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Arquivo da categoria: kenny clarke

HotBeatJazz 10′ Series – Frank Foster Quintet – Here Comes BLP 5043 (1954)

Frank Benjamin Foster nasceu em Cincinnati, Ohio, em 23 de setembro de 1928. Após ter se dedicado ao estudo do saxofone e clarinete no High School e na Wilberforce University, mudou-se para Detroit em 1949, onde tocou com Wardell Gray, importante tenorista da banda Count Basie. Convocado para servir ao exército em 1951, permaneceu longe do meio musical até maio de 1953, quando foi desligado da força. Logo após foi contratado por Count Basie, seguindo recomendações com a chancela de nomes importantes como Ernie Wilkins e Billy Eckstine. Frank iniciou seu trabalho com a orquestra em julho de 1953, sua importância para o grupo foi de tal ordem que assumiu a direção musical da banda ainda nos anos cinquenta e sua direção após a morte de Basie nos anos oitenta. O jovem Frank assumiu, com dignidade e competência, a tradição da estante de sax tenor de uma orquestra que já havia contado com Lester Young, Herschell Evans e Don Byas.

 

O som de Frank Foster traz em seu corpo a energia e vigor da escola de Coleman Hawkins e o lirismo e modernidade da de Lester Young. Frank foi um dos mais completos saxofonistas do jazz, não obtendo entre o público em geral o valôr e reconhecimento. Ele foi uma referência no som de importantes tenoristas do jazz moderno, tais como Benny Golson e John Coltrane. Possui também um enorme talento para a confecção de modernos arranjos e originais composições.

 

Frank Foster gravou sua primeira sessão como líder para a Blue Note em maio de 1954, a frente de um quinteto integrado pelo excelente trombonista Bennie Powell, o pianista Gildo Mahones, e soberba seção rítmica com o contrabaixista Percy Heath e o baterista Kenny Clarke. Cinco entre as seis composições do álbum atestam a capacidade especial de Foster como compositor. Little Red é um tema de altíssimo suingue, com solos de Foster, Powell, Mahones e Clarke. How I Spent The Night é uma balada de melodia impecável, uma amostra inconteste da superior capacidade do líder como compositor. Blues For Benny tem no drive imposto por Kenny Clarke uma atração à parte. O standard Out Of Nowhere mostra o baladista de frases inteligentes e originais que é Frank Foster. Gracias é uma rumba de melodia muito atraente, com um trabalho consistente de todo o quinteto. The Heat’s On é um blues em dó com andamento médio, uma composição típica para um músico com tão longa associação com a orquestra de Basie.

 

Frank Foster sofreu um derrame cerebral que comprometeu os movimentos de seu lado esquerdo, encerrando a carreira musical de um dos mais especiais tenoristas do jazz.

 

Benny Powell (tb) Frank Foster (ts) Gildo Mahones (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, May 5, 1954

 

1- Little Red
2- How I Spent The Night
3- Blues for Benny
4- Out Of Nowhere
5- Gracias
6- The Heat’s On
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HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis – Capitol Classics in Jazz – 10’LP H549 (1953)

Em 1949, Miles Davis assinou um contrato com a Capitol para gravar 12 faixas inéditas a serem lançadas em singles em 78 rpm e em um LP 10″ em 331/3 rpm. Para este projeto, Miles convocou 8 músicos com os quais já vinha trabalhando desde o ano anterior, com a supervisão e co-direção musical do amigo e arranjador Gil Evans. Gil, ao lado de Gerry Mulligan, Johnny Carisi e John Lewis, havia composto e arranjado um repertório original e revolucionário em proposta musical e o noneto já se apresentavam em clubes onde o bebop reinava, como o Royal Roost. A música apresentada pelo noneto era uma antítese ao padrão do bebop, de combos pequenos, normalmente sem arranjos elaborados e com o foco voltado para a improvisação sobre temas construídos sob aquela estética. A música produzida pela pena, principalmente, de Gerry Mulligan e Gil Evans trazia ao jazz um padrão de organização que a colocava em curso paralelo com a música de câmara erudita. Mulligan foi o principal artífice do grupo, tendo contribuído com a composição e o arranjo de: Jeru, Venus de Milo e Rocker; e somente como arranjador em: Deception, Godchild e Darn That Dream.

