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Arquivo mensal: abril 2010

HotBeatJazz 10′ Series – Modern Jazz Trombones Vol 2 – 10’LP PRLP 123 (1951)

Modern Jazz Trombones foi uma série lançada pela Prestige com o intuito de formatar em 10 polegadas antigos lançamentos em 78 rpm dos principais trombonistas de seu cast. No volume 1 foram comtemplados os grupos All-Stars de Kai Winding e de J. J. Johnson. Neste segundo volume, J. J. Johnson aparece co-liderando um quinteto ao lado do saxofonista Sonny Stitt em gravações efetuadas em outubro de 1949. No lado A, o trombonista Bennie Green é a voz principal de um hepteto gravado em outubro de 1951.

 

Bennie Green é um nome mais ligado ao swing do que própriamente ao bebop, apesar ser da mesma geração de Sonny Stitt, Charlie Parker, e outros nomes do estilo. Não obstante, seu estilo incorporou alguns maneirismos do bebop e muitos do R&B. Foi um valioso membro da big band berçário dos maiores nomes do bebop, a de Earl Hines, juntamente com Parker, Stitt, Dexter Gordon e outros. Em 1951, Green voltava a trabalhar com Hines, desta feita em um combo de dimensões reduzidas, após um pequeno hiato de 3 anos. Concomitante ao fato, começava a destacar-se como um líder de pequenos combos, como este formado pelos saxofonistas tenores Eddie “Lockjaw” Davis e Big Nick Nicholas, pelo sax barítono de Rudy Williams, pelo piano de Teddy Brannon, o contrabaixo de Tommy Potter e a pulsante bateria do mestre Art Blakey.

 

Green Juction, é tema repleto de características do swing, head arrangments à la Basie, com o naipe de saxes repetindo riffs como base do solo altamente melódico de Green. O tema é apresentado e encerrado em um bem temperado uníssomo das palhetas e trombone.

 

Flowing River, é uma balada melódica e ralentada. O trabalho de Green e Lockjaw são luminares, com o restante do combo provendo a ambos de um delicioso suporte harmônico. Destaque para o trabalho do pianista Teddy Brannon, um esquecido veterano do Minton’s Playhouse.

 

Whirl-A-Licks, é Bennie Green mostrando que não foge da raia quando o assunto é bebop em up-tempo. Uma alucinante troca de compassos com Lockjaw e um suporte vigoroso de Blakey mantém a pulsação. Lockjaw mostra seu estilo áspero e viril, que fez escola nos anos 40 e 50.

 

Bennie’s Pennie’s, é a paráfrase de Green para o standard Pennies From Heaven. O trombonista apresenta seu belo timbre de sempre antes de uma pequena intervenção de Brannon em um estilo calcado em Teddy Wilson.

 

Chegamos agora às gravações do quinteto J.J. Jonhson – Sonny Stitt com Afternoom in Paris. O tema é apresentado em delicioso contraponto entre os líderes com o piano de John Lewis estabelecendo a melodia. Stitt é o primeiro a solar no sax tenor, com seu estilo peculiar, tantas vezes confundido com Charlie Parker no fraseado. J.J. o segue, antes da contribuição de John Lewis com sua técnica refinada e econômica ao piano.

 

Elora, é um original de Johnson que apresenta solo primoroso de Stitt, sintaxe perfeita e imenso domínio do vocabuláro bop. Max Roach aparece em troca de fours e eights com os líderes antes do encerramento.

 

Blue Mode se autodefine. É apresentado em um andamento médio, com solos inspirados dos líderes, em especial Sonny Stitt. O contrabaixista Nelson Boyd provém um seguro walkin’ ao combo.

 

Teapot, outro original de Johnson, encerra o álbum em up-tempo. Sonny Stitt é um verdadeiro gênio do sax tenor, com fraseado de articulação perfeita. As trocas de fours entre os líderes são nitroglicerina pura.

 

Modern Jazz Trombones são gravações históricas e fundamentais para o entendimento da linguagem deste instrumento no jazz moderno e contemporâneo.
Bennie Green (tb) Eddie “Lockjaw” Davis, Big Nick Nicholas (ts) Rudy Williams (bars) Teddy Brannon (p) Tommy Potter (b) Art Blakey (d)
NYC, October 5, 1951

 

1- Green Junction
2- Flowing River
3- Whirl-A-Licks
4- Bennie’s Pennie’s (Pennies From Heaven)

 

J.J. Johnson (tb) Sonny Stitt (ts) John Lewis (p) Nelson Boyd (b) Max Roach (d)
NYC, October 17, 1949

 

5- Afternoon In Paris
6- Elora
7- Blue Mode
8- Teapot
 

HotBeatJazz 10′ Series – Thelonious Monk Quintet – 10’LP PRLP 180 (1954)

