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Arquivo mensal: março 2010

HotBeatJazz 10′ Series – Bud Powell – Piano Solos – 10’LP MGC 507 (1950)

A história do piano no jazz pode ser contada em antes de Bud Powell, e depois dele. Antes, houve Art Tatum, um dos maiores virtuoses do instrumento; depois, vieram os seguidores de Bud Powell. Segundo Joachim Berendt, “no jazz moderno a pianística vem de Art Tatum, mas de Bud Powell vem o estilo. Tatum deixou para o jazz um estandarte inalcançável, mas Bud criou uma escola.” Desta escola que se refere Berendt vieram: Al Haig, George Wallington, Lou Levy, Lennie Tristano, Hampton Hawes, Pete Joly, Wynton Kelly, Red Garland, Horace Silver, Barry Harris, Duke Jordan,Kenny Drew, Walter Bishop, Elmo Hope, Tommy Flanagan, Bobby Timmons, Junior Mance, Ray Bryant, Horace Parlan, Roland Hanna, e mais um sem número, que por falha de memória, e para encurtar o assunto, ficam de fora desta lista. Até mesmo Bill Evans que, sem dúvida alguma, forjou um novo estilo, paga seu tributo a Bud Powell no campo harmônico. O virtuosismo de Bud e sua fluência de idéias só encontra par em Charlie Parker. Sua vida perturbada nos privou de muitas mais gravações que ele poderia vir a fazer até sua morte prematura em 1966, aos 42 anos.

 

Bud era de uma família musical, seu pai, avô, e dois irmãos eram músicos, sendo o caçula, Richie, também pianista, o que mais se destacou, até também falecer prematuramente em um acidente automobilístico, o mesmo que tirou a vida do grande trompetista Clifford Brown. Em 1943, faz suas primeiras gravações no combo do trompetista Cootie Williams. Frequenta assíduamente os clubes da rua 52 em Manhattan, berço do nascente bebop. Bud era emocionalmente instável, fato que o levou a uma primeira crise depressiva em 1945. De 45 até 47, intercala períodos de internação psiquiátrica com atuações no Birdland e em outros clubes. Bud era o pianista predileto do boppers, sempre que possível, requisitado para compor combos com os nomes do momento na fervilhante segunda metade da década de 40. Desta forma, pôde tocar com Charlie Parker, Fats Navarro, Tadd Dameron, Dexter Gordon, Max Roach, Johnny Griffin, entre outros. Em 59, viaja para Paris e fixa residência permanente na França, só retornando aos EUA em 64 para se apresentar no Birdland e sair de cena até sua morte.

 

Este 10 polegadas foi gravado em 1950, com produção de Norman Granz. Bud executa standards, sempre com seu estilo único e virtuosístico, acompanhado pelo seguro contrabaixo de Curlley Russell e a bateria de Max Roach. Você, com certeza, já ouviu estes temas diversas vezes, mais nunca desta forma. Tome como exemplo o andamento alucinante de Get Happy, as harmonias alteradas de So Sorry Please, a energia intensa de Sweet Georgia Brown, os intervalos, até então ocultos, em April in Paris, as dissonâncias contidas em Body and Soul, tudo isto faz parte da experiência única que é ouvir Bud Powell.
Bud Powell (p) Curly Russell (b) Max Roach (d)
NYC, February, 1950

 

1- So Sorry Please (take 341-2)
2- Get Happy (take 342-2)
3- Sometimes I’m Happy (take 343-1)
4- Sweet Georgia Brown (take 344-2)
5- April In Paris (take 346-1)
6- Body And Soul (take 347-1)

 

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HotBeatJazz 10′ Series – Horace Silver Trio – New Faces New Sounds 10’LP BLP 5018 (1952)

Horace Silver foi um dos mais originais e brilhantes pianistas que apareceram no início dos anos 50 na cena jazzística. Pouco tempo antes desta gravação ele era um ilustre desconhecido, tocando em casas noturnas na sua cidade natal, Norwalk, em Connecticut. Uma bela noite, foi visto por Stan Getz, que iria tocar como convidado no mesmo local em que Horace estava atuando. Resultado, foi contratado na hora, junto com os outros dois músicos de seu trio, Joe Calloway e Walter Bolden, para formar o quinteto de Getz. Horace era localmente conhecido como pianista e, também, saxofonista; instrumentos nos quais teve uma formação acadêmica quando ainda estava na High School.

