgio Sônico por este belo presente que, com muita satisfação, compartilhamos com os leitores.
Kirk Lightsey e Harold Danko (piano)
1- Ana Maria
2- Dolores
3- Dance Cadaverous
4- Pinocchio
5- Marie Antoinette
6- Armageddon
7- Lester Left Town
8- Witch Hunt
9- Iris
10- El Gaucho
11- Nefertiti
 
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Publicado por em 17 de dezembro de 2009 em Harold Danko, Kirk Lightsey

 

Harold Danko – Alone But Not Forgoten (1986)

“Alone But Not Forgoten” é um trabalho minuscioso do pianista Harold Danko, músico de Ohio, onde nasceu em 1947. Atualmente é professor na Youngstown State University, mas traz em seu currículo trabalhos com Chet Baker, na orquestra de Woody Herman e na Thad Jones – Mel Lewis Big Band. Profundamente influenciado pela pianística de Bill Evans, Danko cercou-se de 2/3 do último trio de Bill para a gravação deste álbum: o contrabaixista Marc Johnson – em 3 faixas – e o baterista Joe LaBarbera, que também produziu arranjos de cordas para alguns temas. Em cinco faixas há a participação do contrabaixo de Michael Moore. Danko revelas nas notas de contracapa 3 trilhos básicos nos quais procurou desenvolver o repertório: O sentido de um “mood”, em que cita como referencias os álbuns “Kind Of Blue”, de Miles Davis, “Speak No Evil”, de Wayne Shorter, e “Live At The Village Vanguard” de Bill Evans; a melodia presente na música brasileira, via composições de Tom Jobim e nas figuras rítmicas do baterista Edison Machado; e a concepção da obra do pianista Bill Evans, seu mentor em piano jazz. Harold Danko se sai muito bem neste trabalho de caráter intimista, rico em nuances sonoras, com suas composições ladeadas a outras de grandes mestres como Cal Tjader – Liz Ann; Edú Lobo – O Circo Místico; e Bill Evans – Laurie, onde o cantor Bob Dorough faz uma particpação além de escrever a letra para este belo tema. Não se deixem levar pela capa um tanto cool do álbum, que chega a sugerir um trabalho tipo Richard Clayderman. “Alone But Not Forgoten” é um registro especial de um pianista que mostra de onde vem suas concepções, e coloca verdade e coração na música que produz.

 

Harold Danko – piano; Joe LaBarbera – drums, string arr; Marc Johnson – bass (2,6,8); Michael Moore – bass; Bob Dorough – vocal (8)
1- Wayne Shorter (H. Danko)
2- Martina (H. Dankko)
3- When Everything Gets Quiet (H. Danko)
4- Alone But Not Forgotten (H. Danko)
5- Liz Ann (C. Tjader)
6- Candlelight Shadows (H. Danko)
7- O Circo Mistico (E. Lobo)
8- Laurie (B. Evans – B. Dorough)

 

 
 

Victor Assis Brasil – Toca Antonio Carlos Jobim (1970)

Está aqui um álbum que reúne dois gênios. Isso mesmo! Não é figurinha de retórica não! O gênio composicional de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim – o Tomzinho, e o gênio do sax alto Victos Assis Brasil. Precisa dizer mais alguma coisa? Ah…precisa sim. Neste álbum Victor se faz acompanhar por caras do calibre de um Hélio Delmiro, de um Dom Salvador, e dois Edisons geniais: o Lobo e o Machado. No mais, qualquer texto que eu colocar aqui com a tentativa de discorrer sobre o que você vai escutar será infame, incompleto, pequeno, desnecessário, pretencioso, e dispendioso de seu tempo que deve ser dedicado a ouvir esse tesouro. Tenho dito!
Victor Assis Brasil – sax alto, sax soprano; Dom Salvador – piano; Hélio Delmiro – guitarra; Edson Lobo – baixo; Edison Machado – bateria
1- Wave
2- Só tinha de ser com você
3- Bonita
4- Dindi
5- Quartiniana
 