Não houve, na história do jazz, músico mais difícil de ser digerido e apreciado do que Thelonious Sphere Monk. Estando ele sempre a frente de seu tempo e alheio a estilos e modismos, Monk permaneceu por anos à fio como uma criatura à parte de tudo que lhe cercava. Sua música era única e refratária a qualquer rótulo que lhe quizessem aderir. O pianista Bill Evans certa vez disse sobre Monk o seguinte: “Monk é um exemplo extraordinário de talento criativo que não é corrompido por nada. Ele aceitou todos os desafios que alguém tem que aceitar se deseja criar música no idioma jazz”. Monk começou a ficar conhecido em 1939, quando foi contratado para ser o pianista do Minton’s Playhouse, casa de música de NYC e berço do emergente bebop, estilo que mudaria em definitivo os rumos da música moderna e contemporânea. Lá, ele seria um encorajador de vários jovens músicos, como o pianista Bud Powell, por exemplo. Em 1941, foi gravado pela primeira vez atuando ao lado do guitarrista Charlie Christian, em uma das incontáveis jam sessions que eram costumeiras de acontecer no Minton’s. Da mesma forma, Monk atuou com célebres visitantes da casa: Roy Eldridge, Don Byas, a cantora Helen Humes, entre outros. Somente em 1944 Monk entraria em um estúdio de gravação para uma sessão formal, acompanhando o saxofonista Coleman Hawkins, outro habitual visitante do Minton’s. Haveria de se passar mais três anos para que Monk entrasse em estúdio como líder, para gravar composições próprias, pela gravadora Blue Note, onde permaneceu como contratado até 1952, ano em que assina contrato com a Prestige, de Bob Weinstock. Neste contexto, Monk começa a gravar com maior frequência, e a consolidar uma característica que não abandonou até sua morte, a de rever sempre sua própria obra, regravando à exaustão suas composições. O repertório de Monk sempre consistiu de suas criações acrescidas de alguns poucos standards, que também regravava constantemente.

 

Em 11 de maio de 1954, Monk gravou a frente de um quinteto formado pelo excelente, tanto quanto esquecido, trompetista Ray Copeland; pelo ótimo saxofonista tenor Frank Foster, então peça chave na orquestra de Count Basie, ao lado de Frank Wess, Thad Jones, Charlie Fowlkes, e outros. Art Blakey com sua bateria inconfundível e única, e o onipresente contrabaixista Curly Russell, completavam a seção rítmica. Três composições de Monk e o standard Smoke Gets In Your Eyes formavam o repertório selecionado para a data.

 

Wee See, com seus intervalos incomuns e estimulantes, abre o álbum. Monk é o primeiro a solar, sempre com seu estilo marcadamente percussivo e acordes dissonantes na harmonia. Frank Foster mostra seu estilo vigoroso no sax tenor. Frank foi um músico muito influente em Detroit no início dos anos 50, o pianista Tommy Flanagan fala a esse respeito: “Frank foi uma grande influência nos jovens de Detroit. Escreveu muita música original. Nós o equiparávamos a Coltrane naquela época.”

 

Smoke Gets In Your Eyes, é inteiramente dissecada por Monk, com Ray e Frank se limitando a alguns voicings. O sentido de tempo e espaços na execução de Monk, são características tão próprias e originais, que faz seu toque ser reconhecível já nos primeiros acordes. O martelar renitente de acordes e notas em repetições, fazem parecer que Monk queria dizer aos ouvintes: “Hey, prestem atenção! Aqui está a solução da frase, busquem-na!”

 

Locomotive, é um blues fantástico, com intervalos típicos do bebop, tal qual “Now’s the Time” de Parker. Copeland produz um solo inteligente e articulado antes da intervenção de Foster, impregnada de fluidez e swing. Seu timbre, é cheio e macio, Frank é um grande exemplo dos tenoristas da década de 50, que souberam como ninguém, fazer um amálgama do fraseado de Lester Young e da timbragem robusta de Coleman Hawkins.

 

Hackensack é um clássico do repertório de Monk, uma melodia forte como de Straigh, No Chaser, e outras inúmeras peças do pianista. O entendimento entre Monk e Blakey é de uma sintonia absoluta. Frank sola com energia e stamina, entregando a Copeland o andamento já bastante aquecido por Blakey, que sola em seguida com estilo vigoroso e com uma afinação de tambores muito particular dele.

