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Arquivo mensal: janeiro 2010

Claudio Roditi – Brazilliance X 4 (2009)

A bagagem e o currículo do trompetista Claudio Roditi necessita de um imenso container, grande o suficiente para acompanhá-lo por todo o planeta em suas incasáveis apresentações como um dos mais importantes músicos de jazz da atualidade. Desde que este carioca da safra de 46 deixou a cidade maravilhosa para buscar aperfeiçoamento de sua formação musical na Berklee School of Music, em Boston, vem sendo considerado uma das mais proeminentes vozes do trompete no jazz contemporâneo. Figurinha carimbada nas famosas jams do Bêco das Garrafas na década de 60, onde ao lado dos mais importantes instrumentistas brasileiros, ajudou a forjar o samba-jazz, estilo apreciado e reverenciado em todo o mundo. Mudou-se para New York em 76 e foi apadrinhado por ninguem menos do que Dizzy Gillespie, a maior autoridade do trompete jazz. Tocou com os maiores nomes do jazz em atividade, numa lista infindável da qual podemos pinçar Herbie Mann, Paquito D’Rivera, Dizzy, Charlie Rouse, McCoy Tyner, Slide Hampton, Horace Silver, Joe Henderson, Arturo Sandoval, além dos inúmeros músicos brasileiros radicados na Big Apple. Passeando com igual competência e talento pelo jazz straight-ahead, pelo latin-jazz e pelo samba-jazz, Roditi já tem lançados em seu nome algumas dezenas de álbuns além de outras tantas em participações em trabalhos alheios.
Em “Brazilliance X 4” Roditi aparece à frente de um quarteto formado pelos brasileiros Helio Alves ao piano, Leonardo Cioglia ao contrabaixo e o decano da bateria Duduka da Fonseca. A tônica do disco é o samba-jazz, com composições do próprio Roditi, de seu inseparável parceiro dos anos 60 e 70 Victor Assis Brasil, dos pré-bossa nova Johnny Alf, João Donato e Durval Ferreira, e do amigo e companheiro Raul de Souza. Há ainda uma leitura à la Beco das Garrafas para “Tune Up”, de Miles Davis. O álbum é todo impecável, como não poderia deixar de ser em se tratando de músicos de gabarito reconhecido. O pianista Hélio Alves se destaca no mesmo nível do líder, com improvisações maravilhosas em fraseado e suíngue. Duduka e Leonardo provém uma pulsação forte e contagiante em todas as faixas, fazendo com que nosso esqueleto se recuse a ficar parado. Das 10 faixas de “Brazilliance x4”, oito são gravadas em estúdio, “Tema pra Duduka” e “Gemini Man” são ao vivo, onde os solos tendem a se extender para deleite daqueles felizardos que se derem ao trabalho de apreciar mais este impecável álbum do mestre Claudio Roditi.
Claudio Roditi (tp); Helio Alves (p); Leonardo Cioglia (b); Duduka da Fonseca (d)
1- Pro Zeca (Victor Assis Brasil)
2- E Nada Mais (Durval Ferreira – Luiz Fernando Freire)
3- A Vontade Mesmo (Raul de Souza)
4- Tune Up (Miles Davis)
5- Rapaz de Bem (Johnny Alf)
6- Dinner by Five (Claudio Roditi)
7- Song for Nana (Claudio Roditi)
8- Tema Para Duduka (Claudio Roditi)
9- Quem Diz Que Sabe (João Donato – Paulo Sérgio Valle)
10- Gemini Man (Claudio Roditi)
 

