RSS

Arquivo mensal: março 2010

HotBeatJazz 10′ Series – Bud Powell – Piano Solos – 10’LP MGC 507 (1950)

A história do piano no jazz pode ser contada em antes de Bud Powell, e depois dele. Antes, houve Art Tatum, um dos maiores virtuoses do instrumento; depois, vieram os seguidores de Bud Powell. Segundo Joachim Berendt, “no jazz moderno a pianística vem de Art Tatum, mas de Bud Powell vem o estilo. Tatum deixou para o jazz um estandarte inalcançável, mas Bud criou uma escola.” Desta escola que se refere Berendt vieram: Al Haig, George Wallington, Lou Levy, Lennie Tristano, Hampton Hawes, Pete Joly, Wynton Kelly, Red Garland, Horace Silver, Barry Harris, Duke Jordan,Kenny Drew, Walter Bishop, Elmo Hope, Tommy Flanagan, Bobby Timmons, Junior Mance, Ray Bryant, Horace Parlan, Roland Hanna, e mais um sem número, que por falha de memória, e para encurtar o assunto, ficam de fora desta lista. Até mesmo Bill Evans que, sem dúvida alguma, forjou um novo estilo, paga seu tributo a Bud Powell no campo harmônico. O virtuosismo de Bud e sua fluência de idéias só encontra par em Charlie Parker. Sua vida perturbada nos privou de muitas mais gravações que ele poderia vir a fazer até sua morte prematura em 1966, aos 42 anos.

 

Bud era de uma família musical, seu pai, avô, e dois irmãos eram músicos, sendo o caçula, Richie, também pianista, o que mais se destacou, até também falecer prematuramente em um acidente automobilístico, o mesmo que tirou a vida do grande trompetista Clifford Brown. Em 1943, faz suas primeiras gravações no combo do trompetista Cootie Williams. Frequenta assíduamente os clubes da rua 52 em Manhattan, berço do nascente bebop. Bud era emocionalmente instável, fato que o levou a uma primeira crise depressiva em 1945. De 45 até 47, intercala períodos de internação psiquiátrica com atuações no Birdland e em outros clubes. Bud era o pianista predileto do boppers, sempre que possível, requisitado para compor combos com os nomes do momento na fervilhante segunda metade da década de 40. Desta forma, pôde tocar com Charlie Parker, Fats Navarro, Tadd Dameron, Dexter Gordon, Max Roach, Johnny Griffin, entre outros. Em 59, viaja para Paris e fixa residência permanente na França, só retornando aos EUA em 64 para se apresentar no Birdland e sair de cena até sua morte.

 

Este 10 polegadas foi gravado em 1950, com produção de Norman Granz. Bud executa standards, sempre com seu estilo único e virtuosístico, acompanhado pelo seguro contrabaixo de Curlley Russell e a bateria de Max Roach. Você, com certeza, já ouviu estes temas diversas vezes, mais nunca desta forma. Tome como exemplo o andamento alucinante de Get Happy, as harmonias alteradas de So Sorry Please, a energia intensa de Sweet Georgia Brown, os intervalos, até então ocultos, em April in Paris, as dissonâncias contidas em Body and Soul, tudo isto faz parte da experiência única que é ouvir Bud Powell.
Bud Powell (p) Curly Russell (b) Max Roach (d)
NYC, February, 1950

 

1- So Sorry Please (take 341-2)
2- Get Happy (take 342-2)
3- Sometimes I’m Happy (take 343-1)
4- Sweet Georgia Brown (take 344-2)
5- April In Paris (take 346-1)
6- Body And Soul (take 347-1)

 

 
 

HotBeatJazz 10′ Series – Horace Silver Trio – New Faces New Sounds 10’LP BLP 5018 (1952)

Horace Silver foi um dos mais originais e brilhantes pianistas que apareceram no início dos anos 50 na cena jazzística. Pouco tempo antes desta gravação ele era um ilustre desconhecido, tocando em casas noturnas na sua cidade natal, Norwalk, em Connecticut. Uma bela noite, foi visto por Stan Getz, que iria tocar como convidado no mesmo local em que Horace estava atuando. Resultado, foi contratado na hora, junto com os outros dois músicos de seu trio, Joe Calloway e Walter Bolden, para formar o quinteto de Getz. Horace era localmente conhecido como pianista e, também, saxofonista; instrumentos nos quais teve uma formação acadêmica quando ainda estava na High School.