 

Esta sessão encontra-se entre as grandes que Thelonious Monk produziu para a Prestige, numa associação que durou até 1955, quando passou a gravar para a Riverside, mas isto, é assunto para outra postagem.
Ray Copeland (tp) Frank Foster (ts) Thelonious Monk (p) Curly Russell (b) Art Blakey (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, May 11, 1954

 

1- Wee See
2- Smoke Gets In Your Eyes
3- Locomotive
4- Hackensack
 

HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis Quintet – 10’LP PRLP 187 (1954)

A primeira metade da década de 50 foi um período de busca pessoal e artística para Miles Davis. No campo pessoal ele procurava se livrar da adição em heroína, o que ele conseguiria pela primeira vez ainda em 1950. Artísticamente sua busca consistia em achar um modelo de som e de formação de seu combo, busca esta que iria exigir mais tempo de Miles. De 1950 à 55, Miles testou todos os tamanhos e arquiteturas de formações possíveis. Do noneto do início da década, ainda resultado do Birth of the Cool, até o quarteto básico, Miles procurou todas as possibilidades de expressão para sua música. Tocou com uma verdadeira constelação de músicos: J.J. Johnson, Stan Getz, Tadd Dameron, Lee Konitz, Gerry Mulligan, John Lewis, Fats Navarro, Brew Moore, Art Blakey, Benny Green, Roy Haynes, Kenny Drew, Eddie “Lockjaw” Davis, Billy Taylor, Charles Mingus, Jackie McLean, Walter Bishop Jr, Jimmy Forrest, Don Elliott, Al Cohn, Zoot Sims, Jimmy Heath, Max Roach, Oscar Pettiford, e até mesmo, Charlie Parker, todos estes grandes músicos contribuíram para a música de Miles. Em 1954, Miles começa a achar o rumo que seguiria pelo resto da década e que o levou ao patamar de gigante do jazz. A formação de um quinteto que consistia, além dele, de um saxofonista tenor de estilo forte e agressivo, que contrastasse com seu trompete suave; um pianista que soubesse tocar deixando espaços na música, verdadeiros vácuos harmônicos; e baterista e contrabaixista que se adaptassem a um estilo que ficava a meio caminho do bebop, do hardbop e do cool.

 

Nesta seção de 29 de junho de 1954, esta busca começava a se materializar em um combo com Sonny Rollins ao sax tenor, Horace Silver ao piano, Percy Heath ao contrabaixo, e o veterano Kenny Clark na bateria. Rollins tem importancia fundamental, não só como contraponto ao lirismo de Miles instrumentalmente, mas também, como grande compositor de temas. É o que temos neste 10 polegadas de apenas 4 músicas: 3 originais de Rollins, e um clássico de George Gershwin. Rollins nestas gravações ia se consolidando como um dos mais influentes sax tenores do jazz moderno e um dos compositores mais originais que surgiam nesta efervescente época. Horace Silver, ainda um jovem e promissor talento, entendeu à perfeição o papel que deveria desempenhar na música de Miles, não enchendo os espaços com blocos densos de acordes, mas sim, contribuindo para uma maior flexibilidade rítmica e harmônica do grupo, papel que seria depois brilhantemente executado por Red Garland no quinteto com Jonh Coltrane no tenor. Estas gravações ficaram indelévelmente marcadas na história do jazz, sendo uma mostra do poder musical que arrebataria a todos, um ano depois, com o quinteto definitivo.

 

Miles Davis (tp) Sonny Rollins (ts) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, June 29, 1954

 

1- Airegin (S. Rollins)
2- Oleo (S. Rollins)
3- But Not For Me (G. Gershwin – I. Gershwin)
4- Doxy (S. Rollins)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Don Byas Et Ses Rythmes – L’Inimitable 10’LP MGN 12 (1952)

Carlos Wesley (Don) Byas, nasceu em 21 de outubro de 1912, em Muskogee, Oklahoma. Um dos maiores tenoristas do jazz, sua sonoridade vigorosa e cheia rivalizava com Coleman Hawkins. Não fosse sua opção de fixar residência na Europa, não teria sido tão esquecido e negligenciado nos EUA. Contemporâneo de Lester Young, Ben Webster e outros grandes nomes do instrumento, Byas começou a se destacar na orquestra de Lionel Hampton, em 1935. Em 36 integra o combo de Buck Clayton, em seguida as bandas de Don Redman, Lucky Millinder e Andy Kirk. De 1941 à 43, ocupa uma estante na orquestra de Count Basie. Com seu estilo completamente calcado no swing, Byas, tal qual Coleman Hawkins, era um músico que olhava para a frente, sendo um dos primeiros a reconhecer a validade e a qualidade dos novos talentos do bebop que surgiam na década de 40. Costumava participar de jams no Minton’s Playhouse, e era fácil encontra-lo atuando pela rua 52 ao lado de nomes, então desconhecidos, como Dizzy Gillespie. Participou das primeiras gravações do nascente estilo bebop em 1945 para logo após, viajar com a orquestra Don Redman para a Europa, de onde não mais retornaria. Satisfeito com a relação de respeito e reconhecimento que usufruia no velho continente, Byas engrossou a legião de músicos de jazz que se auto-exilaram na Europa. Viveu na França, Holanda e Dinamarca, participou dos principais festivais de jazz do continente, e foi atuante com vários músicos americanos que chegavam a Europa em turnées.