 

O trabalho no quinteto de Stan Getz abriu as portas de Manhattan ao jovem pianista, trabalhando como contratado em alguns dos mais importantes locais como: Birdland, Le Downbeat e Minton’s Playhouse. Por essa época trabalhou nos combos de Terry Gibbs, Coleman Hawkins, Oscar Pettiford e Bill Harris. Nesta sua primeira sessão como solista principal, Silver apresenta seu cartão de visitas como instrumentista e compositor impecável. Seis dos oito temas deste 10 polegadas são composições próprias, que transitam da exótica atmosfera de Safari às intrigantes dissonâncias de Ecaroh, um óbvio anagrama com seu nome. Horoscope, mostra a influência de Monk em sua música, e Quicksilver, se tornaria um clássico do repertório do pianista, sendo revisitada inúmeras vezes em outros contextos. Yeah, com suas duas frases principais, a primeira ascendente e a segunda descendente, é uma feliz combinação de originalidade melódica, rítmica e harmônica.

 

Os músicos que fazem parte do trio dispensam maiores apresentações, são todos verdadeiros mestres em seus instrumentos: Art Blakey, a usina de ritmos maior do jazz; e dois contrabaixistas revezando-se, Curley Russell e Gene Ramey, dois dos mais requisitados da época. Percebam o impecável trabalho de Russell com o arco na Ellingtoniana Prelude To A Kiss.

 

Estas gravações foram determinantes para que Horace Silver deslanchasse sua carreira, transformando-se em um dos mais importantes nomes no desenvolvimento do jazz moderno, contribuindo com dezenas de composições que fazem parte do songbook de todo músico que pense em tocar jazz, até hoje.
*Horace Silver (p) Gene Ramey (b) Art Blakey (d)
WOR Studios, NYC, October 9, 1952

 

**Horace Silver (p) Curley Russell (b) Art Blakey (d)
WOR Studios, NYC, October 20, 1952

 

1- Safari *
2-. Ecaroh**
3- Prelude To A Kiss**
4- Thou Swell*
5- Quicksilver**
6- Horoscope*
7- Yeah**
8- Knowledge**

 

Hot Beat Jazz

 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – With Strings – 10’LP MGC 509 (1950)

Decorrência do grande sucesso alcançado pela gravação de novembro de 1949, Norman Granz mais uma vez colocava Charlie Parker em estúdio para uma nova sessão acompanhado por um naipe de cordas. Desta feita, os arranjos foram elaborados por Joe Lippman, o trio base contava com o pianista Bernie Leighton e, novamente, o contrabaixista Ray Brown e o baterista Buddy Rich. O repertório continuava na mesma linha, baladas e standards populares como: Laura, Dancing In The Dark, East Of The Sun e I’m In The Mood For Love, entre outros.

 

Estas gravações deflagaram uma verdadeira febre entre os músicos de jazz, que passaram também a gravar álbuns acompanhados por cordas a partir de então.

 

Charlie Parker (as) Joseph Singer (frh) Edwin C. Brown (ob) Sam Kaplan, Howard Kay, Harry Melnikoff, Sam Rand, Ziggy Smirnoff (vln) Isadore Zir (vla) Maurice Brown (vlc) Verley Mills (harp) Bernie Leighton (p) Ray Brown (b) Buddy Rich (d) Joe Lippman (arr, cond)
Reeves Sound Studios, NYC, July 5, 1950

 

 

1- Dancing In The Dark (take 442-5)
2- You Came Along From Out Of Nowhere (take 443-2)
3- Laura (take 444-3)
4- East Of The Sun (take 445-4)
5- They Can’t Take That Away From Me (take 446-2)
6- Easy To Love (take 447-4)
7- I’m In The Mood For Love (take 448-20)
8- I’ll Remember April (take 449-2)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – With Strings 10’LP MGC 101 (1949)

Não poderia faltar à esta série de clássicos do jazz em 10 polegadas, assim como em nenhuma que pretenda abordar o assunto, as gravações feitas por Charlie Parker acompanhado por orquestra de cordas. Origináriamente lançadas pela Clef, de Norman Granz, esta sessão de novembro de 1949 realizava um antigo desejo de Bird, acalentado em virtude de sua apreciação aos compositores eruditos, notadamente Ravel, Debussy, e especialmente, Stravinski. Norman Granz produziu uma data com um naipe de cordas e oboé, arranjados e conduzidos por Jimmy Carroll, dando suporte a Parker e um trio de jazz formado pelo pianista Stan Freeman, pelo contrabaixista Ray Brown, e o baterista Buddy Rich.

