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Arquivo da categoria: Bud Powell

HotBeatJazz 10′ Series – Bud Powell – Piano Solos – 10’LP MGC 507 (1950)

A história do piano no jazz pode ser contada em antes de Bud Powell, e depois dele. Antes, houve Art Tatum, um dos maiores virtuoses do instrumento; depois, vieram os seguidores de Bud Powell. Segundo Joachim Berendt, “no jazz moderno a pianística vem de Art Tatum, mas de Bud Powell vem o estilo. Tatum deixou para o jazz um estandarte inalcançável, mas Bud criou uma escola.” Desta escola que se refere Berendt vieram: Al Haig, George Wallington, Lou Levy, Lennie Tristano, Hampton Hawes, Pete Joly, Wynton Kelly, Red Garland, Horace Silver, Barry Harris, Duke Jordan,Kenny Drew, Walter Bishop, Elmo Hope, Tommy Flanagan, Bobby Timmons, Junior Mance, Ray Bryant, Horace Parlan, Roland Hanna, e mais um sem número, que por falha de memória, e para encurtar o assunto, ficam de fora desta lista. Até mesmo Bill Evans que, sem dúvida alguma, forjou um novo estilo, paga seu tributo a Bud Powell no campo harmônico. O virtuosismo de Bud e sua fluência de idéias só encontra par em Charlie Parker. Sua vida perturbada nos privou de muitas mais gravações que ele poderia vir a fazer até sua morte prematura em 1966, aos 42 anos.

 

Bud era de uma família musical, seu pai, avô, e dois irmãos eram músicos, sendo o caçula, Richie, também pianista, o que mais se destacou, até também falecer prematuramente em um acidente automobilístico, o mesmo que tirou a vida do grande trompetista Clifford Brown. Em 1943, faz suas primeiras gravações no combo do trompetista Cootie Williams. Frequenta assíduamente os clubes da rua 52 em Manhattan, berço do nascente bebop. Bud era emocionalmente instável, fato que o levou a uma primeira crise depressiva em 1945. De 45 até 47, intercala períodos de internação psiquiátrica com atuações no Birdland e em outros clubes. Bud era o pianista predileto do boppers, sempre que possível, requisitado para compor combos com os nomes do momento na fervilhante segunda metade da década de 40. Desta forma, pôde tocar com Charlie Parker, Fats Navarro, Tadd Dameron, Dexter Gordon, Max Roach, Johnny Griffin, entre outros. Em 59, viaja para Paris e fixa residência permanente na França, só retornando aos EUA em 64 para se apresentar no Birdland e sair de cena até sua morte.

 

Este 10 polegadas foi gravado em 1950, com produção de Norman Granz. Bud executa standards, sempre com seu estilo único e virtuosístico, acompanhado pelo seguro contrabaixo de Curlley Russell e a bateria de Max Roach. Você, com certeza, já ouviu estes temas diversas vezes, mais nunca desta forma. Tome como exemplo o andamento alucinante de Get Happy, as harmonias alteradas de So Sorry Please, a energia intensa de Sweet Georgia Brown, os intervalos, até então ocultos, em April in Paris, as dissonâncias contidas em Body and Soul, tudo isto faz parte da experiência única que é ouvir Bud Powell.
Bud Powell (p) Curly Russell (b) Max Roach (d)
NYC, February, 1950

 

1- So Sorry Please (take 341-2)
2- Get Happy (take 342-2)
3- Sometimes I’m Happy (take 343-1)
4- Sweet Georgia Brown (take 344-2)
5- April In Paris (take 346-1)
6- Body And Soul (take 347-1)

 

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Charlie Parker and The Stars of Modern Jazz – Carnegie Hall X-mas ’49

