RSS

Arquivo da categoria: Dick Farney

Dick Farney Trio – Concerto de Jazz Ao Vivo (1973)

Encerrando esta primeira série de postagens relativas ao imensurável Dick Farney, temos um concerto realizado pelo trio com Sabá e Toninho no Auditório de O Globo, organizado pelo radialista e profundo conhecedor de jazz Paulo Santos. Era o primeiro concerto deste trio em um grande palco – haviam se apresentado, até então, somente em pequenos espaços como boites. O concerto se inicia com Paulo Santos anunciando o trio e Dick ataca de pronto um magnífico chorus de “Perdido”, de Juan Tizol. A fluência de Dick é de fazer cair o queixo já nos primeiros segundos da apresentação, em uma performance digna de um Oscar Peterson e Erroll Garner. “Thank You”, é uma composição de Dave Brubeck dedicada a Federic Chopin, um tema impregnado de emoção e drama. Dick executa uma leitura perfeita, secundado na exposição do tema por Sabá ao contrabaixo tocado com o arco. Esta é uma das composições que Dick mais gostava de tocar, uma dupla homenagem a seu pianista de jazz e compositor erudito preferidos. Uma apresentação de “When Lights Are Low”, imortalizada por Miles Davis, revela o quão lúcido e refinado era o pianista Dick Farney. O programa que se iniciou com um tema do repertório de Duke Ellington não poderia desmerecer à Count Basie, “Cute”, de Neal Hefti, é apresentada com um soberbo swing que arranca manifestações do público extasiado. O baterista Toninho faz um brilhante trabalho com as escovas e Sabá impõe um groove avassalador. A belíssima “The Shadow Of Your Smile”, de Johnny Mandel, traz brasilidade ao repertório ao ter seu tema executado em levada de bossa, o bom gosto de Dick se mostra na escolha dos acordes da harmonia que sustentam toda a improvisação, digna de um mestre do bebop. “These Foolish Things” dá chance para a platéia respirar, Dick a executa em um andamento que valoriza sua bela melodia. Ecos do estilo de George Shearing se fazem perceber. A bela valsa “Someday My Prince Will Come” encerra o programa deste especial concerto de jazz.
Dick Farney (piano); Toninho (bateria); Sabá (contrabaixo)
1 – Perdido (Tizo / Lengsfelder / Drake)
2 – Thank You (Dziekuje) (Dave Brubeck)
3 – When Lights Are Low (Carter / Williams)
4 – Cute (N. Hefti)
5 – The Shadow Of Your Smile (J. Mandel / Paul Francis Webster)
6 – These Foolish Things (Remind Me Of You) (Strachey / Link / Marvell)
7 – Someday My Prince Will Come (Churchill / Morey)
 
5 Comentários

Publicado por em 6 de dezembro de 2009 em Dick Farney, Sabá, Toninho

 

Dick Farney Trio – 5 Anos de Jazz (1977)

Em 14 de novembro de 1921 nasceu Farnésio Dutra e Silva, futuramente conhecido como Dick Farney, filho de um compositor e concertista e uma cantora. Já aos 3 anos o menino se iniciava no piano e ainda adolescente se apresentava em programas juvenis nas rádios do Rio de Janeiro. De 1941 a 44, foi crooner da orquestra de Carlos Machado no Cassino da Urca. Em 46 grava seu maior sucesso, “Copacabana”, e se apresenta no Golden Room do Copacabana Palace onde foi escutado pelo arranjador e maestro norte-americano Bill Hitchcock e pelo pianista Eddie Duchin e convencido a tentar carreira nos EUA. Lá, teve programa na rádio NBC e se apresentou no Aldorf Astoria, sendo o primeiro a gravar o standard “Tenderly”. De volta ao Rio em 48, se apresenta na boate Vogue. Apesar do grande sucesso que alcançou como cantor, Dick nunca abandonou suas maiores paixões: o piano e o jazz. Na década se 50 grava vários álbuns e participa de pioneiras apresentações de jazz no Rio e em São Paulo. No final da década e nos anos 60, apresenta programa de televisão na antiga TV Record de São Paulo e na recém inaugurada Rede Globo, com sua orquestra. Foi empresário da noite com sua boate Farney’s em São Paulo. Em 1971, formou um trio com dois ex-integrantes do Jongo Trio, o contrabaixista Sabá e o baterista Toninho. “5 Anos de Jazz” é uma gravação ao vivo realizada nos estúdios da EMI-Odeon e comemorava esta associação de sucesso entre os tres músicos. O álbum inicia com a composição de Dave Brubeck “Brandenburg Gate”, tributo de Brubeck a Bach. Brubeck foi sua maior e mais clara influência, algo sempre declarado pelo próprio Dick, assim como antes dele o foram: Fats Waller, Art Tatum, Nat King Cole, George Shearing e Erroll Garner. Dick conseguiu deste amálgama de influências forjar seu próprio estilo, rico em nuances tonais, harmônicas, e como sempre, com um profundo bom gosto. “Autumn Leaves” mostra o estilo impregnado de Garner e uma reinvenção melódica digna somente dos grandes mestres. “We’ll Be Together Again” traz uma modernidade harmônica que o aproxima de um Bill Evans, com a utilização de pausas que enriquecem e tornam seu toque atual e denso. Garner está lá, sempre, nos vamps de mão esquerda e nas cascatas de notas que fluem com extrema naturalidade. “Besame Mucho” tem uma das mais belas interpretações que já pude ouvir deste antológico bolero. Mais uma vez as pausas e o rico tratamento da harmonia, colaboram para uma reinvenção total do tema. Brubeck é mais uma vez trazido a colaborar com o repertório com seu fabuloso “Three To Get Ready” antes que uma leitura inspirada de “Our Love Is Here To Stay”, de Gershwin, um de seus compositores favoritos, encerrrem este magnífico álbum de piano jazz. Toda interpretação de Dick é uma aula de bom gosto, dedicação e competência. Dick Farney não foi própriamente um músico “underrated”, já que atingiu os píncaros do sucesso nos anos 40 e 50 como cantor, mas foi, sem dúvida o mais injustiçado instrumentista neste Brasil sem memória e respeito pelos seus artistas de real talento. Dick nunca foi lembrado para atuar em nenhuma edição dos festivais internacionais de jazz realizados no Brasil. Uma falha que nunca poderá ser retratada, uma verdadeira vergonha em termos de justiça com este ícone do jazz produzido no Brasil. Dick não foi só um grande músico, era uma das pessoas de maior gentileza e caráter que já tive o privilégio de conhecer. Isto ocorreu em 1983, em uma pequena casa de show em Itaipava, chamada Le Moulin, à beira da BR-040. Dick estava lá, cantando e se acompanhando ao piano, gentil, humilde, solícito, mas não muito feliz. Algo nele sempre revelou uma certa melancolia nestes seus últimos anos de vida, que se extinguiria em 4 de agosto de 1987 em São Paulo. Dick sabia, melhor do que ningém, que não lhe davam mais o tratamento merecido por alguém de sua estatura e genialidade, porém nunca ouvi dizer que tivesse se queixado disto.
Disse ele uma vez em uma entrevista a revista Manchete:
“…Nunca traí um compromisso, nunca me prostituí. Nunca aderi a modismo. Quando senti que a maré não estava para peixe não fui correndo mudar de estilo. Continuei fiel ao meu gosto, às minha concepções de arte e ao meu público. E me realizei.”
Dick era assim, um gênio calado e cordial, um gentleman como nunca vi outro igual.
Antes dos dados técnicos do álbum em questão, convido aos leitores que conheçam mais deste maravilhoso músico e ser humano, ouvindo um depoimento gravado, pouco antes de seu falecimento, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Dick fala de sua vida, suas influências, seu amor à música e ao piano, e toca magistralmente como sempre soou acontecer.

