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HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – 10’LP Dial 201

14 ago

O mundo do jazz celebra neste mês de agôsto de 2010 os noventa anos de nascimento do mais influente músico desta forma de arte, Charlie “Bird” Parker. Em 29 de agôsto de 1920, nascia em Kansas City, em uma modestíssima família, um homem que iria transformar a mais importante forma de arte norte-americana. O pequeno Charlie cresceu andando descalço, pisando as ruas empoeiradas de um subúrbio pobre de Kansas City, com seu único brinquedo, um flautim, presente de sua mãe ao tímido e desengonçado menino que iria mais tarde ser apelidado de “Bird”. E assim “Bird” passava seus dias, de forma autodidata aprendendo os fundamentos de sua pequena flauta.

 

Kansas City era um local em que o blues estava por toda parte, e já nos anos 30 era reconhecida como um celeiro de grandes saxofonistas, que se degladiavam nas noites de fins de semana em antológicas batalhas de saxofone. Também era onde algumas das mais importantes orquestras do swing tinham sua base, notadamente a de Bennie Motten, e pouco depois, a de Count Basie. O adolescente Charlie acalentava o sonho de tocar com a banda de Baise, ao lado do seu grande ídolo do saxofone tenor, Lester Young. Quando Basie e Young começaram uma duradoura e fantástica associação, Parker tinha 16 anos de idade e já tocava em algumas bandas locais ao lado de Harlan Leonard e Lawrencw Keyes. Gostava de ouvir a pianista Mary Lou Williamson e sua admitida primeira influência no sax alto, Buster Smith. Ele tocou sax barítono antes de mudar para o alto e aos 19 anos sentia-se seguro o suficiente para tentar a vida por conta própria na capital mundial do jazz, New York. A vida não foi fácil para o jovem músico que já naquela época soava de modo bastante estranho dos demais. Parker arranjou um emprego de lavador de pratos em um clube do Harlen pela única possibilidade de ouvir o pianista da casa, o grande Art Tatum. Alguns meses depois estava de volta a Kansas City onde foi contratado pelo pianista e band leader Jay McShann e com ele voltaria a NYC. Grava, pela primeira vez em estúdio, em 9 de agôsto de 1940, as faixas Jumping At The Woodside e I Got Rhythm, como integrante da banda, na verdade um noneto com forte enfoque no blues. Em 30 de abril de 1941, em Dallas, no Texas, gravaria mais três músicas: Swingmatism, Hootie Blues e Dexter Blues. Em 2 de julho de 1942, em NYC, faz sua última sessão de gravação com a orquestra de McShann, quatro faixas: Lonely Boy Blues, Get Me On Your Mind, The Jumpin’ Blues e Sepian Bounce.

 

É então contratado pelo pianista Earl Hines para ocupar uma cadeira no naipe de saxofones de sua fantástica orquestra, que contava também com o trompetista Dizzy Gillespie, parceiro de “Bird” nas jams sessions que aconteciam no clube Minton’s Playhouse. Foi lá que, juntamente com o pianista da casa, Thelonious Monk; o guitarrista da banda de Benny Goodman, Charlie Christian; Dizzy; e alguns veteranos como os saxofonistas tenor Don Byas e Coleman Hawkins; Parker se tornaria figura de proa no desenvolvimento de uma nova sintaxe no jazz, uma nova maneira de se explorar as melodias e, principalmente, as harmonias de antigas canções do repertório popular. Dedica-se de corpo e alma a pesquisar uma nova forma de abordagem do material até então utilizado como matéria-prima do jazz. Ele mesmo conta sua aventura: “Uma tarde, trabalhando em cima de Cherokee, percebi que, se utilizasse intervalos maiores e os modulasse convenientemente, poderia finalmente reproduzir o que escutava dentro de mim mesmo.” Estava iniciada a revolução. Todo um repertório da era do swing, já desgastado e batido, iria mudar. Os solistas passariam a ter um número maior de possibilidades para improvisar. A harmonia estava ampliada. O jazz nunca mais seria o mesmo.