 

Das 12 faixas gravadas, oito foram lançadas neste LP 10″, que mostram três formações com pequenas alterações de pessoal, porém respeitando a mesma morfologia de grupo, em três datas distintas entre 21 de janeiro de 1949 e 9 de março de 1950. A música produzida pelo noneto de Miles Davis, juntamente com a de Lennie Tristano, foi fundamental no desenvolvimento do chamado cool jazz, que obtevo grande aceitação na costa oeste americana na década de 50. O chamado west-coast jazz bebe no Birth of The Cool toda sua inspiração musical que seria desenvolvida em paralelo com o hardbop por toda a década.

PS: Chegamos a postagem número 200 a poucos dias de completar 1 ano e meio de atividades, agradecemos a todos os amigos e apoiadores de nossa proposta editorial. Muito obrigado pelo suporte e paciência.

Miles Davis (tp) Kai Winding (tb) Junior Collins (frh) Bill Barber (tu) Lee Konitz (as) Gerry Mulligan (bars, arr) Al Haig (p) Joe Schulman (b) Max Roach (d) John Lewis (arr)

NYC, January 21, 1949
*Miles Davis (tp) J.J. Johnson (tb) Sandy Siegelstein (frh) Bill Barber (tu) Lee Konitz (as) Gerry Mulligan (bars, arr) John Lewis (p) Nelson Boyd (b) Kenny Clarke (d) John Carisi, Gil Evans (arr)
NYC, April 22, 1949
**Miles Davis (tp) J.J. Johnson (tb) Gunther Schuller (frh) Bill Barber (tu) Lee Konitz (as) Gerry Mulligan (bars) John Lewis (p) Al McKibbon (b) Max Roach (d)
NYC, March 9, 1950
1- Jeru (Denzil Best, arranjo por John Lewis)
2- Moon Dreams (Chummy MacGregor, Johnny Mercer, arranjo por Gil Evans)**
3- Venus De Milo (Mulligan)*
4- Deception (Miles Davis, arranjo por Mulligan)**
5- Godchild (George Wallington, arranjo por Mulligan)
6- Rocker (Mulligan)**
7- Israel (Johnny Carisi)*
8- Rouge (John Lewis)*
 

HotBeatJazz 10′ Series – Art Farmer Quintet – 10’LP PRLP 181 (1954)

O trompetista Art Farmer conheceu o saxofonista alto Gigi Gryce no verão de 1953. Art havia chegado a NYC como membro da orquestra de Lionel Hampton e sua atuação para a gravadora Prestige em uma data do saxofonista californiano Wardell Gray havia impressionado Bob Weinstock, o proprietário. Em julho do mesmo ano, Bob organizava uma sessão com Art Farmer como líder e outros músicos da banda de Hampton. Gravaram quatro temas para lançamento posterior em um 10 polegadas. O último tema gravado destes quatro era “Up In Quincy’s Room”, uma composição de Gigi Gryce em homenagem ao trompetista e arranjador Quincy Jones, colega de estante de Art Farmer na banda de Hampton. Gigi estava trabalhando com Tadd Dameron em Atlantic City e havia se comprometido, além do arranjo para a sua composição, a fazer as transcrições de todas as partes dos músicos. Não havendo tempo para envia-las pelo correio, Gigi as terminou em um ônibus à caminho de NYC para entregá-las em mãos. Desta forma nasceu uma das mais produtivas e perfeitas associações da época, Art Farmer e Gigi Gryce gravariam várias composições que se tornariam obrigatórias em qualquer songbook das mais representativas da época.