Joe Diorio – To Jobim With Love (1995)

O guitarrista e educador Joe Diorio é uma espécie de guru para vários músicos. Há muitos anos ele se dedica a lecionar e produzir materiais didáticos relacionados ao ensino de seu instrumento. Diorio se diz um apaixonado pela música de Tom Jobim e pela melodia, desde o início dos anos 60 quando ouviu pela primeira vez uma composição de Tom, “Corcovado”, “…a melodia era tão intensa que eu mal podia sentir o chão. A música de Jobim realmente me ensinou o quão importante é a melodia. Desde então tenho seguido este caminho, sempre buscando melodias em minha música”, afirma Diorio. Muitos jazzistas tem gravado as composições de Jobim e de outros compositores da bossa-nova, porém poucos com o sentido de entendimento real desses temas. Na maioria das vezes enxertam frases rápidas, recheadas de notas, que não se coadunam com o verdadeiro feeling da bossa-nova, onde menos é sempre mais. Diorio, ao contrário, exibe um vasto entendimento desta filosofia contida na música de Tom, sempre procurando na melodia e nas sutilezas harmônicas, o caminho adequado para sua performance. Este álbum, com certeza, faria Tom sorrir, satisfeito, feliz, pelo entendimento completo que Diorio mostra ter sobre seu trabalho. O tema que abre o disco é um belo réquiem de Diorio dedicado à Tom, o restante, as mais belas flores colhidas na vasta floresta de beleza musical com que Tom Jobim presenteou a todos os cidadãos do mundo.
Joe Diorio (g)
Recorded in Milano, 2-6 september, 1995
1- To Jobim with love
2- Children’s game (Chovendo na Roseira)
3- Corcovado
4- O amor em paz
5- Desafinado
6- Se Todos Fossem Iguais a Você
7- Zingaro
8- Samba de uma nota só
9- Meditação
10- Triste
11- The Red Blouse
12- O Grande Amor
13- Wave (Vou Te Contar)
14- Dindi
15- Inútil Paisagem
16- Garota de Ipanema
17- Chega De Saudade
 
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Publicado por em 9 de dezembro de 2009 em Joe Diorio

 

Jack Wilson – Plays Brazilian Mancini Special Guest Tony Brazil (a.k.a Tom Jobim) (1965)

Jack Wilson é um músico sobre o qual não se tem muitas informações, sei que atuou junto ao vibrafonista Roy Ayers na primeira metade da década de 60 e fez algumas gravações com o trompetista Clark Terry. “Plays Brazilian Mancini” foi gravado no início de 65, no auge da febre da bossa nova. Tom Jobim estava desde o final do ano anterior em Los Angeles cuidando da versão das letras de suas músicas junto a Ray Gilbert. Tom havia assinado um contrato de exclusividade com a gravadora Verve, estava envolvido com as versões e preparava “The Wonderful World Of Antonio Carlos Jobim”, disco que seria gravado com arranjos de Nelson Riddle. O baixista Tião Neto estava trabalhando com Jack Wilson juntamente com Chico Batera e quando soube que Jack estava procurando um violonista imediatamente pensou em Tom. Segundo conta Helena, irmã de Tom, na biografia escrita por ela, Tião foi até a casa de Tom e foi uma luta para convence-lo a aceitar o trabalho. Tom alegava a exclusividade exigida no contrato e Jack propôs que ele usasse um pseudônimo. Tião Neto logo inventou um: “Tony Brazil”. Assim surgiu esta bela gravação das músicas de Henri Mancini com Tom Jobim ao violão. O resto é história, deste que foi o mais refinado compositor popular brasileiro, que carregava o Brasil no pseudônimo, em seu próprio nome: Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e nas centenas de músicas maravilhosas que compôs, segundo ele, todas inspiradas pela Mata Atlântica que cobria o país de norte a sul. Esta mente brilhante se extinguiu a exatos 15 anos atráz em 8 de dezembro de 1994. Como diria seu amigo e parceiro Vinícius de Morais; Saravá Tomzinho!
Jack Wilson – piano; Roy Ayers – vibes; Chico Batera – drums; Sebastião Neto – bass; Tony Brazil (a.k.a. Tom Jobim ) – guitar
Gravado em Los Angeles, CA, 1965
1- Blue Satin
2- Days of Wine and Roses
3- Sally’s Tomato
4- Sofitly
5- Lujon
6- Mr. Lucky
7- Brekfast At Tiffanys
8- Dear Heart
9- Night Flower
 