 

L’Inimitable, foi gravado em Paris, em duas sessões distintas. A primeira, em julho de 1950, em quinteto com músicos franceses e o pianista Art Simmons. São desta data: It’s the Talk Of The Town e A Pretty Girl Is Like A Melody, temas que fecham o álbum.

 

Da segunda data, realizada em abril de 1952, são as seis faixas restantes. Byas, atuou em um quarteto formado por músicos americanos: novamente Art Simmons ao piano, Joe Benjamim no contrabaixo, e Bill Clark na bateria. As interpretações mostram o quanto sua maneira de tocar o saxofone estava vigorosa, apesar de um tanto old fashion.

 

Don Byas faleceu em 24 de agosto de 1972, em Amsterdan, literalmente esquecido em sua terra natal, porém respeitado e dignificado na Europa, tal qual aconteceria com um grande número de jazzistas.
Don Byas (ts) Art Simmons (p) Jean-Jacques Tilche (g) Roger Grasset (b) Claude Marty (d)
Paris, France, July 4, 1950*

 

Don Byas (ts) Art Simmons (p) Joe Benjamin (b) Bill Clark (d)
Paris, France, April 10, 1952

 

1- Laura
2- Somebody Loves Me
3- Old Folks At Home
4- Riviera Blues (Blues à la Don)
5- Smoke Gets In Your Eyes
6- I Cover the Waterfront
7- It’s the Talk Of the Town*
8- A Pretty Girl Is Like a Melody*

 

 

HotBeatJazz 10′ Series – Thad Jones – The Fabulous 10’LP DLP 12 (1954)

Thaddeus Joseph Jones, mais conhecido como Thad Jones, nasceu em uma numerosa família de Pontiac, Michigan, em 28 de março de 1923. Um dos dez irmãos, entre os quais também se destacaram o mais velho, Hank, pianista, e o caçula, Elvin, baterista. Aprendeu o trompete de forma autodidata e aos 16 anos já atuava profissionalmente em grupos e orquestras de dança locais. Serviu o exército durante a 2° guerra mundial, de 43 a 46, atuando nas bandas da força. Foi em 1954 que sua carreira profissional começou a tomar rumos definitivos. Entrou para a orquestra de Count Basie ocupando uma estante no naipe de trompetes, e também compôs e arranjou para a banda. São seus os solos em algumas das mais populares gravações da orquestra naquele período, como em: April in Paris, Corner Pocket e Shiny Stockins. Permaneceu com Basie até 63. Em 65 organizou, juntamente com o baterista Mel Lewis, uma excelente orquestra. Começaram a tocar no Village Vanguard no ano seguinte, onde durante vinte anos foram a atração fixa das noites de segunda-feira. Após a morte dos líderes a orquestra continuou sob a batuta de John Mosca, e pode até hoje ser vista atuando naquela casa.

 

The Fabulous Thad Jones foi gravado em 1954, para o sêlo Debut, de propriedade do contrabaixista Charles Mingus. Foi sua primeira gravação como líder, e impressionou Mingus de forma significativa, como o próprio escreve nas notas de contra-capa do LP: “Thad é o maior trompetista que já escutei tocar. Ele utiliza todas as técnicas clássicas, e é o primeiro cara a fazê-las suingar. Seu irmão Elvin, é tão bom quanto na bateria. Os músicos chamam Thad de: O messias do trompete. Thad é bom demais pra que eu possa acreditar. Ele faz coisas que Dizzy Gillespie e Fats Navarro fizeram com dificuldade no trompete. Me refiro as coisas que eles quase não conseguiam executar, embora você ainda os respeitasse porque sabia que outros nem mesmo tentariam faze-las. Coisas que Miles nunca fez. Coisas que Dizzy ouviu Parker fazer, e que Fats Navarro nos fez acreditar que eram possíveis de se fazer…. Thad, é um Bartok em instrumento de válvulas, e sua escrita, é guiada diretamente por Deus.” Depois desta opinião sobre Thad, emitida por um dos maiores músicos que o jazz já viu, este escriba humildemente exime-se de acrescentar qualquer opinião que por ventura ainda tenha.

