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Andy Jaffe Sextet – Manhattan Projections (1984)

O pianista Andy Jaffe paralelamente a sua carreira de ativo “band-leader” é também um atuante profissional no meio acadêmico do ensino musical. Foi professor na Berklee College of Music, em Boston; lecionou no departamento de música da University of Massachusetts; é atualmente o diretor do Williams College Jazz Ensemble e leciona, como mestre, composição e arranjo com ênfase em jazz na Tufts University, onde também é diretor do Jazz Ensemble. Co-lidera uma big band de 20 integrantes, e integra duos com virtuoso do french-horn John Clark e com o pianista Tom McClung. Andy é possuidor de tamanho fôlego, que ainda encontra tempo e energia para se dedicar a ser corredor de maratonas, participando da maratona de Boston por 12 vezes.
Tanta vitalidade é percebida na música contida neste seu primeiro trabalho gravado em janeiro de 84. Sua música tem referências nos grandes da história do jazz, com ecos de Gil Evans, Horace Silver, Oliver Nelson, Bobby Timmons e Wayne Shorter. Andy cercou-se dos maiores talentos surgidos na década de 80, alguns deles ex-alunos: caso do saxofonista Branford Marsalis, do baterista Marvin “Smitty” Smith e do contrabaixista Lou Harless. Completam esta verdadeira seleção de Young Lions, o trompetista Wallace Roney, o saxofonista alto Ed Jackson e o falutista Tom Olin.
O álbum abre com um tour-de-force, a faixa título “Manhattan Projections”, um suingante tema em 32 compassos, veículo para a maioria dos solistas da banda apresentarem seus cartões de visita. Marsalis executa o primeiro solo ao tenor, passeando sobre a rápida mudança harmônica dos acordes do tema. Seu timbre no tenor é quente e cheio, sua escolha das notas produz um fraseado cheio de sentimento de alegria. Roney faz seu solo de forma brilhante e agressiva, em contraste com Marsalis, que soa mais relax. Jaffe, que modestamente se considera mais um compositor do que um instrumentista, faz seus dedos voarem, construindo longas e fluidas frases. Lou Harless tem sua vez antes das trocas de 4 compassos entre Marsalis, Smith, Roney e Jaffe.
“Samba de Saudade” tem um mood totalmente diferente da faixa de abertura. É puro latin-jazz, com Ed Jackson improvisando um furioso solo bopper, suportado por um intenso drumming de Smith. Roney mantém o fraseado na sintaxe bebop até a entrada de Marsalis no sax soprano. Suas frases, repetidas aqui e acolá, adicionam tensão a execução. Jaffe produz um solo recheado de sequências harmônicas de refinado gosto, enquanto o drumming de Smith é simplesmente avassalador.
“Dersu” é uma melancólica balada, bem ao estilo de Wayne Shorter. O trompete de Roney se sobressai no arranjo para tocar a melodia. Ed Jackson provém o primeiro solo, repleto de passionalidade. Marsalis inicia seu solo de modo pensativo, sendo impulsionado aos poucos pela energia do baterista Marvin Smith. Jaffe escolhe os acordes de modo a adicionar uma atmosfera emocional e introspectiva ao tema.
“So You Say” é um hardbop em 5/4, a princípio temos a sensação que vamos ouvir ao “Take Five” de Brubeck, mas a melodia está mais para Bobby Timmons. Marsalis mostra em solo o quanto deve a Wayne Shorter na formação de seu estilo. Utiliza de forma sempre inteligente figuras rítmicas repetidas na construção de seu fraseado. Roney sola com estilo que paga tributo aos maiores do hardbop como: Clifford Brown, Lee Morgan e Donald Byrd. Marvin Smith é um mestre nos drummings intensos e progressivos, sua contribuição para estabelecer uma dinâmica aos temas é fundamental.
“Blues For Cannonball” foi composta por Jaffe na ocasião do falecimento de Cannonball Adderley, é um blues de sentimento melancólico que mostra a grande influência composicional de Oliver Nelson na música de Jaffe. O solo principal está, óbviamente, na seara do sax alto de Ed Jackson, seu fraseado tem uma qualidade que beira expressões da voz humana. Tom Olin tem seu único solo no álbum no sax barítono. Jaffe é o último a solar, em forma quase introspectiva. A melodia deste blues chega a sugerir a melodia de “I Remember Clifford”.
Em “The Scorpion” Jaffe paga seu tributo a outro gigante do jazz, Horace Silver. Ed Jackson tem um solo altamente fluido e bluesy. Roney promove uma contribuição mais lírica, soando quase como um flugelhorn. Marsalis, ao soprano, tem seu solo mais impressionante no álbum.
As 3 últimas faixas do álbum, pertencem a uma outra sessão de gravação, acontecida em agôsto de 91, com uma outra formação e outra sonoridade. Integram a versão em CD como faixas bônus, mas mantém a extrema qualidade de composição e execução que permeiam todo o trabalho deste magnífico pianista e compositor que é Andy Jaffe.