 

Ao mesmo tempo ele havia se tornado um virtuose, sua técnica era impressionante, e logo seria uma referência entre os músicos, Parker era agora o músico dos músicos. Faz curtas passagens pelas orquestras de Noble Sissle, Cootie Williams, Andy Kirk e na grande orquestra bebop do cantor e trombonista Billy Eckstine. Começa a gravar para o pequeno sêlo Savoy, primeiramente como sideman, no quinteto do guitarrista Tiny Grimes; ao lado de Gillespie e Don Byas no grupo do pianista Clyde Hart; e, em fevereiro de 1945, grava três faixas no sexteto de Gillespie, consideradas as primeiras gravações de bebop em pequeno combo. São na verdade aproximações do que seria o verdadeiro bebop, pois as seções rítmicas ainda eram formadas por músicos mais ligados às tradições do swing. São desta data: Groovin’ High, All The Things You Are e Dizzy Atmosphere. Em 11 de maio, ainda com Gillespie: Salt Peanuts, Shaw ‘Nuff, Hot House, e acompanha a novata cantora Sarah Vaughan em Lover Man. Em 6 de junho grava, com Dizzy, no sexteto do vibrafonista Red Norvo quatro faixas para o sêlo Dial. Em 4 de setembro grava com pianista Sir Charles Thompson, ao lado do jovem tenorista da Califórnia Dexter Gordon e músicos veteranos do swing como o trompetista Buck Clayton. Em 26 de novembro grava a primeira sessão em seu nome para a Savoy, ao seu lado estão: Miles Davis, o pianista Sadik Hakim, Dizzy Gillespie atuando no piano e trompete, o contrabaixista Curly Russell e o baterista Max Roach. Esta é a verdadeira primeira gravação de Bird exclusivamente bebop, com temas de sua autoria, seguindo sua nova fórmula de compôr, construindo paráfrases em cima das harmonias de standards já largamente conhecidos, o que confere a elas sabor e melodias novas, deixando as músicas que originaram suas composições praticamente irreconhecíveis. São desta data: Warming Up A Riff, os blues Billie’s Bounce e Now’s The Time, Thriving On A Riff, Meandering, e sua criação em cima da antiga e fundamental Cherokee, Ko-Ko.

 

No final de 45, ele e Dizzy são contratados para uma temporada na Califórnia, que revelaria-se catastrófica. Parker está, cada vez mais, entregue as bebidas e as drogas pesadas, a adição à heroína era um fato com que ele já lidava desde seus 15 anos de idade. Seu comportamento revela-se errático, nunca se sabe se ele irá ou não comparecer para tocar. O responsável Dizzy contorna o problema chamando às pressas de NYC o vibrafonista Milt Jackson, ele poderá reforçar a linha de frente do grupo na ausência de Parker e, quando da presença deste, tornar a seção rítmica mais poderosa.

 

Chegamos então às sessões de gravação reunidas neste primeiro 10 polegadas da gravadora Dial, duas datas realizadas na Califórnia, nos dias 28 de março e 29 de julho de 1946. Na primeira data ele lidera um hepteto formado por: Miles Davis no trompete, Lucky Thompson no sax tenor, Dodo Marmarosa no piano, Arvin Garrison na guitarra, Vic McMillan no contrabaixo e Roy Porter na bateria. Gravam A Night In Tunisia, de Dizzy Gillespie; Yardbird Suite, paráfrase de Parker sobre a harmonia de uma antiga canção popular chamada What Price Love; Moose The Mooche, construída sobre I Got Rhythm de George Gershwin; e Ornithology, paráfrase de How High The Moon.

