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Arquivo da categoria: Curly Russell

HotBeatJazz 10′ Series – Thelonious Monk Quintet – 10’LP PRLP 180 (1954)

Não houve, na história do jazz, músico mais difícil de ser digerido e apreciado do que Thelonious Sphere Monk. Estando ele sempre a frente de seu tempo e alheio a estilos e modismos, Monk permaneceu por anos à fio como uma criatura à parte de tudo que lhe cercava. Sua música era única e refratária a qualquer rótulo que lhe quizessem aderir. O pianista Bill Evans certa vez disse sobre Monk o seguinte: “Monk é um exemplo extraordinário de talento criativo que não é corrompido por nada. Ele aceitou todos os desafios que alguém tem que aceitar se deseja criar música no idioma jazz”. Monk começou a ficar conhecido em 1939, quando foi contratado para ser o pianista do Minton’s Playhouse, casa de música de NYC e berço do emergente bebop, estilo que mudaria em definitivo os rumos da música moderna e contemporânea. Lá, ele seria um encorajador de vários jovens músicos, como o pianista Bud Powell, por exemplo. Em 1941, foi gravado pela primeira vez atuando ao lado do guitarrista Charlie Christian, em uma das incontáveis jam sessions que eram costumeiras de acontecer no Minton’s. Da mesma forma, Monk atuou com célebres visitantes da casa: Roy Eldridge, Don Byas, a cantora Helen Humes, entre outros. Somente em 1944 Monk entraria em um estúdio de gravação para uma sessão formal, acompanhando o saxofonista Coleman Hawkins, outro habitual visitante do Minton’s. Haveria de se passar mais três anos para que Monk entrasse em estúdio como líder, para gravar composições próprias, pela gravadora Blue Note, onde permaneceu como contratado até 1952, ano em que assina contrato com a Prestige, de Bob Weinstock. Neste contexto, Monk começa a gravar com maior frequência, e a consolidar uma característica que não abandonou até sua morte, a de rever sempre sua própria obra, regravando à exaustão suas composições. O repertório de Monk sempre consistiu de suas criações acrescidas de alguns poucos standards, que também regravava constantemente.

 

Em 11 de maio de 1954, Monk gravou a frente de um quinteto formado pelo excelente, tanto quanto esquecido, trompetista Ray Copeland; pelo ótimo saxofonista tenor Frank Foster, então peça chave na orquestra de Count Basie, ao lado de Frank Wess, Thad Jones, Charlie Fowlkes, e outros. Art Blakey com sua bateria inconfundível e única, e o onipresente contrabaixista Curly Russell, completavam a seção rítmica. Três composições de Monk e o standard Smoke Gets In Your Eyes formavam o repertório selecionado para a data.

 

Wee See, com seus intervalos incomuns e estimulantes, abre o álbum. Monk é o primeiro a solar, sempre com seu estilo marcadamente percussivo e acordes dissonantes na harmonia. Frank Foster mostra seu estilo vigoroso no sax tenor. Frank foi um músico muito influente em Detroit no início dos anos 50, o pianista Tommy Flanagan fala a esse respeito: “Frank foi uma grande influência nos jovens de Detroit. Escreveu muita música original. Nós o equiparávamos a Coltrane naquela época.”

 

Smoke Gets In Your Eyes, é inteiramente dissecada por Monk, com Ray e Frank se limitando a alguns voicings. O sentido de tempo e espaços na execução de Monk, são características tão próprias e originais, que faz seu toque ser reconhecível já nos primeiros acordes. O martelar renitente de acordes e notas em repetições, fazem parecer que Monk queria dizer aos ouvintes: “Hey, prestem atenção! Aqui está a solução da frase, busquem-na!”

 

Locomotive, é um blues fantástico, com intervalos típicos do bebop, tal qual “Now’s the Time” de Parker. Copeland produz um solo inteligente e articulado antes da intervenção de Foster, impregnada de fluidez e swing. Seu timbre, é cheio e macio, Frank é um grande exemplo dos tenoristas da década de 50, que souberam como ninguém, fazer um amálgama do fraseado de Lester Young e da timbragem robusta de Coleman Hawkins.