 

Parker já era reconhecido como o guia maior do bebop, porém esta forma de jazz ainda recebia críticas e rejeições por parte dos puristas mais xiitas, que costumavam alegar que o bebop não era jazz autêntico, e sim uma forma de tocar desprovida de sentido. Estas gravações foram um verdadeiro tapa de luvas no rosto dos reacionários, e propiciou a Bird abarcar uma gama muito maior de apreciadores de sua arte. Ouvidos que ainda não estavam prontos para o entendimento de uma sessão puramente bebop, conseguiam se situar neste contexto mais ortodoxo, e apreciar o instrumentista diferenciado que ele sempre foi. Estas gravações são uma verdadeira aula, até hoje, de como se pode produzir música de forte apelo popular sem transgredir os princípios de arte pura. Outras sessões como esta foram organizadas, contribuindo para que a música de Charlie Parker saísse dos guetos dos clubes de jazz e de alguns apreciadores mais vanguardistas, que eram em suma os apreciadores do bebop, e ganhasse as salas de lares do americano médio, conservador.

 

Charlie Parker (as); Stan Freeman (p); Ray Brown (b); Buddy Rich (d); Mitch Miller (ob, ehr); Bronislaw Gimpel, Max Hollander, Milton Lomask (vln); Frank Brieff (vla) Frank Miller (vlc); Meyer Rosen (harp); Jimmy Carroll (arr, cond)
Reeves Sound Studios, NYC, November 30, 1949

 

1- Just Friends (take 319-5)
2- Everything Happens To Me (take 320-3)
3- April In Paris (take 321-3)
4- Summertime (take 322-2)
5- I Didn’t Know What Time It Was (take 323-2)
6- If I Should Lose You (take 324-3)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Stan Getz – Stan Getz Plays 10’LP MGC 137 (1952)

Stan Getz gravou para a Clef, gravadora do produtor Norman Granz (Clef, Norgran, Verve, Pablo), em dezembro de 1952, uma sessão à frente de um quinteto formado por Duke Jordan, ao piano; o inseparável Jimmy Raney, à guitarra; Bill Crow, ao contrabaixo; e Frank Isola, na bateria. Um repertório de primeira linha foi selecionado para a ocasião, composto inteiramente de standards, de gosto inquestionável e forte apelo popular. Clássicos como Stella By Starlight, The Way You Look Tonight, Body And Soul e Stars Fell On Alabama; caem como luva para o som macio, sensual e totalmente Lesteriano de Stan Getz, conhecido na época como: “The Sound”, por seu timbre aveludado e linhas melódicas impregnadas de lirismo e poesia.

 

Este é um verdadeiro clássico da discografia de Getz e um carro-chefe na HotBeatJazz 10′ Series.
Stan Getz (ts) Duke Jordan (p) Jimmy Raney (g) Bill Crow (b) Frank Isola (d)
NYC, December 12, 1952

 

1- ‘Tis Autumn (take 958-9)
2- The Way You Look Tonight (take 959-1)
3- Time On My Hands (take 957-3)
4- You Turned The Tables On Me (take 963-6)
5- Stars Fell On Alabama (take 962-6)
6- Lover Come Back To Me (take 960-3)
7- Body And Soul (take 961-2)
8- Stella By Starlight (take 956-3)

 

 Hot Beat Jazz

 

HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis Quartet – 10’LP PRLP 161 (1954)

Miles Davis gravou duas sessões para a Prestige com o formato de quarteto que integram este 10 polegadas lançado em 1954. A primeira, em 19 de maio de 53, onde se deu a estréia em disco de dois temas que passariam a compor o repertório do trompetista: Tune Up e Miles Ahead, este último sendo revisitado alguns anos após com arranjos de Gil Evans, no álbum de mesmo nome. Para a data, Miles contou com a presença de John Lewis, ao piano; Percy Heath, ao contrabaixo; e seu grande amigo Max Roach, na bateria. John Lewis, que tinha compromissos já préviamente agendados, não pôde participar do último tema à ser gravado, Smoch. O contrabaixista Charles Mingus, que estava nos estúdios por acaso, deu uma mãozinha ao piano, aliás duas, e não se saiu mal. When Lights Are Low, completa os temas gravados na ocasião.

 

Em 15 de março de 1954, uma outra sessão em quarteto, completou com mais 3 faixas este 10 polegadas de número 161 da gravadora Prestige. Para a data Miles contou com Horace Silver, ao piano; mais uma vez, Percy Heath ao contrabaixo; e Art Blakey na bateria. Entre os temas gravados, mais um ítem se destacaria como frequente no repertório do trompetista, Four. O estilo inconfundível de Blakey se faz notar logo ao primeiro compasso, assim como o piano solto e bluesy de Horace Silver. O standard Old Devil Moon e Blue Haze, completam as tomadas daquela sessão.