 

O grupo que acompanha Thad Jones é absolutamente impecável: seu irmão, Hank, ao piano; o saxofonista Frank Wess, parceiro de Thad na orquestra de Basie; o patrão, Charlie Mingus, no contrabaixo; e o pai da bateria bop, Kenny Clarke.

 

Illusive, escrita por Thad, é uma composição de alta complexidade. É uma composição baseada em blues, porém, com uma estrutura não convencional e altamente criativa. O solo de Thad é límpido e inspirado, o piano de Hank é sempre lírico e carregado de técnica e categoria. Frank Wess é um saxofonista diretamente ligado a escola de Lester Young, na orquestra de Count Basie era esta a sua função.

 

Sombre Intrusion, também de Thad, é uma composição que nos remete à algumas produzidas por Thelonious Monk, sombria e bela. O som cheio e vigoroso de Thad, se superpõe ao ensemble, que tem Frank Wess atuando na flauta, instrumento no qual foi um especialista. Hank Jones executa uma introdução e um interlúdio carregados de emotividade.

 

You Don’t Know What Love Is, é veículo integral para o trompete do líder, que a executa de modo sensível e melancólico. A interpretação de Thad para este standard é, para mim, definitiva.

 

Bitty Ditty, outra composição da pena de Thad, reverte o clima para algo alegre e ensolarado. Mingus executa uma criativa linha de baixo, produzindo acentuações repletas de swing em suporte aos solos e também em sua própria improvisação.

 

Chazzanova, é uma composição de Mingus, e como tal, nada de convencional. Uma balada repleta de surpresas melódicas. Mingus sempre possuiu esta inata capacidade, a de não escrever nada óbvio ou previsível. Thad e Frank Wess se estimulam mútuamente durante toda a execução.

 

O outro standard da sessão, I’ll Remember April, encerra o álbum de forma descontraída e relaxada. Após breve introdução de Hank, Thad expõe o tema de forma criativa e plena em técnica, antes de sua improvisação, que atesta o quanto foi negligenciado pelos críticos e escritores especializados.

 

Thad Jones foi uma verdadeira escola no seu instrumento, mas que ficou em segundo plano visto seu imenso talento para arranjar e dirigir orquestras. Algo semelhante ao que aconteceu a Oliver Nelson e alguns outros exímios instrumentistas, ofuscados pela própria diversidade de talentos e atribuições. Thad faleceu aos 63 anos, em 21 de agosto de 1986.
Thad Jones (tp) Frank Wess (ts, fl) Hank Jones (p) Charles Mingus (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, August 11, 1954

 

1- Elusive (Illusive)
2- Sombre Intrusion
3- You Don’t Know What Love Is
4- Bitty Ditty
5- Chazzanova
6- I’ll Remember April
 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – South of The Border 10’LP MGC 513 (1952)

South Of The Border é um LP 10 polegadas resultante de uma compilação de gravações feitas em duas sessões e anteriormente lançadas em 78 r.p.m. A primeira data aconteceu em 12 de março de 1951, Parker estava a frente de um sexteto formado pelo pianista Walter Bishop Jr, o contrabaixista Teddy Kotick, o baterista Roy Haynes, e os percussionistas Luis Miranda nas congas, e Jose Mangual no bongô. O repertório foi inteiramente dedicado a músicas latinas e temas com roupagem caribenha, básicamente com percussão ao estilo cubano. Estas gravações foram lançadas sob o título original de Charlie Parker’s Jazzers.

Little Suede Shoes abre com a percussão desenvolvendo um andamento ralentado e malevolente, Parker faz seu discurso recheado de clichês bop antes do solo comedido de Bishop.

Un Poquito De Tu Amor tem o ritmo chamado popularmente de cha-cha-cha, uma onomatopéia que se tornou denominação de estilo musical. Parker brinca com o tema realçando as características rítmicas da peça.

Os músicos atravessam o equador e chegam aos trópicos setentrionais, mais precisamente ao Brasil do chorinho de Zequinha de Abreu, Tico Tico No Fubá. Parker é perfeito na improvisação do choro, o mesmo não se pode dizer dos percussionistas, um tanto perdidos e deslocados na divisão rítmica.

 

As cinco faixas restantes foram gravadas meses depois, em 23 de janeiro de 1952. Parker, Bishop e Kotick, são agora ladeados por Max Roach na bateria, Benny Harris no trompete, e possivelmente, Jose Mangual no bongô.

 

O sexteto interpreta Mama Inez, uma música típica dos Mariachi mexicanos. Parker seria capaz de tocar bebop até com o acompanhamento da sinfônica de viena interpretanto Strauss. Seu discurso complexo paira acima de tudo.