 

A amizade entre ambos se fortaleceria quando Gigi Gryce foi incorporado a orquestra de Hampton, uma das mais formidáveis organizações da época, que contava com um naipe de trompetes antológico: Art Farmer, Quincy Jones e o jovem prodígio Clifford Brown. A orquestra faria uma importante temporada na Europa e no seu retorno aos EUA, no final de 1953, Art e Gigi permaneceram por conta própria em Manhattan. Em 1954 iniciaram o quinteto em uma gig no Tiajuana Club, em Baltimore. Gryce compôs uma série de novos temas dotando o quinteto de um material próprio de altíssima qualidade. Mais do que rápidamente Bob Weinstock agendaria duas sessões de gravação com o grupo, acontecidas em maio de 54.

 

A primeira delas, realizada no dia 19, contaria com os dois solistas principais e Horace Silver ao piano, Percy Heath ao contrabaixo e Kenny Clarke na bateria. Foram gravadas quatro composições de Gigi Gryce: A Night At Toni’s, Blue Concept, Deltitnu e Stupendous-Lee. A Night At Tony’s é um perfeito exemplo da capacidade de compositor e arranjador de Gryce, com uma melodia brilhante, simples e direta. Art, Gryce e Silver revelam a técnica e swing que os caracterizou por décadas a fio. Blue Concept é um delicioso blues em tom menor, onde Farmer executa um solo rico em idéias e fluência. Gryce mostra no blues o quanto absorveu de Charlie Parker em estilo e sonoridade. Silver desenvolve seu solo impregnado de alma funky sobre uma pulsação forte de Heath e Kenny Clarke troca fours com os solistas antes da volta ao tema. Stupendous-Lee é um tema que melódicamente nos remete ao jazz da west coast, composição que homenageia o grande saxofonista alto Lee Konitz. Deltitnu é um típico tema bebop, frases rápidas e ágeis impondo o máximo de controle da emissão ao trompete de Farmer.

 

Art Farmer Quintet é uma fantástica sessao de dois grandes músicos do hardbop em uma associação frutífera que perdurou até meados de 56.

 

Vale dar uma conferida no blog Jazz+Bossa+Baratos Outros onde se pode ler uma belíssima resenha sobre Gigi Gryce http://ericocordeiro.blogspot.com/2010/06/escada-e-ponte.html .

 

Art Farmer (tp) Gigi Gryce (as) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, May 19, 1954

 

1- A Night At Tony’s
2- Blue Concept
3- Stupendous-Lee
4- Deltitnu
 

HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis All Stars Vol.1 e 2 – 10’LP PRLP 196 e 200 (1954)


Como discorri no post anterior sobre o quinteto de Miles Davis – Miles Davis Quintet – 10’LP PRLP 187 (1954) – o ano de 1954 foi definitivo na direção musical que Miles seguiria pelos próximos 15 anos. O embrião de seu famoso quinteto estava se formando, porém Miles ainda participava de encontros do tipo All Stars, algo que posteriormente deixaria de fazer para dedicar-se exclusivamente a seu combo. Esta sessão realizada para a Prestige seria a última obedecendo o formato de uma jam à qual Miles participaria, exceção feita a apresentação em julho de 55 no Festival de Newport. Realizada na véspera do Natal de 54, Bob Weinstock colocou em estúdio figuras proeminentes do jazz de então: Miles ao trompete, acompanhado por Thelonious Monk ao piano, Milt Jackson ao vibrafone, Percy Heath ao contrabaixo e o veterano Kenny Clarke na bateria.

 

Cada solista principal teve a oportunidade de apresentar uma composição original, de forma que Monk escolheu seu clássico Bensha Swing, Milt Jackson o inigualável blues Bag’s Groove, e Miles sua pouco gravada Swing Spring. O quarto tema gravado foi o standard The Man I Love, de George e Ira Gerswin. Miles estava em uma de suas melhores fases como instrumentista, frases muito bem pensadas e idéias ligadas com precisão de artífice, faziam de seu trompete uma referência ao lado dos grandes da época como Clifford Brown, Kenny Dorham e, claro, Dizzy Gillespie. O grupo se entrega a longas improvisações para o padrão de gravação em estúdio da época, com as quatro faixas variando de 8 a 11 minutos de duração, e ocupando cada uma um lado inteiro do LP de 10 polegadas. Monk, como sempre, é uma atração a parte, simplesmente deixando de tocar por longo tempo – exemplo, durante o solo de Miles em Swing Spring – para depois atacar mais um de seus instigantes e percussivos solos, com a harmonia típica do mestre que sempre foi. Milt Jackson injeta o blues na veia de todos os temas, uma de suas mais marcantes características como solista.