 

O trabalho no quinteto de Stan Getz abriu as portas de Manhattan ao jovem pianista, trabalhando como contratado em alguns dos mais importantes locais como: Birdland, Le Downbeat e Minton’s Playhouse. Por essa época trabalhou nos combos de Terry Gibbs, Coleman Hawkins, Oscar Pettiford e Bill Harris. Nesta sua primeira sessão como solista principal, Silver apresenta seu cartão de visitas como instrumentista e compositor impecável. Seis dos oito temas deste 10 polegadas são composições próprias, que transitam da exótica atmosfera de Safari às intrigantes dissonâncias de Ecaroh, um óbvio anagrama com seu nome. Horoscope, mostra a influência de Monk em sua música, e Quicksilver, se tornaria um clássico do repertório do pianista, sendo revisitada inúmeras vezes em outros contextos. Yeah, com suas duas frases principais, a primeira ascendente e a segunda descendente, é uma feliz combinação de originalidade melódica, rítmica e harmônica.

 

Os músicos que fazem parte do trio dispensam maiores apresentações, são todos verdadeiros mestres em seus instrumentos: Art Blakey, a usina de ritmos maior do jazz; e dois contrabaixistas revezando-se, Curley Russell e Gene Ramey, dois dos mais requisitados da época. Percebam o impecável trabalho de Russell com o arco na Ellingtoniana Prelude To A Kiss.

 

Estas gravações foram determinantes para que Horace Silver deslanchasse sua carreira, transformando-se em um dos mais importantes nomes no desenvolvimento do jazz moderno, contribuindo com dezenas de composições que fazem parte do songbook de todo músico que pense em tocar jazz, até hoje.
*Horace Silver (p) Gene Ramey (b) Art Blakey (d)
WOR Studios, NYC, October 9, 1952

 

**Horace Silver (p) Curley Russell (b) Art Blakey (d)
WOR Studios, NYC, October 20, 1952

 

1- Safari *
2-. Ecaroh**
3- Prelude To A Kiss**
4- Thou Swell*
5- Quicksilver**
6- Horoscope*
7- Yeah**
8- Knowledge**

 

Hot Beat Jazz

 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – With Strings – 10’LP MGC 509 (1950)

Decorrência do grande sucesso alcançado pela gravação de novembro de 1949, Norman Granz mais uma vez colocava Charlie Parker em estúdio para uma nova sessão acompanhado por um naipe de cordas. Desta feita, os arranjos foram elaborados por Joe Lippman, o trio base contava com o pianista Bernie Leighton e, novamente, o contrabaixista Ray Brown e o baterista Buddy Rich. O repertório continuava na mesma linha, baladas e standards populares como: Laura, Dancing In The Dark, East Of The Sun e I’m In The Mood For Love, entre outros.

 

Estas gravações deflagaram uma verdadeira febre entre os músicos de jazz, que passaram também a gravar álbuns acompanhados por cordas a partir de então.

 

Charlie Parker (as) Joseph Singer (frh) Edwin C. Brown (ob) Sam Kaplan, Howard Kay, Harry Melnikoff, Sam Rand, Ziggy Smirnoff (vln) Isadore Zir (vla) Maurice Brown (vlc) Verley Mills (harp) Bernie Leighton (p) Ray Brown (b) Buddy Rich (d) Joe Lippman (arr, cond)
Reeves Sound Studios, NYC, July 5, 1950

 

 

1- Dancing In The Dark (take 442-5)
2- You Came Along From Out Of Nowhere (take 443-2)
3- Laura (take 444-3)
4- East Of The Sun (take 445-4)
5- They Can’t Take That Away From Me (take 446-2)
6- Easy To Love (take 447-4)
7- I’m In The Mood For Love (take 448-20)
8- I’ll Remember April (take 449-2)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – With Strings 10’LP MGC 101 (1949)

Não poderia faltar à esta série de clássicos do jazz em 10 polegadas, assim como em nenhuma que pretenda abordar o assunto, as gravações feitas por Charlie Parker acompanhado por orquestra de cordas. Origináriamente lançadas pela Clef, de Norman Granz, esta sessão de novembro de 1949 realizava um antigo desejo de Bird, acalentado em virtude de sua apreciação aos compositores eruditos, notadamente Ravel, Debussy, e especialmente, Stravinski. Norman Granz produziu uma data com um naipe de cordas e oboé, arranjados e conduzidos por Jimmy Carroll, dando suporte a Parker e um trio de jazz formado pelo pianista Stan Freeman, pelo contrabaixista Ray Brown, e o baterista Buddy Rich.