 

La Cucaracha continua no repertório Mariachi, Parker, Little Benny Harris e Walter Bishop tocam como se estivessem em um club da rua 52 de NYC. Eles querem é tocar bebop.
Estrellita traz o bolero ao palco, o tema tem mais nuances melódicas q as anteriores, Benny Harris faz um solo um tanto vacilante.

 

Beguin The Beguine, de Cole Porter, é o ponto alto do álbum. Um tema com mais possibilidades harmônicas, e onde os músicos se sentem bem mais a vontade. O solo de Bishop é primoroso, seguido por um enfurecido Parker.

 

La Paloma encerra o álbum em clima Mariachi mais uma vez. Parker produz um solo repleto de nuances e energia bop.

 

Dentro da discografia de Charlie Parker, South Of The Border ocupa um lugar de interesse mais pelo exótico e o inédito. Não se comparam musicalmente às gravações com cordas e com as de repertório típico do bebop, porém, são reveladoras de como o gênio de Charlie Parker se mantém imune ao que o cerca. Sua verborragia musical e sintaxe bop estavam acima de qualquer contexto em que pudessem colocá-lo. Estas gravações são provas vivas da seguinte máxima: Parker é Parker!
*Charlie Parker (as) Walter Bishop Jr. (p) Teddy Kotick (b) Roy Haynes (d) Luis Miranda (cga) Jose Mangual (bgo)
NYC, March 12, 1951

 

Benny Harris (tp) Charlie Parker (as) Walter Bishop Jr. (p) Teddy Kotick (b) Max Roach (d) Jose Mangual (bgo)
NYC, January 23, 1952
1- My Little Suede Shoes*
2- Un Poquito De Tu Amor*
3- Tico Tico*
4- Mama Inez
5- La Cucaracha
6- Estrellita
7- Begin The Beguine
8- La Paloma
 

HotBeatJazz 10′ Series – Laurindo Almeida Quartet featuring Bud Shank – 10’LP PJLP 7 (1953)

Laurindo José de Araújo Almeida Nóbrega Neto, ou simplesmente Laurindo Almeida, nasceu em 2 de setembro de 1917, em Miracatú, no litoral do estado de São Paulo. Foi um dos quinze filhos de um ferroviário e de uma simples dona de casa. Seu pai era um aficcionado pelas serestas e sua mãe se atrevia a bater uns acordes no piano. Foi neste ambiente que Laurindo aprendeu os primeiros rudimentos musicais, porém aos vinte anos já era um exímio violonista. Em 1936, iniciou sua carreira profissional tocando a bordo de um navio de cruzeiro e dois anos depois tentava a sorte no Rio de Janeiro, onde, depois de passar por algumas dificuldades, seria contratado pela Rádio Mayrink Veiga. Trabalhando na rádio teve a oportunidade de tocar com grandes nomes da música brasileira, formou um duo com o também exímio violonista Garoto, e atuou como solista em peças regidas por Heitor Villa-Lobos e Radamés Gnattali.

 

Em 1947, os rumos de sua vida mudam radicalmente quando contratado como integrante do grupo de Carmen Miranda, embarca para os Estados Unidos. Em 49, é contratado como músico da orquestra de Stan Kenton, onde passa a ser um dos solistas mais originais que a orquestra apresentava. É desta época sua amizade com o colega da banda de Kenton, grande flautista-saxofonista Bud Shank, uma associação que perduraria por mais de 35 anos, tendo seu ponto alto no combo L.A. Four, formado por ambos e acrescido do célebre contrabaixista Ray Brown e do baterista Shelly Manne, depois substituído por Jeff Hamilton, chegaram a gravar 9 álbuns.

 

Laurindo Almeida Quartet, gravado em 1953, foi a primeira associação dos dois em disco, e marca o início do grande interesse que o saxofonista teria pela música popular brasileira. Para muitos pesquisadores e críticos, esta gravação é uma espécie de gênese embrionária da futura Bossa-Nova, opinião de que pessoalmente não compartilho. Inegável é o fato de ter sido Laurindo, o primeiro instrumentista de reconhecido talento a divulgar a capacidade instrumental da música do Brasil no exterior. Ele abriu as portas do caminho que seria seguido mais tarde por nomes como: Luis Bonfá, Sérgio Mendes, Baden Powell, Tom Jobim, João Donato, e mais uma legião de músicos brasileiros.

 

No repertório do álbum, 4 músicas brasileiras como: Baião, de Luis Gonzaga; Carinhoso, de Pixinguinha; Nonô, de Garôto; e Tocata, escrita especialmente para esta gravação por Radamés Gnattali. Noctambulism, foi composta pelo contrabaixista do quarteto, Harry Babasin; e Hazardous, é de autoria de Dick Hazard. O baterista-percussionista Roy Harte completa o quarteto.