 

Miles Davis All Stars é um dos grandes acontecimentos de 1954 em matéria de jam session em estúdio, e uma belíssima oportunidade de ouvir Miles em um contexto mais relax.
PRLP 196 Miles Davis All Stars
Miles Davis (tp) Milt Jackson (vib) Thelonious Monk (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d) Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, December 24, 1954

 

1- Bags’ Groove (M. Jackson)
2- Swing Spring (M. Davis)

 

PRLP 200 Miles Davis All Stars, Vol. 2
Miles Davis (tp) Milt Jackson (vib) Thelonious Monk (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d) Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, December 24, 1954

 

1- The Man I Love (G. Gerswin – I. Gerswin)
2- Bemsha Swing (T. Monk)

 

http://ouo.io/UWKIrv

 

HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis Quintet – 10’LP PRLP 187 (1954)

A primeira metade da década de 50 foi um período de busca pessoal e artística para Miles Davis. No campo pessoal ele procurava se livrar da adição em heroína, o que ele conseguiria pela primeira vez ainda em 1950. Artísticamente sua busca consistia em achar um modelo de som e de formação de seu combo, busca esta que iria exigir mais tempo de Miles. De 1950 à 55, Miles testou todos os tamanhos e arquiteturas de formações possíveis. Do noneto do início da década, ainda resultado do Birth of the Cool, até o quarteto básico, Miles procurou todas as possibilidades de expressão para sua música. Tocou com uma verdadeira constelação de músicos: J.J. Johnson, Stan Getz, Tadd Dameron, Lee Konitz, Gerry Mulligan, John Lewis, Fats Navarro, Brew Moore, Art Blakey, Benny Green, Roy Haynes, Kenny Drew, Eddie “Lockjaw” Davis, Billy Taylor, Charles Mingus, Jackie McLean, Walter Bishop Jr, Jimmy Forrest, Don Elliott, Al Cohn, Zoot Sims, Jimmy Heath, Max Roach, Oscar Pettiford, e até mesmo, Charlie Parker, todos estes grandes músicos contribuíram para a música de Miles. Em 1954, Miles começa a achar o rumo que seguiria pelo resto da década e que o levou ao patamar de gigante do jazz. A formação de um quinteto que consistia, além dele, de um saxofonista tenor de estilo forte e agressivo, que contrastasse com seu trompete suave; um pianista que soubesse tocar deixando espaços na música, verdadeiros vácuos harmônicos; e baterista e contrabaixista que se adaptassem a um estilo que ficava a meio caminho do bebop, do hardbop e do cool.

 

Nesta seção de 29 de junho de 1954, esta busca começava a se materializar em um combo com Sonny Rollins ao sax tenor, Horace Silver ao piano, Percy Heath ao contrabaixo, e o veterano Kenny Clark na bateria. Rollins tem importancia fundamental, não só como contraponto ao lirismo de Miles instrumentalmente, mas também, como grande compositor de temas. É o que temos neste 10 polegadas de apenas 4 músicas: 3 originais de Rollins, e um clássico de George Gershwin. Rollins nestas gravações ia se consolidando como um dos mais influentes sax tenores do jazz moderno e um dos compositores mais originais que surgiam nesta efervescente época. Horace Silver, ainda um jovem e promissor talento, entendeu à perfeição o papel que deveria desempenhar na música de Miles, não enchendo os espaços com blocos densos de acordes, mas sim, contribuindo para uma maior flexibilidade rítmica e harmônica do grupo, papel que seria depois brilhantemente executado por Red Garland no quinteto com Jonh Coltrane no tenor. Estas gravações ficaram indelévelmente marcadas na história do jazz, sendo uma mostra do poder musical que arrebataria a todos, um ano depois, com o quinteto definitivo.