 

Parker já era reconhecido como o guia maior do bebop, porém esta forma de jazz ainda recebia críticas e rejeições por parte dos puristas mais xiitas, que costumavam alegar que o bebop não era jazz autêntico, e sim uma forma de tocar desprovida de sentido. Estas gravações foram um verdadeiro tapa de luvas no rosto dos reacionários, e propiciou a Bird abarcar uma gama muito maior de apreciadores de sua arte. Ouvidos que ainda não estavam prontos para o entendimento de uma sessão puramente bebop, conseguiam se situar neste contexto mais ortodoxo, e apreciar o instrumentista diferenciado que ele sempre foi. Estas gravações são uma verdadeira aula, até hoje, de como se pode produzir música de forte apelo popular sem transgredir os princípios de arte pura. Outras sessões como esta foram organizadas, contribuindo para que a música de Charlie Parker saísse dos guetos dos clubes de jazz e de alguns apreciadores mais vanguardistas, que eram em suma os apreciadores do bebop, e ganhasse as salas de lares do americano médio, conservador.

 

Charlie Parker (as); Stan Freeman (p); Ray Brown (b); Buddy Rich (d); Mitch Miller (ob, ehr); Bronislaw Gimpel, Max Hollander, Milton Lomask (vln); Frank Brieff (vla) Frank Miller (vlc); Meyer Rosen (harp); Jimmy Carroll (arr, cond)
Reeves Sound Studios, NYC, November 30, 1949

 

1- Just Friends (take 319-5)
2- Everything Happens To Me (take 320-3)
3- April In Paris (take 321-3)
4- Summertime (take 322-2)
5- I Didn’t Know What Time It Was (take 323-2)
6- If I Should Lose You (take 324-3)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Stan Getz – Stan Getz Plays 10’LP MGC 137 (1952)

Stan Getz gravou para a Clef, gravadora do produtor Norman Granz (Clef, Norgran, Verve, Pablo), em dezembro de 1952, uma sessão à frente de um quinteto formado por Duke Jordan, ao piano; o inseparável Jimmy Raney, à guitarra; Bill Crow, ao contrabaixo; e Frank Isola, na bateria. Um repertório de primeira linha foi selecionado para a ocasião, composto inteiramente de standards, de gosto inquestionável e forte apelo popular. Clássicos como Stella By Starlight, The Way You Look Tonight, Body And Soul e Stars Fell On Alabama; caem como luva para o som macio, sensual e totalmente Lesteriano de Stan Getz, conhecido na época como: “The Sound”, por seu timbre aveludado e linhas melódicas impregnadas de lirismo e poesia.

 

Este é um verdadeiro clássico da discografia de Getz e um carro-chefe na HotBeatJazz 10′ Series.
Stan Getz (ts) Duke Jordan (p) Jimmy Raney (g) Bill Crow (b) Frank Isola (d)
NYC, December 12, 1952

 

1- ‘Tis Autumn (take 958-9)
2- The Way You Look Tonight (take 959-1)
3- Time On My Hands (take 957-3)
4- You Turned The Tables On Me (take 963-6)
5- Stars Fell On Alabama (take 962-6)
6- Lover Come Back To Me (take 960-3)
7- Body And Soul (take 961-2)
8- Stella By Starlight (take 956-3)

 

 Hot Beat Jazz

 

HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis Quartet – 10’LP PRLP 161 (1954)

Miles Davis gravou duas sessões para a Prestige com o formato de quarteto que integram este 10 polegadas lançado em 1954. A primeira, em 19 de maio de 53, onde se deu a estréia em disco de dois temas que passariam a compor o repertório do trompetista: Tune Up e Miles Ahead, este último sendo revisitado alguns anos após com arranjos de Gil Evans, no álbum de mesmo nome. Para a data, Miles contou com a presença de John Lewis, ao piano; Percy Heath, ao contrabaixo; e seu grande amigo Max Roach, na bateria. John Lewis, que tinha compromissos já préviamente agendados, não pôde participar do último tema à ser gravado, Smoch. O contrabaixista Charles Mingus, que estava nos estúdios por acaso, deu uma mãozinha ao piano, aliás duas, e não se saiu mal. When Lights Are Low, completa os temas gravados na ocasião.

 

Em 15 de março de 1954, uma outra sessão em quarteto, completou com mais 3 faixas este 10 polegadas de número 161 da gravadora Prestige. Para a data Miles contou com Horace Silver, ao piano; mais uma vez, Percy Heath ao contrabaixo; e Art Blakey na bateria. Entre os temas gravados, mais um ítem se destacaria como frequente no repertório do trompetista, Four. O estilo inconfundível de Blakey se faz notar logo ao primeiro compasso, assim como o piano solto e bluesy de Horace Silver. O standard Old Devil Moon e Blue Haze, completam as tomadas daquela sessão.

 

Nestas tomadas em quarteto nota-se, de forma inconteste, que muitas vezes o gênio musical não necessita estar necessáriamente ligado ao virtuosismo instrumental. Miles nunca foi um virtuoso, mas sua genialidade se apresenta na forma de escolher os caminhos de seu discurso musical em perfeita consonância com sua técnica, revelando uma mente altamente criativa e inteligente em seu ofício.

