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HotBeatJazz 10′ Series – Zoot Sims – Swingin’ with Zoot Sims PRLP 117 (1951)

John Haley “Zoot” Sims nasceu em Inglewood, Califórnia, em 29 de outubro de 1929, em uma família de artistas do teatro vaudeville. Ainda criança aprendeu a tocar bateria e clarinete com o apoio dos pais. Na adolescência seria profundamente influenciado por Lester Young, do qual extraiu a forma de tocar o saxofone de uma maneira mais relaxada e lírica, o timbre macio e aveludado, e o discurso musical caracterizado por longas e interligadas frases. Durante a década de 40 a influência do bebop e, principalmente, de Charlie Parker vieram a se incorporar em sua música. Seria longo e enfadonho enumerar todos os artistas com os quais tocou ao longo de sua carreira, foi um dos mais atuantes saxofonistas do jazz, com uma extensa e brilhante discografia. Despertou a atenção dos críticos e ouvintes quando se incorporou a orquestra de Woody Herman, vindo a integrar o mais famoso naipe de saxofones da história do jazz, os “Four Brothers”, ao lado de Stan Getz, Herbbie Stewart e Serge Chaloff.

 

Nos anos 50, Sims teve uma profícua associação com o saxofonista Al Cohn em um quinteto co-liderado por ambos. Gerry Mulligan também foi um parceiro habitual, tendo Zoot atuado em várias formações encabeçadas pelo baritonista. Zoot foi um típico integrante da geração beat e sua apreciação pelas bebidas, drogas e vida boêmia, um fardo que carregou por boa parte de sua vida e lhe deixaria com uma saúde precária que lhe extinguiria a vida aos 59 anos de idade, em 23 de março de 1985.

 

Em 14 de agôsto de 1951, Zoot entrava em estúdio para gravar para a Prestige, em um sessão que entraria para a história do jazz como a primeira em que um músico improvisaria longamente despreocupado com o tempo de duração da faixa, fato possível com o surgimento do formato LP, fruto do desenvolvimento da tecnologia do microsulco pela RCA. Zoot liderava um quarteto formado por Harry Biss ao piano, Clyde Lombardi ao contrabaixo e Art Blakey na bateria.

 

Após Zoot gravar dois temas, um deles lançado no LP, East of the Sun, ele foi instado a gravar uma livre improvisação sobre um blues que estava tocando como forma de relaxar. Os doze primeiros compassos foram cronometrados, então, o engenheiro de áudio lhe informou de que teria espaço para improvisar por 12 choruses. O resultado seria “Zoot Swings The Blues”, um blues de 12 compassos em tonalidade maior excecutado com um andamento rápido e impregnado de swing por Blakey e Sims. Em East of the Sun, Zoot esbanja sua categoria em um longo improviso repleto de beleza melódica e com a sonoridade que fez de Zoot Sims um dos mais belos sons de sax tenor do jazz. Foram testemunhas deste momento histórico Gerry Mulligan, o pianista George Wallington e o contrabaixista Red Mitchell, que estavam, naquele 14 de agôsto, no estúdio Apex em Nova Iorque, juntamente com mais alguns convidados, entre eles o crítico e escritor especializado em jazz Ira Gitler, responsável pelas notas de contracapa, onde conta a história do jazz sendo feita a olhos vistos.

 

PS: como bônus, a versão curta de Swingin’ The Blues, gravada para ser lançada em 78 r.p.m.

 

 

Zoot Sims (ts) Harry Biss (p) Clyde Lombardi (b) Art Blakey (d)
NYC, August 14, 1951

 

1- East Of The Sun (West Of The Moon)
2- Zoot Swings The Blues
3- Swingin’ The Blues

http://ouo.io/baRrN5

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HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis – The New Sounds 10’LP PRLP 124 (1951)

Após os anos com Charlie Parker, as experiências com o nometo do Birth of the Cool, a depressão e busca em se livrar da heroína, 1951 via um Miles Davis recomeçando sua vida. Musicalmente estava mais solto, sem a timidez dos tempos de bebop com Bird e menos formalizado como com o noneto. Miles estava trabalhando em clubes com um sexteto formado por jovens do Harlen como: Sonny Rollins, o saxofonista alto Jackie McLean e o pianista Walter Bishop Jr. – Tommy Potter no contrabaixo e Art Blakey na bateria, proviam o sexteto de segurança e groove impecáveis. Foi agendada uma sessão para a Prestige, que aconteceu em 5 de outubro de 1951, em NYC, nos estúdios Apex.