 

Nestas tomadas em quarteto nota-se, de forma inconteste, que muitas vezes o gênio musical não necessita estar necessáriamente ligado ao virtuosismo instrumental. Miles nunca foi um virtuoso, mas sua genialidade se apresenta na forma de escolher os caminhos de seu discurso musical em perfeita consonância com sua técnica, revelando uma mente altamente criativa e inteligente em seu ofício.

 

Miles Davis (tp) John Lewis (p -1/3) Charles Mingus (p -4) Percy Heath (b) Max Roach (d)
WOR Studios, NYC, May 19, 1953
1- When Lights Are Low (take 479)
2- Tune Up (take 480)
3- Miles Ahead (take 481)
4- Smooch (take 482)

 

Miles Davis (tp) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
Beltone Studios, NYC, March 15, 1954
5- Four (take 556)
6- Old Devil Moon (take 557)
7- Blue Haze (take 558)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Art Farmer PRLP 177

Estamos inaugurando com esta postagem uma série organizada e produzida pelo próprio HotBeatJazz, com o intuito de recriar um pouco da história e do romantismo vividos pelo jazz em décadas passadas. Estaremos lançando recriações dos antigos LP’s de 10 polegadas, formatados inteiramente como foram editados na ocasião, com suas capas originais e obedecendo rigorosamente a mesma ordem de músicas. Esperamos com esta iniciativa dar uma contribuição à memória fonográfica de tempos mais românticos, quando havia de levantar-se do sofá para virar o lado do disco, ou então, empilha-los em toca-discos automáticos, produzindo deliciosos arranhões que se transformavam em chiadeiras indissociáveis do prazer da escuta.

 

Voltemos ao passado, com nosso primeiro LP 10 polegadas da série!

 

 

O trompetista Art Farmer gravou em 1954, pela Prestige, como líder de um quinteto muito especial que contava com a presença do grande saxofonista Sonny Rollins, do pianista Horace Silver, do contrabaixista Percy Heath, e de Kenny Clarke na bateria.

 

Foi um LP curto em termos de tempo de música gravada, mesmo para os padrões da época que possibilitavam até 12 minutos por face, com apenas 4 temas totalizando 9 minutos em cada lado.

 

Wisteria, uma bela balada que não conta com a participação de Sonny Rollins, sendo veículo para as qualidades do trompete extremamente lírico de Art Farmer.

 

Soft Shoe tem o tema exposto em perfeito uníssono entre Farmer e Rollins. Farmer abre seu solo com uma citação de The lady is a Tramp, o piano de Silver é impregnado de sentido bop e seus blocos de acordes de sustentação dos solistas são impecávelmente construídos. Rollins tem um solo arrebatador em economia e síntese antes de voltarem ao tema para o encerramento.

 

Confab In Tempo é um tema típicamente bebop, de andamento acelerado, onde Rollins é o primeiro a solar com extremo domínio da sintaxe do estilo. Farmer faz seu solo inteiramente em stacatto com um perfeito controle da emissão. Silver mostra conhecer bem o trumpet-piano style em breve participação antes do solo do mestre Kenny Clarke, o homem que construiu a ponte entre o swing e a bateria moderna bop.

 

I’ll Take Romance encerra este curto LP 10 polegadas com Farmer mostrando seu estilo pessoal, que o fazia diferente dos trompetistas da época, sempre muito calcados em Gillespie ou Fats Navarro. Rollins em seus primeiros anos já se mostrava um músico de estatura, embora ainda fosse desenvolver um estilo mais pessoal no decorrer dos anos. Tinha ele nesta época um timbre bem mais domesticado do que o que passou a desenvolver a partir da década de 60.

 

Este quinteto organizado por Bob Weinstock para dar suporte ao delicioso trompete de Art Farmer ficou marcado como um dos grandes combos organizados em 1954, um ano de concorrência acirrada, visto o surgimento do explendoroso quinteto de Art Blakey com Clifford Brown em fevereiro e o mesmo Clifford iniciando seu quinteto com Max Roach em abril.

 

Art Farmer (tp) Sonny Rollins (ts -2/4) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d) Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, January 20, 1954

 

1- Wisteria (take 552)
2- Soft Shoe (take 553)
3- Confab In Tempo (take 554)
4- I’ll Take Romance (take 555)