 

Miles Davis (tp) John Lewis (p -1/3) Charles Mingus (p -4) Percy Heath (b) Max Roach (d)
WOR Studios, NYC, May 19, 1953
1- When Lights Are Low (take 479)
2- Tune Up (take 480)
3- Miles Ahead (take 481)
4- Smooch (take 482)

 

Miles Davis (tp) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
Beltone Studios, NYC, March 15, 1954
5- Four (take 556)
6- Old Devil Moon (take 557)
7- Blue Haze (take 558)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Art Farmer PRLP 177

Estamos inaugurando com esta postagem uma série organizada e produzida pelo próprio HotBeatJazz, com o intuito de recriar um pouco da história e do romantismo vividos pelo jazz em décadas passadas. Estaremos lançando recriações dos antigos LP’s de 10 polegadas, formatados inteiramente como foram editados na ocasião, com suas capas originais e obedecendo rigorosamente a mesma ordem de músicas. Esperamos com esta iniciativa dar uma contribuição à memória fonográfica de tempos mais românticos, quando havia de levantar-se do sofá para virar o lado do disco, ou então, empilha-los em toca-discos automáticos, produzindo deliciosos arranhões que se transformavam em chiadeiras indissociáveis do prazer da escuta.

 

Voltemos ao passado, com nosso primeiro LP 10 polegadas da série!

 

 

O trompetista Art Farmer gravou em 1954, pela Prestige, como líder de um quinteto muito especial que contava com a presença do grande saxofonista Sonny Rollins, do pianista Horace Silver, do contrabaixista Percy Heath, e de Kenny Clarke na bateria.

 

Foi um LP curto em termos de tempo de música gravada, mesmo para os padrões da época que possibilitavam até 12 minutos por face, com apenas 4 temas totalizando 9 minutos em cada lado.

 

Wisteria, uma bela balada que não conta com a participação de Sonny Rollins, sendo veículo para as qualidades do trompete extremamente lírico de Art Farmer.

 

Soft Shoe tem o tema exposto em perfeito uníssono entre Farmer e Rollins. Farmer abre seu solo com uma citação de The lady is a Tramp, o piano de Silver é impregnado de sentido bop e seus blocos de acordes de sustentação dos solistas são impecávelmente construídos. Rollins tem um solo arrebatador em economia e síntese antes de voltarem ao tema para o encerramento.

 

Confab In Tempo é um tema típicamente bebop, de andamento acelerado, onde Rollins é o primeiro a solar com extremo domínio da sintaxe do estilo. Farmer faz seu solo inteiramente em stacatto com um perfeito controle da emissão. Silver mostra conhecer bem o trumpet-piano style em breve participação antes do solo do mestre Kenny Clarke, o homem que construiu a ponte entre o swing e a bateria moderna bop.

 

I’ll Take Romance encerra este curto LP 10 polegadas com Farmer mostrando seu estilo pessoal, que o fazia diferente dos trompetistas da época, sempre muito calcados em Gillespie ou Fats Navarro. Rollins em seus primeiros anos já se mostrava um músico de estatura, embora ainda fosse desenvolver um estilo mais pessoal no decorrer dos anos. Tinha ele nesta época um timbre bem mais domesticado do que o que passou a desenvolver a partir da década de 60.

 

Este quinteto organizado por Bob Weinstock para dar suporte ao delicioso trompete de Art Farmer ficou marcado como um dos grandes combos organizados em 1954, um ano de concorrência acirrada, visto o surgimento do explendoroso quinteto de Art Blakey com Clifford Brown em fevereiro e o mesmo Clifford iniciando seu quinteto com Max Roach em abril.

 

Art Farmer (tp) Sonny Rollins (ts -2/4) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d) Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, January 20, 1954

 

1- Wisteria (take 552)
2- Soft Shoe (take 553)
3- Confab In Tempo (take 554)
4- I’ll Take Romance (take 555)

 

 

Serge Chaloff Quartet – Blue Serge (1956)

Um homem de grande estatura adentra o estúdio de gravação da Capitol amparado por uma cadeira de rodas. Coloca-se diante do microfone, préviamente preparado a uma altura adequada, e um grande estojo negro é aberto. Com alguma dificuldade, Serge Chaloff monta as partes que compoem o imenso e pesado sax barítono que o acompanha desde que começou a aprende-lo de forma autodidata, ainda em Boston, onde nasceu em 24 de novembro de 1923. Pede que ajustem as luzes para uma intensidade mínima, mas que seja adequada aos engenheiros de áudio e auxiliares a executarem suas tarefas corriqueiras a uma sessão de gravação. Serge tem, neste 14 de março de 1956, 32 anos de idade. Seus movimentos estão sériamente comprometidos em decorrência de um tumor na medula recentemente diagnosticado. Ele está prestes a começar a gravar seu, possívelmente, último álbum como líder. E ele sabe disso.