 

Em Conception, tema composto por Miles, ele mostra o músico visionário de sempre. O tema, de harmonia sinuosa, já preconizava o período do modalismo do final da década.

 

My Old Flame é apresentada em quinteto, com Miles mostrando o habitual lirismo nas baladas, Sonny Rollins contribui com uma improvização que deixa clara a influência que ele sofria na época de Lester Young.

 

Dig, é um típico bebop, com Rollins construindo a ponte que liga Lester Young a Dexter Gordon em seu solo. Miles evita o discurso rápido, priorizando a beleza melódica de toda sua improvização. Blakey é uma usina de beats que impulsiona um jovem McLean aterrorizado pelo mau humor do líder. Se sai muito bem para um garoto posto à prova com leões.

 

It’s Only A Paper Moon encerra o álbum com Miles e Rollins produzindo impros inspiradas. Miles suingante e de fraseado de extrema beleza melódica. Rollins, em seu estilo inicial, mostra o quanto bebeu das velhas fontes do instrumento no jazz. Lester, Ben Webster, Chu Berry, Hawkins.

 

Os novos sons de Miles Davis em 1951 tornaram-se clássicos imortais na história do desenvolvimento do jazz.
Miles Davis (tp) Jackie McLean (as) Sonny Rollins (ts) Walter Bishop Jr. (p) Tommy Potter (b) Art Blakey (d)
Apex Studios, NYC, October 5, 1951

 

1- Conception
2- My old flame
3- Dig
4- It’s Only A Paper
 

HotBeatJazz 10′ Series – Lou Donaldson Quartet / Quintet – New Faces New Sounds 10’LP BLP 5021 (1952)

O saxofonista Lou Donaldson faz parte da imensa quantidade de músicos de jazz que aperfeiçoaram seus talentos durante o período da II Grande Guerra Mundial. Servindo na Marinha, Lou pôde desenvolver-se no saxofone alto enquanto integrande de uma das inúmeras banda da corporação. Nascido na Carolina do Norte em 1926, filho de um pastor e de uma professora de música, Lou iniciou na clarineta tomando lições com a própria mãe. Em 1944 entra para o serviço militar e lá passa a ganhar experiência em tocar com orquestra. Foi por esta época que ele sofreu a profunda influência de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, aprendendo rápidamente a sintaxe bop, e chegando inclusive a tocar com a banda de Gillespie quando esta se apresentou em Greensboro. Encorajado pelo próprio Gillespie, Lou foi pra NYC em 1950 e cumpriu o vestibular de todo aspirante a partícipe da cena jazzística, tocou em vários clubes em incontáveis jams: Minton’s, Birdland, Le Downbeat e The Paradise. Nesses locais pôde tocar com grandes nomes da cena como: Charlie Parker, Bud Powell, Sonny Stitt, entre outros.

 

Em 1952, Lou já contava com um contrato com a Blue Note, gravadora onde gravaria dezenas de álbuns durante toda sua longeva carreira. Fazendo parte da série New Faces New Sounds, Lou gravou duas sessões com meses de intervalo a frente de um quarteto na primeira e de um quinteto na segunda data. O quarteto contava com a participação de um amigo feito nos estúdios de gravação, o pianista Horace Silver; o contrabaixista Gene Ramey e o baterista Art Taylor. Para esta data foram escolhidos dois originais: um de Silver, Roccus; e um blues de Lou, Lou’s Blues; ao lado de dois standards: Cheek To Cheek e The Things We Did Last Summer.

 

Na segunda sessão, a do quinteto, ao lado de Lou e Silver estão: o jovem talento do trompete Blue Mitchell, e a mais requisitada cozinha de NYC, Percy Heath e Art Blakey. No repertório: Sweet Juice, de Horace Silver; o blues Down Home; os standards The Best Things In Life Are Free e If I Love Again.