Passadas as festas de fim de ano, agora distanciadas no funil do tempo, é hora para, sem apelos emocionais, sem motivos outros, que não a música em si, prestarmos atenção a esta noite de natal de 1949. Um concêrto no Carnegie Hall, sem jingle bell, sem velhinho amarelo-rosado em roupa de bombeiro, sem público disponível para melodias assobiáveis de forma autômata, trazia a nata do bebop para uma platéia ávida pelos ritmos frenéticos, pelas melodias sinuozas e pelas harmonias alteradas ao limite da compreensão da época. O disk-jockey Symphony Sid Torin organizou e apresentou alguns dos mais espetaculares músicos do jazz de então em uma noite memorável que teve como desfecho a apresentação do quinteto de Charlie Parker após as costumeiras confraternizações da meia noite de 24 de dezembro de 1949. Sid chama ao palco Bud Powell, o maior e mais influente pianista do bebop, à frente de seu trio formado pelos ex integrantes do combo de Parker: o contrabaixista Curley Russell e o baterista Max Roach em uma interpretação impecável de “All God’s Children Got Rhythm”, tema que era uma especialidade de Bud. O trio permanece no palco enquanto Sid anuncia mais alguns gigantes do jazz para se juntarem a eles: o trompetista Miles Davis, o trombonista Bennie Green, o saxofonista Sonny Stitt ao alto e Serge Chaloff no barítono. Inicia-se uma verdadeira jam com três temas hinos do bebop: “Move”, de Denzil Best; “Hot House”, de Dizzy Gillespie; e “Ornithology”, de Charlie Parker. Os palco é renovado com o quinteto de Stan Getz e Kai Winding. Stan, um dos famosos “four brothers” da orquestra de Woody Herman, atravessava um período de grande fama ganhando o apelido de “The Sound”, Winding surgia como uma nova voz ao trombone e em breve formaria um histórico quinteto com o pai do trombone bop, J. J. Johnson. A seção rítmica de Parker, formada por Al Haig, Tommy Potter e Roy Haynes, daria o suporte aos dois solistas em duas antigas peças da música americana: “Always” e “Sweet Miss”. Stan Getz apresenta “Long Island Sound” em formação de quarteto, deixando evidente sua sonoridade inspirada em Lester Young com um fraseado adaptado aos novos tempos do bebop. Sarah Vaughan, a voz bop por excelência, acompanhada por Jimmy Jones ao piano, interpreta dois standards: “Once In A While” e “Mean To Me”. O pianista Lennie Tristano apresenta-se acompanhado por seus alunos: o sax alto de Lee Konitz, o tenor de Warne Marsh, a guitarra de Billy Bauer, e o apoio rítmico de Joe Shulman ao contrabaixo e Jeff Morton à bateria. Sua leitura do standard “You Go To My Head” preconiza alterações harmônicas que só veríamos alguns anos depois com Bill Evans. O original “Sax Of A Kind” é veículo para as macias sonoridades de Lee Konitz ao alto e Warne Marsh ao tenor, músicos que traziam uma nova concepção timbrística ao modelo comum do bebop. Após a meia-noite chega a vez do ponto alto do concêrto, o fenomenal quinteto do pai de todos, Charlie Parker, acompanhado pelo trompetista Red Rodney, o pianista Al Haig, o contrabaixista Tommy Potter e a bateria de Roy Haynes. Parker está no auge de sua forma, com sua característica fluência de idéias e frases musicais que não teve equivalencia em toda a história do jazz. Os originais “Ornithology”, “Cheryl”, “Ko Ko”, “Bird Of Paradise” e “Now’s The Time” encerram esta noite de natal ímpar, acontecida a exatos 60 anos atraz, onde originalidade, modernidade e coragem foram a tônica deste acontecimento histórico para todo o desenvolvimento do jazz contemporâneo.
Voice Of America, Carnegie Hall, New York City, December 24 or 25, 1949.Master of ceremonies: Symphony Sid Torin.
THE BUD POWELL TRIO
Bud Powell (p), Curley Russell (sb), Max Roach (dm).December 24, 1949.
1 – All God’s Children Got Rhythm
JAM SESSION
Miles Davis (tp), Bennie Green (tb), Sonny Stitt (as), Serge Chaloff (bar), Bud Powell (p), Curley Russell (sb), Max Roach (dm). December 24, 1949.
2 – Move
3 – Hot House
4 – Ornithology (incomplete, originally)
STAN GETZ – KAI WINDING QUINTET
Kai Winding (tb), Stan Getz (ts), Al Haig (p), Tommy Potter (sb), Roy Haynes (dm). December 24 or 25, 1949.
5 – Always
6 – Sweet Miss
STAN GETZ QUARTET
7 – Long Island Sound
SARAH VAUGHAN (vocal), Jimmy Jones (p). December 24, 1949.
8 – Once In A While
9 – Mean To Me
LENNIE TRISTANO – LEE KONITZ SEXTET
Lee Konitz (as), Warne Marsh (ts), Lennie Tristano (p), Billy Bauer (g), Joe Shulman (sb), Jeff Morton (dm). December 24, 1949
10 – You Go To My Head
11 – Sax Of A Kind
THE CHARLIE PARKER QUINTET
Red Rodney (tp), Charlie Parker (as), Al Haig (p), Tommy Potter (sb), Roy Haynes (dm).December 25, 1949.
12 – Ornithology
13 – Cheryl
14 – Ko Ko
15 – Bird Of Paradise
16 – Now’s The Time