 

Podemos imaginar, sem muito esforço, que naquele momento um rápido e alucinante filme de toda sua vida tenha percorrido, em sinapses intensas, sua mente. Seus primeiros anos de vida, quando manteve contato prematuro com a música através de seu pai, pianista da Orquestra Sinfônica de Boston, e de sua mãe, professora de música do conservatório da mesma cidade. Suas primeiras lições de piano e clarinete, instrumentos em que teve uma instrução formal. O deslumbramento pela sonoridade vigorosa do saxofone barítono de Harry Carney e Jack Washington, suas primeiras influências. Seu primeiro trabalho profissional como músico com Boyd Raeburn, e logo depois com Georgie Auld. A primeira orquestra de renome da qual participou, a de Jimmy Dorsey. Os acontecimentos vertiginosos dos últimos 10 anos, quando depois de participar da banda de Woddy Herman, como um dos Four Brothers, ao lado de Stan Getz, Herbie Stewart e Zoot Sims, foi reconhecido como um dos mais importantes baritonistas do bebop. Deve ter se lembrado dos anos negros que viveu vítima da adição em heroína, que o fizeram ficar estigmatizado temporáriamente como persona non grata no meios musicais. Com certeza, se lembrou de sua primeira sessão como líder para a Savoy, ao lado de Red Rodney, Earl Swope, George Wallington, Curley Russell e Tiny Kahn. Lembrou de sua volta para Boston, decorrência da falta de trabalho provocada por sua fama de junkie. Mas também lembrou-se da volta por cima, e dos trabalhos realizados ao lado de Bud Powell, Charlie Mariano, Herb Pomeroy, e do grande amigo Boots Mussulli.

 

Agora ele estava ali, na Capitol, sob os auspícios da produção do grande Stan Kenton, para fazer, talvez, seus últimos discursos. Está prestes a liderar um trio formado pelo magistral pianista Sonny Clark, o seguro contrabaixista Leroy Vinnegar, e a bateria mais requisitada do momento, a de Philly Joe Jones. O repertório já está decidido: seis standards e dois originais, sendo estes, um de sua autoria, um blues entitulado Susie’s Blues, e o outro do amigo Al Cohn, The Goof And I.

 

A Handful Of Stars, é exposta em andamento médio, com Chaloff explorando toda a extensão de seu instrumento. Dos registros mais graves aos agudos, Chaloff mantém sempre um timbre acurado, que sómente um músico de extremos recusros técnicos seria capaz de faze-lo. Sonny Clark particpa com um solo econômico em notas e seu acompanhamento minimalista nos remete ao piano de um Count Basie. Vinnegar é dono de um timbre especial, e suas frases tem sempre uma lógica impecável. Ele, Sonny e Serge fazem trocas de oito compassos estimulantes com Philly Joe antes de voltarem ao tema para o encerramento.

 

The Goof And I, de Al Cohn, é puro bebop. Sonny é o primeiro a solar em um fraseado que é amálgama de Bud Powell e Basie. Chaloff no bebop é simplesmente imbatível. Inexiste o problema da grande inércia no fraseado, oriunda do volume de ar a ser movido no sax barítono. Serge faz, por vezes, seu imenso instrumento soar na velocidade e fluidez de um sax alto. Nunca ouvi nada semelhante em um barítono.

 

A balada Thanks For The Memory, que em virtude do drama pessoal por que passava o líder, parece-nos hoje algo de epitáfico, é executada com uma carga emocional ímpar. Uma dosagem perfeita da dinâmica e do vibrato, faz Serge extrair o máximo em introspecção e passionalidade deste belo tema.

 

All The Things You Are, o standard preferido por 11 em 10 músicos do bebop, é inteiramente dissecada por Chaloff, que a executa com uma sintaxe que beira a perfeição. Sonny Clark não deixa a peteca cair nem 1 milímetro, em uma quase extensão do pensamento de Chaloff. Vinnegar produz um solo altamente melódico, não se desviando muito da melodia, e sendo impecávelmente sustentado por acordes de Clark. O líder expõe o tema para o encerramento de forma breve e altamente lírica.

 

Em I’ve Got The World On A String, de Harold Arlen, Chaloff faz novamente da dinâmica o ponto alto. Seu solo tem a sonoridade de um sax tenor, as idéias musicais uma originalidade de gênio. É o tema de maior duração do álbum, beirando os 7 minutos.

