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Arquivo da categoria: Johnny Alf

Johnny Alf – Diagonal (1964)

Alfredo José da Silva tinha um problema a resolver. Como arranjar um piano para poder praticar? A questão era que na casa onde morava com sua mãe, que trabalhava como doméstica, na Tijuca, ele tinha que dividi-lo com os demais moradores, os patrões. Apesar de ser muito querido pela família dos proprietários do piano, que bancavam seus estudos de música erudita, o pequeno Alfredo passava mais horas ouvindo o rádio e os discos de Nat King Cole e George Shearing do que própriamente se exercitando. Fascinado pelas composições de George Gershwin, Cole Porter, Harold Arlen e outros grandes que povoavam as trilhas sonoras do cinema da época, o jovem havia atravessado sua adolescência com este dilema à resolver. Até que soube que o recém inaugurado Sinatra-Farney Fan Club, situado na Rua Doutor Moura Brito n°74, também na Tijuca, possuía um velho Pleyell reformado que vivia ocioso a maior parte do tempo. Rápidamente se tornou sócio e passou a poder utilizar o piano para seus exercícios, já que estava muito mais interessado em praticar e experimentar harmonias do que em fazer qualquer tipo de tietagem. Dois anos mais tarde, conseguiria seu primeiro contrato profissional por intermédio do ídolo do fan clube, ninguém menos do que o próprio Dick Farney, que havia ficado impressionado com o talento do jovem de 23 anos. Alfredo, nesta época já conhecido como Johnny Alf, foi contratado como pianista da Cantina do César, de propriedade do radialista César de Alencar. Suas composições rápidamente começaram a ser gravadas por cantoras, até que em 53, ele mesmo gravou seus primeiros 78 rotações. Passou a cumprir o circuito das boates cariocas: Monte Carlo, Mandarim, Clube da Chave, Drink’s e a boate do Hotel Plaza. Sua música começou a chamar a atenção dos outros músicos, que notavam uma maneira original e moderna nas harmonias e melodias de canções como: “Estamos sós”, “O que é amar”, “Escuta”, “Podem Falar”, “Céu e Mar”, e seu maior sucesso na época, “Rapaz de Bem”. Johnny era realmente o mais jazzístico dos cantores da época, sua divisão era cheia de suingue, suas harmonias, nada tradicionais, sempre alteradas, surpreendendo o ouvinte então acostumado ao jeito meio careta e certinho das canções dos anos cinquenta. Passou a ser uma referência para um grupo de jovens que alguns anos depois seriam os protagonistas da Bossa-Nova. Começou a ser chamado carinhosamente de “Genialf” por gente como Roberto Menescal, Carlos Lyra, e toda a turma do Beco das Garrafas. Em 62, de volta ao Rio após uma temporada em Sampa, passou a se apresentar ao lado dessa turma de garotos que incluíam Sérgio Mendes, o Tamba Trio, o baixista Tião Neto, o baterista Edison Machado e outros expoentes da Bossa. Em 61, grava o LP “Rapaz de Bem”, com arranjos modernos, que mostravam ter aderido à nova estética da MPB. “Diagonal” foi gravado em 64, com arranjos e performance ao piano que definitivamente o incluíam no time da Bossa, sua modulações e divisão incomum da melodia, o colocavam em um patamar raramente atingido por um vocalista, só igualado pela extraordinária Leny Andrade.

 

Os anos 70 foram difíceis para todos, principalmente para um músico diferenciado como foi Johnny Alf, o surgimento da moda discoteca dizimou os locais onde antes se produzia música ao vivo. Os anos 80 foram marcados pela massificação do mercado fonográfico, agora não mais interessado em promover artistas e sim em vender discos, se possível, de um novo nome a cada semana. Neste contexto, o nome de Johnny Alf foi caindo no esquecimento do público em geral, suas apresentações foram se tornando cada vez mais raras, e “Genialf” experimentou um ostracismo compulsório até seus últimos dias, que se extinguiram em 4 de março de 2010, aos 80 anos de idade.

 

Alfredo, você foi realmente GENIALF!

 

1- Diga
2- O Céu e Voce
3- Bondinho do Pão de Açúcar
4- Podem Falar
5- Vejo a Tarde Cair
6- Desejo do Mar
7- Céu e Mar
8- Seu Chopin, Desculpe
9- Diagonal
10- Moça Flor
11- Termos de Canção
12- Triste Noturno
 
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Publicado por em 5 de março de 2010 em Johnny Alf