Dick Farney Trio – Concerto de Jazz Ao Vivo (1973)

Encerrando esta primeira série de postagens relativas ao imensurável Dick Farney, temos um concerto realizado pelo trio com Sabá e Toninho no Auditório de O Globo, organizado pelo radialista e profundo conhecedor de jazz Paulo Santos. Era o primeiro concerto deste trio em um grande palco – haviam se apresentado, até então, somente em pequenos espaços como boites. O concerto se inicia com Paulo Santos anunciando o trio e Dick ataca de pronto um magnífico chorus de “Perdido”, de Juan Tizol. A fluência de Dick é de fazer cair o queixo já nos primeiros segundos da apresentação, em uma performance digna de um Oscar Peterson e Erroll Garner. “Thank You”, é uma composição de Dave Brubeck dedicada a Federic Chopin, um tema impregnado de emoção e drama. Dick executa uma leitura perfeita, secundado na exposição do tema por Sabá ao contrabaixo tocado com o arco. Esta é uma das composições que Dick mais gostava de tocar, uma dupla homenagem a seu pianista de jazz e compositor erudito preferidos. Uma apresentação de “When Lights Are Low”, imortalizada por Miles Davis, revela o quão lúcido e refinado era o pianista Dick Farney. O programa que se iniciou com um tema do repertório de Duke Ellington não poderia desmerecer à Count Basie, “Cute”, de Neal Hefti, é apresentada com um soberbo swing que arranca manifestações do público extasiado. O baterista Toninho faz um brilhante trabalho com as escovas e Sabá impõe um groove avassalador. A belíssima “The Shadow Of Your Smile”, de Johnny Mandel, traz brasilidade ao repertório ao ter seu tema executado em levada de bossa, o bom gosto de Dick se mostra na escolha dos acordes da harmonia que sustentam toda a improvisação, digna de um mestre do bebop. “These Foolish Things” dá chance para a platéia respirar, Dick a executa em um andamento que valoriza sua bela melodia. Ecos do estilo de George Shearing se fazem perceber. A bela valsa “Someday My Prince Will Come” encerra o programa deste especial concerto de jazz.
Dick Farney (piano); Toninho (bateria); Sabá (contrabaixo)
1 – Perdido (Tizo / Lengsfelder / Drake)
2 – Thank You (Dziekuje) (Dave Brubeck)
3 – When Lights Are Low (Carter / Williams)
4 – Cute (N. Hefti)
5 – The Shadow Of Your Smile (J. Mandel / Paul Francis Webster)
6 – These Foolish Things (Remind Me Of You) (Strachey / Link / Marvell)
7 – Someday My Prince Will Come (Churchill / Morey)
 
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Publicado por em 6 de dezembro de 2009 em Dick Farney, Sabá, Toninho

 

Dick Farney Trio – 5 Anos de Jazz (1977)