 

Esta sessão do saxofonista Lou Donaldson, mostra grandes momentos de puro bebop e é uma oportunidade de perceber os primeiros momentos do estilo que dominaria a segunda metade da década de 50, o hardbop.
Lou Donaldson (as) Horace Silver (p) Gene Ramey (b) Art Taylor (d)
WOR Studios, NYC, June 20, 1952

 

Blue Mitchell (tp -6/8) Lou Donaldson (as) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
WOR Studios, NYC, November 19, 1952*

 

1- Roccus
2- Lou’s Blues
3- Cheek To Cheek
4- The Things We Did Last Summer
5- Sweet Juice*
6- Down Home*
7- The Best Things In Life Are Free*
8- If I Love*

 

 

HotBeatJazz 10′ Series – Sonny Rollins Quartet – 10’LP PRLP 137 (1951)

Mais uma vez nos voltamos à música de Walter Theodore “Sonny” Rollins, desta feita em sessão gravada para a Prestige em 1951. Sonny começou a tocar saxofone alto aos 11 anos de idade, em 1941, em 1946 mudou para o sax tenor, intrumento do qual viria a se tornar um dos maiores estilistas que o jazz já conheceu. Cresceu no Harlem, em NYC, ao lado de outros grande músicos que viriam a se destacar na década de 50, como o pianista destas faixas, Kenny Drew. Aos 14 anos, Rollins foi profundamente impactado pela música de Charlie Parker que passaria a exercer uma grande influência em seu estilo, assim como músicos mais antigos como Lester Young e Coleman Hawkins. Inciou sua carreira discográfica em 49, na orquestra do cantor Babs Gonzales, no mesmo ano ainda particparia de sessões no combo do trombonista J. J. Johnson e do pianista Bud Powell, um grande incentivador de Rollins. Em 1950, Rollins não participa de nehuma gravação, virginianamente perfeccionista, dedica-se ao estudo e prática em retiro, atitude que voltaria e tomar em 1961, quando seu hábito diário de ir praticar em solitário com seu sax na ponte Williamsburg aos fins de tarde, se converteria rápidamente em uma das mais românticas lendas do jazz.

 

Em 17 de janeiro de 1951, Miles Davis, um de seus mais ferrenhos admiradores de primeiro momento, o convida para participar de uma sessão integrando um sexteto. É desta data a gravação de I Know, em uma tomada em quarteto com Miles Davis tocando o piano, e Percy Heath e Roy Haynes completando a seção rítmica.

 

Onze meses depois, em 17 de dezembro, também em quarteto, Rollins gravaria as sete faixas restantes deste 10 polegadas. Quatro standards, baladas em sua maioria, e três temas originais: Shadrak, Scoops e Newk’s Fadeaway. Estava acompanhado pelo amigo de infância Kenny Drew ao piano, novamente Percy Heath ao contrabaixo e Art Blakey na bateria. Time On My Hands tem a mais bela e contundente interpretação em sax tenor que tenho conhecimento. This Love Of Mine é puro lirismo, num amálgama de Lester Young e certos ornamentos à la Parker. Shadrack é um tema bop por excelência com precioso trabalho de Rollins e Drew, pontuados ao estilo peculiar de Blakey. On A Slow Boat To China é apresentado em andamento rápido, com Rollins mostrando fluência e arquitetura de fraseado original antes do solo de Drew e das breves trocas com o piano antes do encerramento. Scoops é um blues com melodia típicamente bebop, Drew mostra brevemente o quanto absorveu de Bud Powell, antes das trocas de fours entre Rollins e Blakey.

 

Todas estas faixas foram lançadas ainda na fase do 78 rpm, estando portando dentro do esquema de duração não maior do que três minutos e meio. Nelas pode-se perceber o quão difícil era para um jazzista desenvolver seu improviso em tão poucos choruses, sendo o poder de síntese o que separava os homens dos garotos. Rollins foi um dos grandes homens do período, sendo ainda um garoto. Hoje, às vésperas de completar 80 anos, em 7 de setembro próximo, está ativo e se apresentando pelo mundo, mostrando uma música vigorosa e atual, que sómente pode ser produzida por um veterano, mas em espírito de garoto.
Sonny Rollins (ts) Kenny Drew (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
Apex Studios, NYC, December 17, 1951

 

*Sonny Rollins (ts) Miles Davis (p) Percy Heath (b) Roy Haynes (d)
Apex Studios, NYC, January 17, 1951
1- Time on My Hands
2- This Love of Mine
3- Shadrack
4- On a Slow Boat to China
5- Scoops
6- With a Song in My Heart
7- Newk’s Fadeaway
8- I Know*

 

 

HotBeatJazz 10′ Series – Modern Jazz Trombones Vol 2 – 10’LP PRLP 123 (1951)

Modern Jazz Trombones foi uma série lançada pela Prestige com o intuito de formatar em 10 polegadas antigos lançamentos em 78 rpm dos principais trombonistas de seu cast. No volume 1 foram comtemplados os grupos All-Stars de Kai Winding e de J. J. Johnson. Neste segundo volume, J. J. Johnson aparece co-liderando um quinteto ao lado do saxofonista Sonny Stitt em gravações efetuadas em outubro de 1949. No lado A, o trombonista Bennie Green é a voz principal de um hepteto gravado em outubro de 1951.