 

O original Susie’s Blues, um riff de 16 compassos em andamento acelerado, é veículo para mais fraseados em sintaxe bop do líder e do pianista Sonny Clark. Vinnegar constrói um vigoroso walkin bass antes das trocas de fours entre o quarteto.

 

A balada Stairway To The Stars, parece mais uma escolha profética de Chaloff. Lirismo e paixão são a tônica do fraseado do saxofonista. Ecos de Ben Webster podem ser percebidos. O solo de Sonny Clark é um verdadeiro tratado sobre beleza.

 

How About You encerra o álbum de forma positiva e energética. Quem a ouve, não pode ao menos supôr que o dono do fraseado vigoroso do barítono é, na verdade, um homem que passa por sérias limitações e dificuldades físicas.

 

A doença de Chaloff evoluiu rápidamente, o levando a falecer 14 meses após esta sessão de gravação, que se tornou seu canto do cisne. O jazz possuiu vários grandes saxofonistas barítono: Gerry Mulligan e sua extremamente bela concepção harmônica, Pepper Adams e seu estilo vigoroso de hardbop, Cecil Payne e seu estilo altamente fluido e bopper, Sahib Shihab um mestre em toda a linha de instrumentos de palheta; enfim uma grande gama de visões e concepções de uso deste membro da família dos saxofones. Todos foram grandes, gênios a seu modo. Mas Serge Chaloff ocupa um lugar especial e único no mundo do jazz. E Blue Serge ocupa, com louvor, um lugar entre as gravações antológicas e fundamentais na história desta maravilhosa forma de arte.
Serge Chaloff (bars); Sonny Clark (p); Leroy Vinnegar (b); Philly Joe Jones (d)
Capitol Studios, Melrose Avenue, Los Angeles, CA, March 14, 1956

 

1- A Handful Of Stars (Lawrence, Shapiro)
2- The Goof And I (Cohn)
3- Thanks For The Memory (Rainger, Robin)
4- All The Things You Are (Hammerstein, Kern)
5- I’ve Got The World On A String (Arlen, Koehler)
6- Susie’s Blues (Chaloff)
7- Stairway To The Stars (Malneck, Parish, Signorelli)
8- How About You (Freed, Heusen, Lane)

 

http://ouo.io/r71gEX

 
 

Jimmy Rowles Sextet – Let’s Get Acquainted with Jazz (…For People Who Hate Jazz) (1958)

Em meados dos anos cinquenta, Los Angeles experimentou uma verdadeira invasão de músicos em busca de segurança financeira, causada pelo cenário profissional promissor, tanto no campo da música comercial quanto no jazz. Somente na Califórnia havia tantos músicos de jazz comprando casas, carros, e trabalhando regularmente todos os dias como qualquer outro integrante da classe média americana. Alguns anos antes, nomes como Shorty Rodgers, Gerry Mulligan e Chet Baker haviam sido os responsáveis pelo repentino interesse no jazz da costa oeste, criando um jazz refinado, com arranjos altamente sofisticados, que atrairia o público em geral para seu som peculiar. A Central Avenue, em Los Angeles, havia se tornado uma espécie de versão em menor escala da 52nd street, estando abarrotada de locais fervilhantes, onde se tocava o swing e o bebop.

 

Jimmy Rowles ficou sabendo deste cenário através do que lhe contavam músicos como Ben Webster, Marshall Royal e Jimmy Blanton. Em 1940, Jimmy muda-se para a California, onde encontrou um ambiente propício para desenvolver seu raro talento de pianista, e ficaria conhecido como “A Enciclopédia”, por ser um dos maiores conhecedores da música norte-americana, tendo sempre o acorde certo na ocasião certa. Esta particularidade faria dele o pianista ideal para acompanhar cantoras, o que o levaria a passar boa parte de sua carreira dando suporte a nomes como Billie Holiday e Peggy Lee. Jimmy nasceu em 1918 no estado de Washington, e passou algum tempo atuando com nomes locais em Seattle, antes de se lançar na aventura que era conviver diáriamente na Central Avenue. Lá chegando, trabalhou com Lee e Lester Young, Slim Gaillard, Slam Stewart, Benny Goodman, Butch Stone, Bob Crosby, e Woody Herman. Após o serviço militar, voltou a tocar com Herman, gravou com Benny Goodman, e teve breves atuações com as orquestras de Les Brown e Tommy Dorsey. Trabalhou incansávelmente como músico de estúdio durante os anos 50 e 60, atuando em centenas de datas. São deste período suas atuações ao lado de grandes nomes do jazz como Stan Getz, Chet Baker, Zoot Sims e Charlie Parker, só para citar alguns.