Em 14 de novembro de 1921 nasceu Farnésio Dutra e Silva, futuramente conhecido como Dick Farney, filho de um compositor e concertista e uma cantora. Já aos 3 anos o menino se iniciava no piano e ainda adolescente se apresentava em programas juvenis nas rádios do Rio de Janeiro. De 1941 a 44, foi crooner da orquestra de Carlos Machado no Cassino da Urca. Em 46 grava seu maior sucesso, “Copacabana”, e se apresenta no Golden Room do Copacabana Palace onde foi escutado pelo arranjador e maestro norte-americano Bill Hitchcock e pelo pianista Eddie Duchin e convencido a tentar carreira nos EUA. Lá, teve programa na rádio NBC e se apresentou no Aldorf Astoria, sendo o primeiro a gravar o standard “Tenderly”. De volta ao Rio em 48, se apresenta na boate Vogue. Apesar do grande sucesso que alcançou como cantor, Dick nunca abandonou suas maiores paixões: o piano e o jazz. Na década se 50 grava vários álbuns e participa de pioneiras apresentações de jazz no Rio e em São Paulo. No final da década e nos anos 60, apresenta programa de televisão na antiga TV Record de São Paulo e na recém inaugurada Rede Globo, com sua orquestra. Foi empresário da noite com sua boate Farney’s em São Paulo. Em 1971, formou um trio com dois ex-integrantes do Jongo Trio, o contrabaixista Sabá e o baterista Toninho. “5 Anos de Jazz” é uma gravação ao vivo realizada nos estúdios da EMI-Odeon e comemorava esta associação de sucesso entre os tres músicos. O álbum inicia com a composição de Dave Brubeck “Brandenburg Gate”, tributo de Brubeck a Bach. Brubeck foi sua maior e mais clara influência, algo sempre declarado pelo próprio Dick, assim como antes dele o foram: Fats Waller, Art Tatum, Nat King Cole, George Shearing e Erroll Garner. Dick conseguiu deste amálgama de influências forjar seu próprio estilo, rico em nuances tonais, harmônicas, e como sempre, com um profundo bom gosto. “Autumn Leaves” mostra o estilo impregnado de Garner e uma reinvenção melódica digna somente dos grandes mestres. “We’ll Be Together Again” traz uma modernidade harmônica que o aproxima de um Bill Evans, com a utilização de pausas que enriquecem e tornam seu toque atual e denso. Garner está lá, sempre, nos vamps de mão esquerda e nas cascatas de notas que fluem com extrema naturalidade. “Besame Mucho” tem uma das mais belas interpretações que já pude ouvir deste antológico bolero. Mais uma vez as pausas e o rico tratamento da harmonia, colaboram para uma reinvenção total do tema. Brubeck é mais uma vez trazido a colaborar com o repertório com seu fabuloso “Three To Get Ready” antes que uma leitura inspirada de “Our Love Is Here To Stay”, de Gershwin, um de seus compositores favoritos, encerrrem este magnífico álbum de piano jazz. Toda interpretação de Dick é uma aula de bom gosto, dedicação e competência. Dick Farney não foi própriamente um músico “underrated”, já que atingiu os píncaros do sucesso nos anos 40 e 50 como cantor, mas foi, sem dúvida o mais injustiçado instrumentista neste Brasil sem memória e respeito pelos seus artistas de real talento. Dick nunca foi lembrado para atuar em nenhuma edição dos festivais internacionais de jazz realizados no Brasil. Uma falha que nunca poderá ser retratada, uma verdadeira vergonha em termos de justiça com este ícone do jazz produzido no Brasil. Dick não foi só um grande músico, era uma das pessoas de maior gentileza e caráter que já tive o privilégio de conhecer. Isto ocorreu em 1983, em uma pequena casa de show em Itaipava, chamada Le Moulin, à beira da BR-040. Dick estava lá, cantando e se acompanhando ao piano, gentil, humilde, solícito, mas não muito feliz. Algo nele sempre revelou uma certa melancolia nestes seus últimos anos de vida, que se extinguiria em 4 de agosto de 1987 em São Paulo. Dick sabia, melhor do que ningém, que não lhe davam mais o tratamento merecido por alguém de sua estatura e genialidade, porém nunca ouvi dizer que tivesse se queixado disto.
Disse ele uma vez em uma entrevista a revista Manchete:
“…Nunca traí um compromisso, nunca me prostituí. Nunca aderi a modismo. Quando senti que a maré não estava para peixe não fui correndo mudar de estilo. Continuei fiel ao meu gosto, às minha concepções de arte e ao meu público. E me realizei.”
Dick era assim, um gênio calado e cordial, um gentleman como nunca vi outro igual.
Antes dos dados técnicos do álbum em questão, convido aos leitores que conheçam mais deste maravilhoso músico e ser humano, ouvindo um depoimento gravado, pouco antes de seu falecimento, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Dick fala de sua vida, suas influências, seu amor à música e ao piano, e toca magistralmente como sempre soou acontecer.