 

Bennie Green é um nome mais ligado ao swing do que própriamente ao bebop, apesar ser da mesma geração de Sonny Stitt, Charlie Parker, e outros nomes do estilo. Não obstante, seu estilo incorporou alguns maneirismos do bebop e muitos do R&B. Foi um valioso membro da big band berçário dos maiores nomes do bebop, a de Earl Hines, juntamente com Parker, Stitt, Dexter Gordon e outros. Em 1951, Green voltava a trabalhar com Hines, desta feita em um combo de dimensões reduzidas, após um pequeno hiato de 3 anos. Concomitante ao fato, começava a destacar-se como um líder de pequenos combos, como este formado pelos saxofonistas tenores Eddie “Lockjaw” Davis e Big Nick Nicholas, pelo sax barítono de Rudy Williams, pelo piano de Teddy Brannon, o contrabaixo de Tommy Potter e a pulsante bateria do mestre Art Blakey.

 

Green Juction, é tema repleto de características do swing, head arrangments à la Basie, com o naipe de saxes repetindo riffs como base do solo altamente melódico de Green. O tema é apresentado e encerrado em um bem temperado uníssomo das palhetas e trombone.

 

Flowing River, é uma balada melódica e ralentada. O trabalho de Green e Lockjaw são luminares, com o restante do combo provendo a ambos de um delicioso suporte harmônico. Destaque para o trabalho do pianista Teddy Brannon, um esquecido veterano do Minton’s Playhouse.

 

Whirl-A-Licks, é Bennie Green mostrando que não foge da raia quando o assunto é bebop em up-tempo. Uma alucinante troca de compassos com Lockjaw e um suporte vigoroso de Blakey mantém a pulsação. Lockjaw mostra seu estilo áspero e viril, que fez escola nos anos 40 e 50.

 

Bennie’s Pennie’s, é a paráfrase de Green para o standard Pennies From Heaven. O trombonista apresenta seu belo timbre de sempre antes de uma pequena intervenção de Brannon em um estilo calcado em Teddy Wilson.

 

Chegamos agora às gravações do quinteto J.J. Jonhson – Sonny Stitt com Afternoom in Paris. O tema é apresentado em delicioso contraponto entre os líderes com o piano de John Lewis estabelecendo a melodia. Stitt é o primeiro a solar no sax tenor, com seu estilo peculiar, tantas vezes confundido com Charlie Parker no fraseado. J.J. o segue, antes da contribuição de John Lewis com sua técnica refinada e econômica ao piano.

 

Elora, é um original de Johnson que apresenta solo primoroso de Stitt, sintaxe perfeita e imenso domínio do vocabuláro bop. Max Roach aparece em troca de fours e eights com os líderes antes do encerramento.

 

Blue Mode se autodefine. É apresentado em um andamento médio, com solos inspirados dos líderes, em especial Sonny Stitt. O contrabaixista Nelson Boyd provém um seguro walkin’ ao combo.

 

Teapot, outro original de Johnson, encerra o álbum em up-tempo. Sonny Stitt é um verdadeiro gênio do sax tenor, com fraseado de articulação perfeita. As trocas de fours entre os líderes são nitroglicerina pura.

