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Dick Farney Trio – 5 Anos de Jazz (1977)

05 dez

Em 14 de novembro de 1921 nasceu Farnésio Dutra e Silva, futuramente conhecido como Dick Farney, filho de um compositor e concertista e uma cantora. Já aos 3 anos o menino se iniciava no piano e ainda adolescente se apresentava em programas juvenis nas rádios do Rio de Janeiro. De 1941 a 44, foi crooner da orquestra de Carlos Machado no Cassino da Urca. Em 46 grava seu maior sucesso, “Copacabana”, e se apresenta no Golden Room do Copacabana Palace onde foi escutado pelo arranjador e maestro norte-americano Bill Hitchcock e pelo pianista Eddie Duchin e convencido a tentar carreira nos EUA. Lá, teve programa na rádio NBC e se apresentou no Aldorf Astoria, sendo o primeiro a gravar o standard “Tenderly”. De volta ao Rio em 48, se apresenta na boate Vogue. Apesar do grande sucesso que alcançou como cantor, Dick nunca abandonou suas maiores paixões: o piano e o jazz. Na década se 50 grava vários álbuns e participa de pioneiras apresentações de jazz no Rio e em São Paulo. No final da década e nos anos 60, apresenta programa de televisão na antiga TV Record de São Paulo e na recém inaugurada Rede Globo, com sua orquestra. Foi empresário da noite com sua boate Farney’s em São Paulo. Em 1971, formou um trio com dois ex-integrantes do Jongo Trio, o contrabaixista Sabá e o baterista Toninho. “5 Anos de Jazz” é uma gravação ao vivo realizada nos estúdios da EMI-Odeon e comemorava esta associação de sucesso entre os tres músicos. O álbum inicia com a composição de Dave Brubeck “Brandenburg Gate”, tributo de Brubeck a Bach. Brubeck foi sua maior e mais clara influência, algo sempre declarado pelo próprio Dick, assim como antes dele o foram: Fats Waller, Art Tatum, Nat King Cole, George Shearing e Erroll Garner. Dick conseguiu deste amálgama de influências forjar seu próprio estilo, rico em nuances tonais, harmônicas, e como sempre, com um profundo bom gosto. “Autumn Leaves” mostra o estilo impregnado de Garner e uma reinvenção melódica digna somente dos grandes mestres. “We’ll Be Together Again” traz uma modernidade harmônica que o aproxima de um Bill Evans, com a utilização de pausas que enriquecem e tornam seu toque atual e denso. Garner está lá, sempre, nos vamps de mão esquerda e nas cascatas de notas que fluem com extrema naturalidade. “Besame Mucho” tem uma das mais belas interpretações que já pude ouvir deste antológico bolero. Mais uma vez as pausas e o rico tratamento da harmonia, colaboram para uma reinvenção total do tema. Brubeck é mais uma vez trazido a colaborar com o repertório com seu fabuloso “Three To Get Ready” antes que uma leitura inspirada de “Our Love Is Here To Stay”, de Gershwin, um de seus compositores favoritos, encerrrem este magnífico álbum de piano jazz. Toda interpretação de Dick é uma aula de bom gosto, dedicação e competência. Dick Farney não foi própriamente um músico “underrated”, já que atingiu os píncaros do sucesso nos anos 40 e 50 como cantor, mas foi, sem dúvida o mais injustiçado instrumentista neste Brasil sem memória e respeito pelos seus artistas de real talento. Dick nunca foi lembrado para atuar em nenhuma edição dos festivais internacionais de jazz realizados no Brasil. Uma falha que nunca poderá ser retratada, uma verdadeira vergonha em termos de justiça com este ícone do jazz produzido no Brasil. Dick não foi só um grande músico, era uma das pessoas de maior gentileza e caráter que já tive o privilégio de conhecer. Isto ocorreu em 1983, em uma pequena casa de show em Itaipava, chamada Le Moulin, à beira da BR-040. Dick estava lá, cantando e se acompanhando ao piano, gentil, humilde, solícito, mas não muito feliz. Algo nele sempre revelou uma certa melancolia nestes seus últimos anos de vida, que se extinguiria em 4 de agosto de 1987 em São Paulo. Dick sabia, melhor do que ningém, que não lhe davam mais o tratamento merecido por alguém de sua estatura e genialidade, porém nunca ouvi dizer que tivesse se queixado disto.
Disse ele uma vez em uma entrevista a revista Manchete:
“…Nunca traí um compromisso, nunca me prostituí. Nunca aderi a modismo. Quando senti que a maré não estava para peixe não fui correndo mudar de estilo. Continuei fiel ao meu gosto, às minha concepções de arte e ao meu público. E me realizei.”
Dick era assim, um gênio calado e cordial, um gentleman como nunca vi outro igual.
Antes dos dados técnicos do álbum em questão, convido aos leitores que conheçam mais deste maravilhoso músico e ser humano, ouvindo um depoimento gravado, pouco antes de seu falecimento, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Dick fala de sua vida, suas influências, seu amor à música e ao piano, e toca magistralmente como sempre soou acontecer.

Dick Farney (piano), Saba (contrabaixo), Toninho (bateria).

Gravado nos estúdios da EMI-Odeon, em 1977

1- Brandenburg Gate

2- Autumn Leaves

3- We’ll Be Together Again

4- Besame Mucho

5- Three To Get Ready

6- Our Love Is Here To Stay

http://ouo.io/5CPpyv

 
6 Comentários

Publicado por em 5 de dezembro de 2009 em Dick Farney, Sabá, Toninho

 

6 Respostas para “Dick Farney Trio – 5 Anos de Jazz (1977)

  1. Anonymous

    5 de dezembro de 2009 at 5:34 PM

     
  2. figbatera

    5 de dezembro de 2009 at 8:04 PM

    Esse é mesmo um disco maravilhoso; uma das jóias de minha pequena coleção de vinis.

     
  3. Érico Cordeiro

    6 de dezembro de 2009 at 12:47 PM

    Postagem nota 1.000.Artista nota 1.000.Total: 1000 x 1000 = 1.000.000.Parabéns e muito obrigado, meu caro Mauro – o HBJ é nada menos que indispensável!!!!

     
  4. HotBeatJazz

    6 de dezembro de 2009 at 2:11 PM

    Mr. Éricoindispensaveis são vcs e a memória do grande Dick FarneyMuito obrigado

     
  5. Anthony Mennitto

    22 de outubro de 2011 at 7:31 PM

    Caro Senhor,

    Eu fui amigo do Dick por muito tempo. Ele era genial. Tive o prazer de estar presente na gravação desse fantástico LP 5 anos de jazz. O Dick convidou alguns amigos para esta gravação e para aplaudir no final de cada interpretação. Assim, minhas palmas estão lá gravadas. Ele autografou este album para mim. Infelizmente, ao mudar-me para os E.U. eu perdi este disco e muito mais importante foi perder este amigo e fabuloso jazzista.

    Cordialmente,
    Anthony Mennitto

     
  6. Paulo Roberto Gazzani

    22 de fevereiro de 2012 at 1:38 PM

    quero gravar estas feras da bossa nova e instrumentais de piano, sax baixo, no estilo Jazz Contenporaneo.

    quem for da linha e quiser sugerir …, agradeço

    PRGazzani

     

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