 

A carreira de Laurindo Almeida foi coroada de sucessos, em 63 gravou com o Modern Jazz Quartet um excelente álbum, ganhou seis Prêmios Grammy, compôs e arranjou para mais de 800 produções, incluindo aí uns tantos filmes para Hollywood. Laurindo faleceu em Los Angeles, em 26 de julho de 1995.
Laurindo Almeida (g); Bud Shank (as); Harry Babasin (b); Roy Harte (d)

 

1- Blue baião
2- Cariñoso
3- Nono
4- Hazardous
5- Noctambulism
6- Tocata
 

HotBeatJazz 10′ Series – Shorty Rogers & His Giants – 10’LP LPM 3137 (1953)

Milton Rajonsky nasceu em 14 de Abril de 1924, em Great Barrington, Massachusetts. Mas foi conhecido como Shorty Rogers que ele se tornaria um dos mais importantes músicos do jazz produzido na costa oeste norte-americana. Trompetista, também exímio no flugelhorn, arranjador e compositor, Shorty começou sua atividade ainda na década de 40. De 45 a 47, tocou com Will Bradley e Red Norvo. Em 47 entrou para a orquestra de Woody Herman, onde ficaria até 1949. Em 50 e 51, tomou parte da orquestra de Stan Kenton. Aliás é importante citar que 99,9% dos grandes instrumentistas do west-coast passaram por essas duas instituições, verdadeiros celeiros de grandes nomes do jazz. Nos anos 50, tomou parte em inúmeros trabalhos de nomes como Jimmy Giufre, Shelly Manne, Art Pepper, André Previn, e foi membro efetivo dos Lighthouse All-Stars.

 

De 53 a 62, Shorty gravou uma série de álbuns para a RCA Victor liderando seus Giants, grupo que podia variar da formação de quinteto até a de uma pequena orquestra. São desta época: Shorty Courts the Count (1954), disco inteiramente dedicado ao repertório de Count Basie; The Swinging Mr. Rogers (1955), Martians Come Back (1955), e este primeiro, Shorty Rogers & His Giants (1953). O nome de “gigantes”, não era nenhum exagero ou falta de modéstia, visto a escalação destes verdadeiros craques do cool-jazz: o altoísta Art Pepper, o tenorista Jimmy Giuffre, e o trombonista Milt Bernhart na linha de frente. A seção rítmica padrão do west-coast com o pianista Hampton Hawes, o contrabaixista Joe Mondragon, e o inigualável baterista Shelly Manne. Contribuindo para o colorido tonal especial dos arranjos de Shorty Rogers, o french-horn de John Graas e a tuba de Gene Englund.

 

Morpo, de linha melódica claramente influenciada pelo bebop, tem no tenor de Giuffre, no french-horn de Graas, e no sax alto de Pepper, breves porém instigantes solos; o trompete do líder e o piano de Hawes, são os últimos a solar antes das trocas de compassos de todo o ensemble com a bateria de Manne.

 

Bunny, é uma balada lírica, perfeita para o alto de Pepper fazer as honras ao lado do pungente french-horn de Graas. Uma linda melodia de Rogers e um arranjo de verdadeiras filigranas tonais, fazem desta composição uma jóia de rara beleza.

 

Powder Puff, de Shelly Manne, é um tema de melodia típica do jazz west-coast, alegre e ensolarado. Pepper é o primeiro a contribuir com breve solo, seguido por Bernhart e Hawes, antes de Shelly Manne mostrar por que foi o principal baterista do estilo.

 

A bola continua com Manne no totalmente latino Mambo Del Crow, peça de calor e humor elevados. Após o trombone, Manne mostra o quão melodiosos e afinados são seus tambores. Pura diversão!

 

Em The Pesky Serpent, de Jimmy Giuffre, volta o clima californiano, de melodia e arranjo sofisticado. Neste tema, o destaque é o grupo como um todo, perfeitamente tight, mas sem perder a espontaneidade. Os solos são do compositor, Milt Bernhart, Shorty, Hampton Hawes e Pepper.

 

Diablo’s Dance, tem uma introdução altamente percussiva do piano de Hawes, com o ensemble em perfeito uníssono.

 

Pirouette foi composta por Rogres para uma trilha sonora de filme, uma das principais atividades do líder. Art Pepper tem breve solo, seguido por Giuffre, Bernhart e Hawes. O ensemble fecha o tema num gracioso trabalho contrapontístico.

 

Indian Club, é de autoria de Jimmy Giuffre, uma feliz mescla de figuras melódicas indígenas e do swing. O grupo mostra toda sua força e energia, com o trompete do líder assumindo papel de destaque no ensemble, até Shelly Manne encerrar batendo tambor numa autêntica dança da chuva.