 

Modern Jazz Trombones são gravações históricas e fundamentais para o entendimento da linguagem deste instrumento no jazz moderno e contemporâneo.
Bennie Green (tb) Eddie “Lockjaw” Davis, Big Nick Nicholas (ts) Rudy Williams (bars) Teddy Brannon (p) Tommy Potter (b) Art Blakey (d)
NYC, October 5, 1951

 

1- Green Junction
2- Flowing River
3- Whirl-A-Licks
4- Bennie’s Pennie’s (Pennies From Heaven)

 

J.J. Johnson (tb) Sonny Stitt (ts) John Lewis (p) Nelson Boyd (b) Max Roach (d)
NYC, October 17, 1949

 

5- Afternoon In Paris
6- Elora
7- Blue Mode
8- Teapot
 

HotBeatJazz 10′ Series – Thelonious Monk Quintet – 10’LP PRLP 180 (1954)

Não houve, na história do jazz, músico mais difícil de ser digerido e apreciado do que Thelonious Sphere Monk. Estando ele sempre a frente de seu tempo e alheio a estilos e modismos, Monk permaneceu por anos à fio como uma criatura à parte de tudo que lhe cercava. Sua música era única e refratária a qualquer rótulo que lhe quizessem aderir. O pianista Bill Evans certa vez disse sobre Monk o seguinte: “Monk é um exemplo extraordinário de talento criativo que não é corrompido por nada. Ele aceitou todos os desafios que alguém tem que aceitar se deseja criar música no idioma jazz”. Monk começou a ficar conhecido em 1939, quando foi contratado para ser o pianista do Minton’s Playhouse, casa de música de NYC e berço do emergente bebop, estilo que mudaria em definitivo os rumos da música moderna e contemporânea. Lá, ele seria um encorajador de vários jovens músicos, como o pianista Bud Powell, por exemplo. Em 1941, foi gravado pela primeira vez atuando ao lado do guitarrista Charlie Christian, em uma das incontáveis jam sessions que eram costumeiras de acontecer no Minton’s. Da mesma forma, Monk atuou com célebres visitantes da casa: Roy Eldridge, Don Byas, a cantora Helen Humes, entre outros. Somente em 1944 Monk entraria em um estúdio de gravação para uma sessão formal, acompanhando o saxofonista Coleman Hawkins, outro habitual visitante do Minton’s. Haveria de se passar mais três anos para que Monk entrasse em estúdio como líder, para gravar composições próprias, pela gravadora Blue Note, onde permaneceu como contratado até 1952, ano em que assina contrato com a Prestige, de Bob Weinstock. Neste contexto, Monk começa a gravar com maior frequência, e a consolidar uma característica que não abandonou até sua morte, a de rever sempre sua própria obra, regravando à exaustão suas composições. O repertório de Monk sempre consistiu de suas criações acrescidas de alguns poucos standards, que também regravava constantemente.

 

Em 11 de maio de 1954, Monk gravou a frente de um quinteto formado pelo excelente, tanto quanto esquecido, trompetista Ray Copeland; pelo ótimo saxofonista tenor Frank Foster, então peça chave na orquestra de Count Basie, ao lado de Frank Wess, Thad Jones, Charlie Fowlkes, e outros. Art Blakey com sua bateria inconfundível e única, e o onipresente contrabaixista Curly Russell, completavam a seção rítmica. Três composições de Monk e o standard Smoke Gets In Your Eyes formavam o repertório selecionado para a data.

 

Wee See, com seus intervalos incomuns e estimulantes, abre o álbum. Monk é o primeiro a solar, sempre com seu estilo marcadamente percussivo e acordes dissonantes na harmonia. Frank Foster mostra seu estilo vigoroso no sax tenor. Frank foi um músico muito influente em Detroit no início dos anos 50, o pianista Tommy Flanagan fala a esse respeito: “Frank foi uma grande influência nos jovens de Detroit. Escreveu muita música original. Nós o equiparávamos a Coltrane naquela época.”

 

Smoke Gets In Your Eyes, é inteiramente dissecada por Monk, com Ray e Frank se limitando a alguns voicings. O sentido de tempo e espaços na execução de Monk, são características tão próprias e originais, que faz seu toque ser reconhecível já nos primeiros acordes. O martelar renitente de acordes e notas em repetições, fazem parecer que Monk queria dizer aos ouvintes: “Hey, prestem atenção! Aqui está a solução da frase, busquem-na!”

 

Locomotive, é um blues fantástico, com intervalos típicos do bebop, tal qual “Now’s the Time” de Parker. Copeland produz um solo inteligente e articulado antes da intervenção de Foster, impregnada de fluidez e swing. Seu timbre, é cheio e macio, Frank é um grande exemplo dos tenoristas da década de 50, que souberam como ninguém, fazer um amálgama do fraseado de Lester Young e da timbragem robusta de Coleman Hawkins.