Dick Farney (piano), Saba (contrabaixo), Toninho (bateria).

Gravado nos estúdios da EMI-Odeon, em 1977

1- Brandenburg Gate

2- Autumn Leaves

3- We’ll Be Together Again

4- Besame Mucho

5- Three To Get Ready

6- Our Love Is Here To Stay

http://ouo.io/5CPpyv

 
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Publicado por em 5 de dezembro de 2009 em Dick Farney, Sabá, Toninho

 

Dick Farney Quartet – Jazz After Midnight (1956)

No dia 11 de julho de 1956, no Teatro de Cultura Artística de São Paulo, foi realizado um concerto em homenagem aos 19 anos de falecimento do célebre compositor norte-americano George Gershwin. Apresentou-se o mais conceituado músico brasileiro de jazz da época, o pianista Dick Farney e seu quarteto. A ocasião também se tornou histórica por ter originado o primeiro LP de 12 polegadas inteiramente produzido no Brasil. Dick vivia seu momento de maior sucesso como cantor, tendo somente a dois anos retornado de uma temporada nos EUA. Porém a integridade artística de Dick Farney nunca permitiu que esquecesse o que ele realmente era, um dos mais capacitados pianistas de jazz que o Brasil já conheceu. Educado tanto na música erudita quanto no jazz, Dick sempre mostrou em sua forma de tocar suas maiores influências: Bach, Dave Brubeck e Erroll Garner. O quarteto tinha entre seus integrantes o formidável saxofonista alto Casé, o contrabaixista Shoo Viana e o baterista Rubens Barsotti (Rubinho). Casé sempre foi um músico completo, que sabia se adaptar com imensa flexibilidade ao que a música produzida lhe exigia. Nesta ocasião, atendendo às expectativas de Dick, Casé emula a sonoridade e fraseado de Paul Desmond, antológico saxofonista do quarteto de Dave Brubeck. Dick, como sempre, revela sua técnica pianística impecável, seu gosto refinado, e a capacidade peculiar de alternar entre contrapontos bachianos e vamps jazzísticos. Nesta garvação o ouvinte encontra algo que se torna cada vez mais raro nos dias de hoje, músicos inteiramente dedicados a sua arte e suas idéias, despreocupados com os resultados materiais, e fluindo uma música de honestidade e sinceridade ímpares.
Músicos como Dick Farney e Casé, deveriam ter estátuas em praças públicas em todas as cidades do país!
Dick Farney (piano); Casé (sax alto); Rubens Barsotti (bateria); Shoo Viana (contrabaixo)
Gravado ao vivo no Teatro de Cultura Artística, São Paulo, em 11 de julho de 1956.
1 – Strike Up The Band (George Gershwin)
2 – Embraceable You (Ira Gershwin / George Gershwin)
3 – Oh Lady Be Good (George Gershwin)
4 – But Not For Me (Ira Gershwin / George Gershwin)
5 – I Got Rhythm (George Gershwin / Ira Gershwin)
6 – A Foggy Day (Ira Gershwin / George Gershwin)
7 – The Man I Love (Ira Gershwin / George Gershwin)
 
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Publicado por em 3 de dezembro de 2009 em Casé, Dick Farney, Rubens Barsotti, Shoo Viana