 

Shorty Rogers faleceu em 94, aos 70 anos, mas os Giants de Shorty Rogers foi um dos grupos de maior destaque na cena da costa oeste, sua música repercutiu até no lado de baixo do equador, onde ajudou a fazer a cabeça de uma turma que produziria, anos depois, uma certa Bossa Nova. Você já ouviu falar dela?
Shorty Rogers (tp, arr, cond) Milt Bernhart (tb) John Graas (frh) Gene Englund (tu) Art Pepper (as) Jimmy Giuffre (ts) Hampton Hawes (p) Joe Mondragon (b) Shelly Manne (d)
Los Angeles, CA, January 12, 1953
Los Angeles, CA, January 15, 1953*

 

1- Morpo (S. Rogers)*
2- Bunny (S. Rogers)
3- Powder Puff (S. Manne)
4- Mambo Del Crow (S. Rogers)*
5- The Pesky Serpent (J. Giuffre)
6- Diablo’s Dance (S. Rogers)*
7- Pirouette (S. Rogers)
8- Indian Club (J. Giuffre)*

 

 

HotBeatJazz 10′ Series – Sonny Rollins Quintet – 10’LP PRLP 186 (1954)

Théodore Walter – mais conhecido como Sonny – Rollins, nasceu em New York, em 1929. Quando adolescente, se reunia com seus amigos de vizinhança para tocar jazz, era uma turma de peso: Kenny Drew, Jackie McLean, Art Taylor, e o irmão caçula do gênio do piano bop Bud Powell, Richie Powell. Era uma rapaziada tão endiabrada que aos 19 anos Sonny já estava apto a tocar com grandes nomes do jazz como Bud Powell, Fats Navarro e J. J. Johnson. Foi contratado em 1950 por Bob Weinstock para fazer parte do catálogo da gravadora Prestige, onde produziria boa parte de sua obra, definitiva e fortemente influenciadora na formação dos saxofonistas modernos.

 

O LP em foco, foi gravado em agosto de 1954, com Rollins liderando um quinteto que trazia na linha de frente, a seu lado, o exímio trompetista Kenny Dorham. Dorham foi um músico bastante negligenciado, seu toque se equipara aos grandes estilistas do instrumento, é dono de um fraseado meticulosamente elaborado, emissão e timbre perfeitamente trabalhados, e um dos maiores quando o assunto é tocar bebop. A seção rítmica traz outro “underrated”, o pianista Elmo Hope, outro Nova Iorquino, forjado nos anos de ouro do bebop. Hope não conseguiu ter uma carreira regular, gravou pouco e faleceu prematuramente, em 1967, vítima de pneumonia. O contrabaixo foi executado pelo seguro e competente Percy Heath, e na bateria, atuando sob seu nome de adoção no islamismo por questões contratuais, Abudullah Buhaina, mais conhecido como Art Blakey.

 

Movin’ Out abre o disco, um bebop de tirar o fôlego, onde Rollins mostra a profunda influência de Charlie Parker em sua maneira de tocar. Kenny Dorham tem uma participação luminar, com um solo primoroso em arquitetura melódica. Elmo mostra economia nos acompanhamentos da mão esquerda, enquanto com a direita produz um fraseado percurssivo de intenso swing.

 

Swinging For Bumsy é outro bebop onde Rollins e Dorham pairam absolutos. O solo de Kenny é um dos pontos altos da sessão, um fraseado completo, com stacattos e legattos intercalados, mostrando o absoluto domínio da técnica. Mais uma vez Elmo Hope executa uma mão esquerda que chega a sugerir o antigo estilo stride.

 

Silk ‘N’ Satin é a balada da sessão, Rollins paga seu tributo a Dexter Gordon, um dos maiores baladistas do tenor moderno e grande influência na maneira de Rollins tocar.

 

Solid, é uma das mais instigantes composições de Sonny Rollins, na essência um bebop, porém já apontando na direção do hardbop. A bateria de Blakey faz acentuações primorosas, cruzando um terreno onde ele é mestre absoluto.

 

Esta gravação do quinteto de Sonny Rollins foi uma das responsáveis por vários músicos, principalmente os saxofonistas, torcerem o pescoço na direção de um som nôvo, vigoroso, que começava a ecoar e que viria a influenciar várias gerações de músicos.

* Uma excelente biografia de Elmo Hope pode ser encontrada no Jazz + Bossa +Baratos Outros

Kenny Dorham (tp) Sonny Rollins (ts) Elmo Hope (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, August 18, 1954

 

1- Movin’ Out (take 606)
2- Swinging For Bumsy (take 607)
3- Silk ‘N’ Satin (take 608)
4- Solid (take 609)