Dick Farney (piano), Saba (contrabaixo), Toninho (bateria).

Gravado nos estúdios da EMI-Odeon, em 1977

1- Brandenburg Gate

2- Autumn Leaves

3- We’ll Be Together Again

4- Besame Mucho

5- Three To Get Ready

6- Our Love Is Here To Stay

http://ouo.io/5CPpyv

 
6 Comentários

Publicado por em 5 de dezembro de 2009 em Dick Farney, Sabá, Toninho

 

Dick Farney Quartet – Jazz After Midnight (1956)

No dia 11 de julho de 1956, no Teatro de Cultura Artística de São Paulo, foi realizado um concerto em homenagem aos 19 anos de falecimento do célebre compositor norte-americano George Gershwin. Apresentou-se o mais conceituado músico brasileiro de jazz da época, o pianista Dick Farney e seu quarteto. A ocasião também se tornou histórica por ter originado o primeiro LP de 12 polegadas inteiramente produzido no Brasil. Dick vivia seu momento de maior sucesso como cantor, tendo somente a dois anos retornado de uma temporada nos EUA. Porém a integridade artística de Dick Farney nunca permitiu que esquecesse o que ele realmente era, um dos mais capacitados pianistas de jazz que o Brasil já conheceu. Educado tanto na música erudita quanto no jazz, Dick sempre mostrou em sua forma de tocar suas maiores influências: Bach, Dave Brubeck e Erroll Garner. O quarteto tinha entre seus integrantes o formidável saxofonista alto Casé, o contrabaixista Shoo Viana e o baterista Rubens Barsotti (Rubinho). Casé sempre foi um músico completo, que sabia se adaptar com imensa flexibilidade ao que a música produzida lhe exigia. Nesta ocasião, atendendo às expectativas de Dick, Casé emula a sonoridade e fraseado de Paul Desmond, antológico saxofonista do quarteto de Dave Brubeck. Dick, como sempre, revela sua técnica pianística impecável, seu gosto refinado, e a capacidade peculiar de alternar entre contrapontos bachianos e vamps jazzísticos. Nesta garvação o ouvinte encontra algo que se torna cada vez mais raro nos dias de hoje, músicos inteiramente dedicados a sua arte e suas idéias, despreocupados com os resultados materiais, e fluindo uma música de honestidade e sinceridade ímpares.
Músicos como Dick Farney e Casé, deveriam ter estátuas em praças públicas em todas as cidades do país!
Dick Farney (piano); Casé (sax alto); Rubens Barsotti (bateria); Shoo Viana (contrabaixo)
Gravado ao vivo no Teatro de Cultura Artística, São Paulo, em 11 de julho de 1956.
1 – Strike Up The Band (George Gershwin)
2 – Embraceable You (Ira Gershwin / George Gershwin)
3 – Oh Lady Be Good (George Gershwin)
4 – But Not For Me (Ira Gershwin / George Gershwin)
5 – I Got Rhythm (George Gershwin / Ira Gershwin)
6 – A Foggy Day (Ira Gershwin / George Gershwin)
7 – The Man I Love (Ira Gershwin / George Gershwin)
 
9 Comentários

Publicado por em 3 de dezembro de 2009 em Casé, Dick Farney, Rubens Barsotti, Shoo Viana