 

Em 1958, o produtor Robert Scherman lhe pediu que recrutasse a quem desejasse para uma sessão de gravação. O resultado foi uma seleção dos maiores nomes do jazz da costa oeste: o trompetista Pete Candoli; o saxofonista Harold Land; o guitarrista Barney Kessel; o multi-instrumentista Larry Bunker, ao vibrafone; o contrabaixista Red Mitchell; e o baterista Mel Lewis. Como a natureza do jazz é espontânea, o resultado obtido foi idêntico; nenhum arranjo guiou os músicos, somente esboços das composições originais de Rowles e a memória em outros bem escolhidos standards.

 

Originalmente lançado com o título “The Upperclassmen”, foi posteriormente editado com o título atual, “Let’s Get Acquainted with Jazz (…For People Who Hate Jazz) “. Três deliciosos originais de Rowles abrem o álbum, o primeiro deles um tema com forte acento latino, “The Cobra”. Após belos solos de Rowles e Barney Kessel, Harold Land mostra seu conhecido estilo ao tenor, tendo o andamento dobrado pela seção rítmica. A sonoridade passional e emotiva de Land, aliada a um timbre macio e denso, é um dos pontos altos de todo o álbum.

 

“Cheeta’s For Two” é um riff blues de 16 compassos, tocada antes de cada solo, com os últimos 4 compassos dispostos de maneira a não resolver a melodia e servir de entrada para as idéias à serem desenvolvidas pelos solistas. Aqui, Red Mitchel faz seu primeiro solo, na forma magnificamente melodiosa, como sempre foi seu estilo. “El Tigre” volta à atmosfera latina, a melodia é toda disposta pelo trompete assurdinado de Pete Candoli.

 

“Lullaby of Birdland”, de George Shearing, é executada em ritmo de valsa na primeira parte, com a bridge e os solos sendo tocados em um suingante 4 por 4.

 

“Tea For Two”, “All For You”, “Body and Soul” e “East of the Sun”, são temas presentes nas obras dos maiores nomes do jazz e este grupo de gigantes faz o que deles se espera, solam com propriedade e estilo em breves execuções. A Ellingtoniana “Perdido”, de Juan Tizol, é levada em andamento médio, e antes da tomada definitiva, podemos ouvir as tentativas malogradas. “The Blues” se auto explica, é o tema em que todos os takes são apresentados na íntegra e pode-se sentir o clima de total divertimento do estúdio. Mel Lewis troca compassos com Bunker e Kessell, mostrando o baterista especial que sempre foi.

 

Jimmy Rowles mudou-se para NYC em 1973, lá gravou extensivamente com Stan Getz e participou de tournes acompanhando Ella Fitzgerald. Rowles é lembrado até hoje como especial compositor através de um dos mais belos temas já compostos no jazz, “The Peacocks”. Regressou para a California nos anos 80, onde viveu e gravou até falecer, em 28 de maio de 1996, em Los Angeles.

 

Jimmy Rowles – p; Pete Candoli – tp; Harold Land – ts; Barney Kessel – g; Larry Bunker – vb; Red Mitchell – b; Mel Lewis – dr
Recorded on June 20, 1958 at Radio Recorders, Hollywood, California

 

1- The Cobra (Rowles)
2- Cheetas for Two (Rowles)
3- El Tigre (Rowles)
4- Lullaby of Birdland (Shearing, Weiss)
5- Tea for Two (Caesar, Youmans)
6- All for You (Scherman)
7- Body and Soul (Eyton, Green, Heyman, Sour)
8- East of the Sun (And West of the Moon) (Bowman)
9- The Blues (Rowles)
10- Perdido (Drake, Lengsfelder, Tizol)
11- The Blues [alternate take #1] (Rowles)
12- The Blues [alternate take #2] (Rowles)
 

Andy Jaffe Sextet – Manhattan Projections (1984)