 

Hackensack é um clássico do repertório de Monk, uma melodia forte como de Straigh, No Chaser, e outras inúmeras peças do pianista. O entendimento entre Monk e Blakey é de uma sintonia absoluta. Frank sola com energia e stamina, entregando a Copeland o andamento já bastante aquecido por Blakey, que sola em seguida com estilo vigoroso e com uma afinação de tambores muito particular dele.

 

Esta sessão encontra-se entre as grandes que Thelonious Monk produziu para a Prestige, numa associação que durou até 1955, quando passou a gravar para a Riverside, mas isto, é assunto para outra postagem.
Ray Copeland (tp) Frank Foster (ts) Thelonious Monk (p) Curly Russell (b) Art Blakey (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, May 11, 1954

 

1- Wee See
2- Smoke Gets In Your Eyes
3- Locomotive
4- Hackensack
 

HotBeatJazz 10′ Series – Sonny Rollins Quintet – 10’LP PRLP 186 (1954)

Théodore Walter – mais conhecido como Sonny – Rollins, nasceu em New York, em 1929. Quando adolescente, se reunia com seus amigos de vizinhança para tocar jazz, era uma turma de peso: Kenny Drew, Jackie McLean, Art Taylor, e o irmão caçula do gênio do piano bop Bud Powell, Richie Powell. Era uma rapaziada tão endiabrada que aos 19 anos Sonny já estava apto a tocar com grandes nomes do jazz como Bud Powell, Fats Navarro e J. J. Johnson. Foi contratado em 1950 por Bob Weinstock para fazer parte do catálogo da gravadora Prestige, onde produziria boa parte de sua obra, definitiva e fortemente influenciadora na formação dos saxofonistas modernos.

 

O LP em foco, foi gravado em agosto de 1954, com Rollins liderando um quinteto que trazia na linha de frente, a seu lado, o exímio trompetista Kenny Dorham. Dorham foi um músico bastante negligenciado, seu toque se equipara aos grandes estilistas do instrumento, é dono de um fraseado meticulosamente elaborado, emissão e timbre perfeitamente trabalhados, e um dos maiores quando o assunto é tocar bebop. A seção rítmica traz outro “underrated”, o pianista Elmo Hope, outro Nova Iorquino, forjado nos anos de ouro do bebop. Hope não conseguiu ter uma carreira regular, gravou pouco e faleceu prematuramente, em 1967, vítima de pneumonia. O contrabaixo foi executado pelo seguro e competente Percy Heath, e na bateria, atuando sob seu nome de adoção no islamismo por questões contratuais, Abudullah Buhaina, mais conhecido como Art Blakey.

 

Movin’ Out abre o disco, um bebop de tirar o fôlego, onde Rollins mostra a profunda influência de Charlie Parker em sua maneira de tocar. Kenny Dorham tem uma participação luminar, com um solo primoroso em arquitetura melódica. Elmo mostra economia nos acompanhamentos da mão esquerda, enquanto com a direita produz um fraseado percurssivo de intenso swing.

 

Swinging For Bumsy é outro bebop onde Rollins e Dorham pairam absolutos. O solo de Kenny é um dos pontos altos da sessão, um fraseado completo, com stacattos e legattos intercalados, mostrando o absoluto domínio da técnica. Mais uma vez Elmo Hope executa uma mão esquerda que chega a sugerir o antigo estilo stride.

 

Silk ‘N’ Satin é a balada da sessão, Rollins paga seu tributo a Dexter Gordon, um dos maiores baladistas do tenor moderno e grande influência na maneira de Rollins tocar.

 

Solid, é uma das mais instigantes composições de Sonny Rollins, na essência um bebop, porém já apontando na direção do hardbop. A bateria de Blakey faz acentuações primorosas, cruzando um terreno onde ele é mestre absoluto.

 

Esta gravação do quinteto de Sonny Rollins foi uma das responsáveis por vários músicos, principalmente os saxofonistas, torcerem o pescoço na direção de um som nôvo, vigoroso, que começava a ecoar e que viria a influenciar várias gerações de músicos.

* Uma excelente biografia de Elmo Hope pode ser encontrada no Jazz + Bossa +Baratos Outros

Kenny Dorham (tp) Sonny Rollins (ts) Elmo Hope (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, August 18, 1954

 

1- Movin’ Out (take 606)
2- Swinging For Bumsy (take 607)
3- Silk ‘N’ Satin (take 608)
4- Solid (take 609)