 

Hackensack é um clássico do repertório de Monk, uma melodia forte como de Straigh, No Chaser, e outras inúmeras peças do pianista. O entendimento entre Monk e Blakey é de uma sintonia absoluta. Frank sola com energia e stamina, entregando a Copeland o andamento já bastante aquecido por Blakey, que sola em seguida com estilo vigoroso e com uma afinação de tambores muito particular dele.

 

Esta sessão encontra-se entre as grandes que Thelonious Monk produziu para a Prestige, numa associação que durou até 1955, quando passou a gravar para a Riverside, mas isto, é assunto para outra postagem.
Ray Copeland (tp) Frank Foster (ts) Thelonious Monk (p) Curly Russell (b) Art Blakey (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, May 11, 1954

 

1- Wee See
2- Smoke Gets In Your Eyes
3- Locomotive
4- Hackensack
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HotBeatJazz 10′ Series – Bud Powell – Piano Solos – 10’LP MGC 507 (1950)

A história do piano no jazz pode ser contada em antes de Bud Powell, e depois dele. Antes, houve Art Tatum, um dos maiores virtuoses do instrumento; depois, vieram os seguidores de Bud Powell. Segundo Joachim Berendt, “no jazz moderno a pianística vem de Art Tatum, mas de Bud Powell vem o estilo. Tatum deixou para o jazz um estandarte inalcançável, mas Bud criou uma escola.” Desta escola que se refere Berendt vieram: Al Haig, George Wallington, Lou Levy, Lennie Tristano, Hampton Hawes, Pete Joly, Wynton Kelly, Red Garland, Horace Silver, Barry Harris, Duke Jordan,Kenny Drew, Walter Bishop, Elmo Hope, Tommy Flanagan, Bobby Timmons, Junior Mance, Ray Bryant, Horace Parlan, Roland Hanna, e mais um sem número, que por falha de memória, e para encurtar o assunto, ficam de fora desta lista. Até mesmo Bill Evans que, sem dúvida alguma, forjou um novo estilo, paga seu tributo a Bud Powell no campo harmônico. O virtuosismo de Bud e sua fluência de idéias só encontra par em Charlie Parker. Sua vida perturbada nos privou de muitas mais gravações que ele poderia vir a fazer até sua morte prematura em 1966, aos 42 anos.

 

Bud era de uma família musical, seu pai, avô, e dois irmãos eram músicos, sendo o caçula, Richie, também pianista, o que mais se destacou, até também falecer prematuramente em um acidente automobilístico, o mesmo que tirou a vida do grande trompetista Clifford Brown. Em 1943, faz suas primeiras gravações no combo do trompetista Cootie Williams. Frequenta assíduamente os clubes da rua 52 em Manhattan, berço do nascente bebop. Bud era emocionalmente instável, fato que o levou a uma primeira crise depressiva em 1945. De 45 até 47, intercala períodos de internação psiquiátrica com atuações no Birdland e em outros clubes. Bud era o pianista predileto do boppers, sempre que possível, requisitado para compor combos com os nomes do momento na fervilhante segunda metade da década de 40. Desta forma, pôde tocar com Charlie Parker, Fats Navarro, Tadd Dameron, Dexter Gordon, Max Roach, Johnny Griffin, entre outros. Em 59, viaja para Paris e fixa residência permanente na França, só retornando aos EUA em 64 para se apresentar no Birdland e sair de cena até sua morte.

 

Este 10 polegadas foi gravado em 1950, com produção de Norman Granz. Bud executa standards, sempre com seu estilo único e virtuosístico, acompanhado pelo seguro contrabaixo de Curlley Russell e a bateria de Max Roach. Você, com certeza, já ouviu estes temas diversas vezes, mais nunca desta forma. Tome como exemplo o andamento alucinante de Get Happy, as harmonias alteradas de So Sorry Please, a energia intensa de Sweet Georgia Brown, os intervalos, até então ocultos, em April in Paris, as dissonâncias contidas em Body and Soul, tudo isto faz parte da experiência única que é ouvir Bud Powell.
Bud Powell (p) Curly Russell (b) Max Roach (d)
NYC, February, 1950

 

1- So Sorry Please (take 341-2)
2- Get Happy (take 342-2)
3- Sometimes I’m Happy (take 343-1)
4- Sweet Georgia Brown (take 344-2)
5- April In Paris (take 346-1)
6- Body And Soul (take 347-1)