 

A sessão de 29 de julho foi dramática, Parker está muito doente e debilitado pelo abuso de álcool e heroína. O baterista Roy Porter, conta que após o primeiro take, quando gravou Max Making Wax, de Oscar Pettiford, Bird precisou ser amparado para manter-se de pé e conseguir gravar os três temas restantes. O que vemos a seguir é uma versão perturbada e languriante da balada Lover Man, um angustiante discurso musical, um verdadeiro pedido de socorro de um ser-humano perdido. O mesmo acontece na outra balada, The Gypsy. Parker mesmo em seus momentos vacilantes não deixa de produzir uma música soberba, plena de emoção e de verdade. Ainda reúne suas últimas energias para gravar Bebop, de Dizzy Gillespie. Necessário destacar a belíssima participação do trompetista Howard McGhee em toda a turbulenta seção.

 

Após a gravação Parker foi para o hotel, colocou fôgo no quarto e saiu gritando nú pelo saguão. Foi internado na clínica de recuperação de dependentes em Camarillo. Depois….é assunto para a próxima postagem.
Miles Davis (tp) Charlie Parker (as) Lucky Thompson (ts) Dodo Marmarosa (p) Arvin Garrison (g) Vic McMillan (b) Roy Porter (d)
Radio Recorders, Hollywood, CA, March 28, 1946

 

Howard McGhee (tp) Charlie Parker (as) Jimmy Bunn (p) Bob Kesterson (b) Roy Porter (d)
C.P. MacGregor Studios, Hollywood, CA, July 29, 1946*

 

1- Night In Tunisia
2- Yardbird Suite
3- Moose The Mooche
4- Ornithology
5- Loverman*
6- The Gypsy*
7- Bebop*
8- Max (is) Making Wax*

 

http://ouo.io/2c5Woj

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10 Respostas para “HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – 10’LP Dial 201

  1. HotBeatJazz

    14 de agosto de 2010 at 10:31 PM

     
  2. Érico Cordeiro

    15 de agosto de 2010 at 2:38 PM

    O jazz deve muito a Jay McShann, não é mesmo Mr. Mauro?Quantos grandes nomes saíram de suas hostes? Ele é um mestre do blues e do som de Kansas City, sem dúvida alguma!Quanto a Bird… Bird Lives!!!!

     
  3. APÓSTOLO

    15 de agosto de 2010 at 3:19 PM

    Prezado MAURO:Concisa resenha sobre o mestre das paráfrases, também do domínio da harmonia e das intercalações de notas em intervalos de acordes.Sómente a título de "reforço" no que você tão bem assinala, no dia 08 de agosto de 1940 PARKER deixou gravados 03 temas (selos ""STACH"/CD 542 e "Masters Of Jazz" 78):01 – Sign Off Theme ("One O'Clock Jump" com 2'18");02 – Jumping At Woodside com 3'15";03 – Walkin' and Swingin' ("I Got Rhythm" com 3'36").Todavia o 1º registro gravado de PARKER data do 1º semestre de 1940, 20 anos incompletos(CD Philology, série "Bird Eyes", volume 1/4 e também no CD 01 da série SAGA/francesa "Charlie Parker Rétrospective 1940/1947"), com breve introdução do tema de "Fats" Waller "Honeysuckle Rose" (34" para os 15 primeiros compassos), seguido do clássico de Green/Sour/Herman "Body And Soul (3'11").Nas gravações com o noneto de McShann ainda estava no clima do blues de Kansas, muito longe do "bebop", mas a sonoridade que ouvimos é a de PARKER.A história de PARKER é uma síntese do sublime (felizmente nos deixou farta documentação de sua obra musical) e do trágico (infelizmente nos roubou esse gênio tão cedo).

     
  4. HotBeatJazz

    15 de agosto de 2010 at 4:26 PM

    Èrico e Apóstolo,Os mestres do blues de Kansas City, McShann e Basie, nos deram os dois mais fundamentais revolucionários do jazz: Parker e Pres. Bastasse isso para q suas contribuições fossem eternas, mas nos deram muito mais. Felizmente.Apóstolo, vc tem toda razão com relação a sessão de 11 de maio de 1940. Eu a possuo na série "Bird's Eyes Vol 1" (Philology), porém tive a impressão de serem gravações amadoras, em virtude da péssima qualidade da matriz que possuo e de não ter encontrado referência na discografia acerca do estúdio. Porém como vc é doutor "honoris causea" em Bird, acolho como contribuição valiosíssima à correta informação do post. E por favor, corrija de pronto qualquer engano ou omissão de minha parte nos post subsequentes. Não é qualquer blog que pode contar com sua, sempre segura, contribuição.Muita saúde e abraços a vcs, meus amigos.