O pianista Andy Jaffe paralelamente a sua carreira de ativo “band-leader” é também um atuante profissional no meio acadêmico do ensino musical. Foi professor na Berklee College of Music, em Boston; lecionou no departamento de música da University of Massachusetts; é atualmente o diretor do Williams College Jazz Ensemble e leciona, como mestre, composição e arranjo com ênfase em jazz na Tufts University, onde também é diretor do Jazz Ensemble. Co-lidera uma big band de 20 integrantes, e integra duos com virtuoso do french-horn John Clark e com o pianista Tom McClung. Andy é possuidor de tamanho fôlego, que ainda encontra tempo e energia para se dedicar a ser corredor de maratonas, participando da maratona de Boston por 12 vezes.
Tanta vitalidade é percebida na música contida neste seu primeiro trabalho gravado em janeiro de 84. Sua música tem referências nos grandes da história do jazz, com ecos de Gil Evans, Horace Silver, Oliver Nelson, Bobby Timmons e Wayne Shorter. Andy cercou-se dos maiores talentos surgidos na década de 80, alguns deles ex-alunos: caso do saxofonista Branford Marsalis, do baterista Marvin “Smitty” Smith e do contrabaixista Lou Harless. Completam esta verdadeira seleção de Young Lions, o trompetista Wallace Roney, o saxofonista alto Ed Jackson e o falutista Tom Olin.
O álbum abre com um tour-de-force, a faixa título “Manhattan Projections”, um suingante tema em 32 compassos, veículo para a maioria dos solistas da banda apresentarem seus cartões de visita. Marsalis executa o primeiro solo ao tenor, passeando sobre a rápida mudança harmônica dos acordes do tema. Seu timbre no tenor é quente e cheio, sua escolha das notas produz um fraseado cheio de sentimento de alegria. Roney faz seu solo de forma brilhante e agressiva, em contraste com Marsalis, que soa mais relax. Jaffe, que modestamente se considera mais um compositor do que um instrumentista, faz seus dedos voarem, construindo longas e fluidas frases. Lou Harless tem sua vez antes das trocas de 4 compassos entre Marsalis, Smith, Roney e Jaffe.
“Samba de Saudade” tem um mood totalmente diferente da faixa de abertura. É puro latin-jazz, com Ed Jackson improvisando um furioso solo bopper, suportado por um intenso drumming de Smith. Roney mantém o fraseado na sintaxe bebop até a entrada de Marsalis no sax soprano. Suas frases, repetidas aqui e acolá, adicionam tensão a execução. Jaffe produz um solo recheado de sequências harmônicas de refinado gosto, enquanto o drumming de Smith é simplesmente avassalador.
“Dersu” é uma melancólica balada, bem ao estilo de Wayne Shorter. O trompete de Roney se sobressai no arranjo para tocar a melodia. Ed Jackson provém o primeiro solo, repleto de passionalidade. Marsalis inicia seu solo de modo pensativo, sendo impulsionado aos poucos pela energia do baterista Marvin Smith. Jaffe escolhe os acordes de modo a adicionar uma atmosfera emocional e introspectiva ao tema.
“So You Say” é um hardbop em 5/4, a princípio temos a sensação que vamos ouvir ao “Take Five” de Brubeck, mas a melodia está mais para Bobby Timmons. Marsalis mostra em solo o quanto deve a Wayne Shorter na formação de seu estilo. Utiliza de forma sempre inteligente figuras rítmicas repetidas na construção de seu fraseado. Roney sola com estilo que paga tributo aos maiores do hardbop como: Clifford Brown, Lee Morgan e Donald Byrd. Marvin Smith é um mestre nos drummings intensos e progressivos, sua contribuição para estabelecer uma dinâmica aos temas é fundamental.
“Blues For Cannonball” foi composta por Jaffe na ocasião do falecimento de Cannonball Adderley, é um blues de sentimento melancólico que mostra a grande influência composicional de Oliver Nelson na música de Jaffe. O solo principal está, óbviamente, na seara do sax alto de Ed Jackson, seu fraseado tem uma qualidade que beira expressões da voz humana. Tom Olin tem seu único solo no álbum no sax barítono. Jaffe é o último a solar, em forma quase introspectiva. A melodia deste blues chega a sugerir a melodia de “I Remember Clifford”.
Em “The Scorpion” Jaffe paga seu tributo a outro gigante do jazz, Horace Silver. Ed Jackson tem um solo altamente fluido e bluesy. Roney promove uma contribuição mais lírica, soando quase como um flugelhorn. Marsalis, ao soprano, tem seu solo mais impressionante no álbum.
As 3 últimas faixas do álbum, pertencem a uma outra sessão de gravação, acontecida em agôsto de 91, com uma outra formação e outra sonoridade. Integram a versão em CD como faixas bônus, mas mantém a extrema qualidade de composição e execução que permeiam todo o trabalho deste magnífico pianista e compositor que é Andy Jaffe.

 

Conselho de amigo: se você ainda não conhece a música de Andy Jaffe, não perca mais tempo!
Andy Jaffe (p); Wallace Roney (tp); Branford Marsalis (as, ts); Ed Jackson (as); Tom Olin (bs, piccolo); Lou Harless (b); Marvin “Smitty” Smith (d)
Recorded NYC, 24 january, 1984

 

Andy Jaffe (p); John Clark (french horn); Bill Lowe (tb); Philippe Crettien (ts); Mike Marcus (b); Claire Arenius (d)
Recorded 2 august, 1991*

 

1- Manhattan Projections
2- Samba de Saudade
3- Dersu
4- So You Say
5- Blues For Cannonball
6- The Scorpion
7- Integrity
8- Transition*
9- Whole Town*
10- Goose*