 

Conselho de amigo: se você ainda não conhece a música de Andy Jaffe, não perca mais tempo!
Andy Jaffe (p); Wallace Roney (tp); Branford Marsalis (as, ts); Ed Jackson (as); Tom Olin (bs, piccolo); Lou Harless (b); Marvin “Smitty” Smith (d)
Recorded NYC, 24 january, 1984

 

Andy Jaffe (p); John Clark (french horn); Bill Lowe (tb); Philippe Crettien (ts); Mike Marcus (b); Claire Arenius (d)
Recorded 2 august, 1991*

 

1- Manhattan Projections
2- Samba de Saudade
3- Dersu
4- So You Say
5- Blues For Cannonball
6- The Scorpion
7- Integrity
8- Transition*
9- Whole Town*
10- Goose*
 

Sonny Rollins – Falling In Love With Jazz (1989)

Quando Sonny Rollins surgiu na cena musical da Big Apple na virada da década de 40 para 50, comentava-se que a força e vitalidade do toque desse, então jovem saxofonista, só era comparavel com a obtida por veteranos da cena jazzística como Coleman Hawkins, Don Byas e Gene Ammons. Passados 60 anos, agora afirma-se o contrário sobre ele: A força e vigor do toque desse saxofonista octogenário só é comparavel ao de músicos jovens que podem tocar a pleno pulmão! Paradigmas à parte, o que se pode dizer com absoluta certeza sobre esse monstro sagrado do jazz é que para ele o tempo não passou. Quem teve a oportunidade de conferir suas apresentações no Brasil ano passado, tem absoluta certeza disso. Rollins foi o músico que melhor fez a ligação entre o toque vigoroso da escola de Coleman Hawkins com o fraseado ligeiro e sinuoso do bebop. Passou incólume por todas as mudanças de tendências do jazz e continuou sempre a ser uma luz guia na arte de soprar um saxofone, sempre sendo Sonny Rolins. E isso não significa, absolutamente, que tenha se cristalizado em meio ao desenvolvimento do jazz. Sempre foi um músico antenado, perceptivo ao novo, cercado por jovens músicos, mas sempre fazendo a música dele próprio. Experimentou de tudo, até o que não devia, mas sua personalidade musical sempre foi um iceberg em meio a tantas marolas estilísticas do gênero.
É justamente essa personalidade que podemos notar nesse “Falling In Love With Jazz”, gravado em 1989. Em duas baladas, “For All We Know” e “I Should Care”, Rollins convida a voz maior do saxofone da década de 80, Branford Marsalis e não soa nem um pouco old fashion, muito pelo contrário. Nesses dois temas ele conta com a preciosa colaboração do pianista Tommy Flanagan, companheiro de muitas jornadas desde os anos 50 no antológico “Saxofone Colossus”. Nos temas restantes é acompanhado pelo inseparável e excelente pianista Mark Soskin, um especialista em Latin Jazz, pelo entusiasmante guitarrista Jerome Harris, o veterano e sólido baixo de Bob Cranshaw, pela bateria ímpar de Jack DeJohnette e pelo trombone moderno de Clifton Anderson. O álbum todo é como destaca o título, uma impressionante e verdadeira declaração de amor ao jazz e a vida, já que para ele o tempo não passa.
Branford Marsalis, Sonny Rollins (ts) Tommy Flanagan (p) Jerome Harris (el-b) Jeff Watts (d) NYC, June 3, 1989
*Sonny Rollins (ts) Mark Soskin (p) Jerome Harris (g) Bob Cranshaw (el-b) Jack DeJohnette (d) NYC, August 5, 1989
**Clifton Anderson (tb) Sonny Rollins (ts) Mark Soskin (p, el-p) Jerome Harris (el-g) Bob Cranshaw (el-b) Jack DeJohnette (d) NYC, September 9, 1989
01 – For All We Know
02 – Tennessee Waltz*
03 – Little Girl Blue*
04 – Falling In Love With Love**
05 – I Should Care
06 – Sister**
07 – Amanda**