     
  5. APÓSTOLO

    15 de agosto de 2010 at 7:00 PM

    Prezadíssimo MAURO:Quanto a BIRD, nada de correções, apenas "ajustes" e "adendos", já que ao longo dos anos novos tesouros estão surgindo.É mais magia, mais encantamento, mais MÚSICA, que nos toca e nos faz pensar, sempre, em J.S.Bach.Agora mesmo, em 2005, foi resgatada a apresentação de PARKER/GILLESPIE/DON BYAS/AL HAIG/CURLEY RUSSELL/MAX ROACH e "Big" SIDNEY CATLETT no "TOWN HALL" (New York) em 22/junho/1945. Devidamente recuperada a gravação do concerto foi lançada pela "UPTOWN em 40'46" de puro arrebatamento (Symphony Sid Torin foi o MC).O que mais ainda será devidamente "desenterrado", quando existe um "A Lost And Found Archeological Sound" ? ? ?De minha parte espero que muito…Por favor MAURO, envie-me seu "email" para "apostolojazz@uol.com.br" e, no retorno, enviarei "um pouco mais" sobre as gravações de PARKER: como sempre diz Mestre LULA, JAZZ foi feito para ser divulgado, não para colecionadores esquizofrênicos, egoistas.

     
  6. HotBeatJazz

    15 de agosto de 2010 at 8:03 PM

    Mestre Apóstolo,suas palavras vem sempre recheadas de carinho e ensinamentos. Ficarei imensamento grato e mais rico com tuas contribuições. A gravação do Town Hall citada já faz parte do acervo, é uma oportunidade única de se ouvir o grupo q Bird e Diz organizaram e que se apresentavam no Trhee Deuces, da Rua 52. Registros fundamentais para quem deseja ouvir a história do jazz. Uma delícia ler vc terminar teu comentário citando nosso mestre maior Lula. Ele é na verdade o "culpado" pelo amor que passei a nutrir por esta arte maior, e foi o exemplo dele que me impulsionou a desejar compartilhar e divulgar o jazz. "O Assunto é Jazz" foi uma verdadeira epifania em minha vida. Ainda me lembro do primeiro programa de Lula que ouvi, ele tocava uma sessão de Herbie Hancock de 1962, Blue Note, com o gigante do sax tenor Dexter Gordon no combo. Depois daquilo tudo mudou em minha vida. NOsso amigo tem e terá, sempre, um lugar especial em meu coração.Meu email para contato é o hotbeatjazz@gmail.com e tuas informações, tenho certeza, serão fundamentais nos próximos posts.Não tenho palavras para lhe agradecer na exata dimensão de meu apreço.Muito obrigado!

     
  7. APÓSTOLO

    15 de agosto de 2010 at 9:50 PM

    Prezado MAURO:Foi ! ! !

     
  8. Salsa

    23 de agosto de 2010 at 11:46 AM

    Belo post, mr.beat,Parker é sempre demolidor. Às vezes, quando pego meu alto, sinto-me um herege por ousar tocar o instrumento que Parker mostrou seu caráter divino.

     
  9. John Lester

    26 de agosto de 2010 at 5:01 AM

    God job!

     
  10. HotBeatJazz

    27 de agosto de 2010 at 10:57 PM

    Amigos Salsa e Lester,Salsa heresia se vc fizesse naipe pra pagodeiro ou sertanejo, acredite vc dignifica parker assim como todos os instrumentistas que se dedicam a tocar Jazz.Lester, mto obrigado pela visita, volte sempre!Abraços

     

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