Charlie Parker and The Stars of Modern Jazz – Carnegie Hall X-mas ’49

Passadas as festas de fim de ano, agora distanciadas no funil do tempo, é hora para, sem apelos emocionais, sem motivos outros, que não a música em si, prestarmos atenção a esta noite de natal de 1949. Um concêrto no Carnegie Hall, sem jingle bell, sem velhinho amarelo-rosado em roupa de bombeiro, sem público disponível para melodias assobiáveis de forma autômata, trazia a nata do bebop para uma platéia ávida pelos ritmos frenéticos, pelas melodias sinuozas e pelas harmonias alteradas ao limite da compreensão da época. O disk-jockey Symphony Sid Torin organizou e apresentou alguns dos mais espetaculares músicos do jazz de então em uma noite memorável que teve como desfecho a apresentação do quinteto de Charlie Parker após as costumeiras confraternizações da meia noite de 24 de dezembro de 1949. Sid chama ao palco Bud Powell, o maior e mais influente pianista do bebop, à frente de seu trio formado pelos ex integrantes do combo de Parker: o contrabaixista Curley Russell e o baterista Max Roach em uma interpretação impecável de “All God’s Children Got Rhythm”, tema que era uma especialidade de Bud. O trio permanece no palco enquanto Sid anuncia mais alguns gigantes do jazz para se juntarem a eles: o trompetista Miles Davis, o trombonista Bennie Green, o saxofonista Sonny Stitt ao alto e Serge Chaloff no barítono. Inicia-se uma verdadeira jam com três temas hinos do bebop: “Move”, de Denzil Best; “Hot House”, de Dizzy Gillespie; e “Ornithology”, de Charlie Parker. Os palco é renovado com o quinteto de Stan Getz e Kai Winding. Stan, um dos famosos “four brothers” da orquestra de Woody Herman, atravessava um período de grande fama ganhando o apelido de “The Sound”, Winding surgia como uma nova voz ao trombone e em breve formaria um histórico quinteto com o pai do trombone bop, J. J. Johnson. A seção rítmica de Parker, formada por Al Haig, Tommy Potter e Roy Haynes, daria o suporte aos dois solistas em duas antigas peças da música americana: “Always” e “Sweet Miss”. Stan Getz apresenta “Long Island Sound” em formação de quarteto, deixando evidente sua sonoridade inspirada em Lester Young com um fraseado adaptado aos novos tempos do bebop. Sarah Vaughan, a voz bop por excelência, acompanhada por Jimmy Jones ao piano, interpreta dois standards: “Once In A While” e “Mean To Me”. O pianista Lennie Tristano apresenta-se acompanhado por seus alunos: o sax alto de Lee Konitz, o tenor de Warne Marsh, a guitarra de Billy Bauer, e o apoio rítmico de Joe Shulman ao contrabaixo e Jeff Morton à bateria. Sua leitura do standard “You Go To My Head” preconiza alterações harmônicas que só veríamos alguns anos depois com Bill Evans. O original “Sax Of A Kind” é veículo para as macias sonoridades de Lee Konitz ao alto e Warne Marsh ao tenor, músicos que traziam uma nova concepção timbrística ao modelo comum do bebop. Após a meia-noite chega a vez do ponto alto do concêrto, o fenomenal quinteto do pai de todos, Charlie Parker, acompanhado pelo trompetista Red Rodney, o pianista Al Haig, o contrabaixista Tommy Potter e a bateria de Roy Haynes. Parker está no auge de sua forma, com sua característica fluência de idéias e frases musicais que não teve equivalencia em toda a história do jazz. Os originais “Ornithology”, “Cheryl”, “Ko Ko”, “Bird Of Paradise” e “Now’s The Time” encerram esta noite de natal ímpar, acontecida a exatos 60 anos atraz, onde originalidade, modernidade e coragem foram a tônica deste acontecimento histórico para todo o desenvolvimento do jazz contemporâneo.
Voice Of America, Carnegie Hall, New York City, December 24 or 25, 1949.Master of ceremonies: Symphony Sid Torin.
THE BUD POWELL TRIO
Bud Powell (p), Curley Russell (sb), Max Roach (dm).December 24, 1949.
1 – All God’s Children Got Rhythm
JAM SESSION
Miles Davis (tp), Bennie Green (tb), Sonny Stitt (as), Serge Chaloff (bar), Bud Powell (p), Curley Russell (sb), Max Roach (dm). December 24, 1949.
2 – Move
3 – Hot House
4 – Ornithology (incomplete, originally)
STAN GETZ – KAI WINDING QUINTET
Kai Winding (tb), Stan Getz (ts), Al Haig (p), Tommy Potter (sb), Roy Haynes (dm). December 24 or 25, 1949.
5 – Always
6 – Sweet Miss
STAN GETZ QUARTET
7 – Long Island Sound
SARAH VAUGHAN (vocal), Jimmy Jones (p). December 24, 1949.
8 – Once In A While
9 – Mean To Me
LENNIE TRISTANO – LEE KONITZ SEXTET
Lee Konitz (as), Warne Marsh (ts), Lennie Tristano (p), Billy Bauer (g), Joe Shulman (sb), Jeff Morton (dm). December 24, 1949
10 – You Go To My Head
11 – Sax Of A Kind
THE CHARLIE PARKER QUINTET
Red Rodney (tp), Charlie Parker (as), Al Haig (p), Tommy Potter (sb), Roy Haynes (dm).December 25, 1949.
12 – Ornithology
13 – Cheryl
14 – Ko Ko
15 – Bird Of Paradise
16 – Now’s The Time