 

Miles Davis (tp) Sonny Rollins (ts) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, June 29, 1954

 

1- Airegin (S. Rollins)
2- Oleo (S. Rollins)
3- But Not For Me (G. Gershwin – I. Gershwin)
4- Doxy (S. Rollins)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Thad Jones – The Fabulous 10’LP DLP 12 (1954)

Thaddeus Joseph Jones, mais conhecido como Thad Jones, nasceu em uma numerosa família de Pontiac, Michigan, em 28 de março de 1923. Um dos dez irmãos, entre os quais também se destacaram o mais velho, Hank, pianista, e o caçula, Elvin, baterista. Aprendeu o trompete de forma autodidata e aos 16 anos já atuava profissionalmente em grupos e orquestras de dança locais. Serviu o exército durante a 2° guerra mundial, de 43 a 46, atuando nas bandas da força. Foi em 1954 que sua carreira profissional começou a tomar rumos definitivos. Entrou para a orquestra de Count Basie ocupando uma estante no naipe de trompetes, e também compôs e arranjou para a banda. São seus os solos em algumas das mais populares gravações da orquestra naquele período, como em: April in Paris, Corner Pocket e Shiny Stockins. Permaneceu com Basie até 63. Em 65 organizou, juntamente com o baterista Mel Lewis, uma excelente orquestra. Começaram a tocar no Village Vanguard no ano seguinte, onde durante vinte anos foram a atração fixa das noites de segunda-feira. Após a morte dos líderes a orquestra continuou sob a batuta de John Mosca, e pode até hoje ser vista atuando naquela casa.

 

The Fabulous Thad Jones foi gravado em 1954, para o sêlo Debut, de propriedade do contrabaixista Charles Mingus. Foi sua primeira gravação como líder, e impressionou Mingus de forma significativa, como o próprio escreve nas notas de contra-capa do LP: “Thad é o maior trompetista que já escutei tocar. Ele utiliza todas as técnicas clássicas, e é o primeiro cara a fazê-las suingar. Seu irmão Elvin, é tão bom quanto na bateria. Os músicos chamam Thad de: O messias do trompete. Thad é bom demais pra que eu possa acreditar. Ele faz coisas que Dizzy Gillespie e Fats Navarro fizeram com dificuldade no trompete. Me refiro as coisas que eles quase não conseguiam executar, embora você ainda os respeitasse porque sabia que outros nem mesmo tentariam faze-las. Coisas que Miles nunca fez. Coisas que Dizzy ouviu Parker fazer, e que Fats Navarro nos fez acreditar que eram possíveis de se fazer…. Thad, é um Bartok em instrumento de válvulas, e sua escrita, é guiada diretamente por Deus.” Depois desta opinião sobre Thad, emitida por um dos maiores músicos que o jazz já viu, este escriba humildemente exime-se de acrescentar qualquer opinião que por ventura ainda tenha.

 

O grupo que acompanha Thad Jones é absolutamente impecável: seu irmão, Hank, ao piano; o saxofonista Frank Wess, parceiro de Thad na orquestra de Basie; o patrão, Charlie Mingus, no contrabaixo; e o pai da bateria bop, Kenny Clarke.

 

Illusive, escrita por Thad, é uma composição de alta complexidade. É uma composição baseada em blues, porém, com uma estrutura não convencional e altamente criativa. O solo de Thad é límpido e inspirado, o piano de Hank é sempre lírico e carregado de técnica e categoria. Frank Wess é um saxofonista diretamente ligado a escola de Lester Young, na orquestra de Count Basie era esta a sua função.

 

Sombre Intrusion, também de Thad, é uma composição que nos remete à algumas produzidas por Thelonious Monk, sombria e bela. O som cheio e vigoroso de Thad, se superpõe ao ensemble, que tem Frank Wess atuando na flauta, instrumento no qual foi um especialista. Hank Jones executa uma introdução e um interlúdio carregados de emotividade.

 

You Don’t Know What Love Is, é veículo integral para o trompete do líder, que a executa de modo sensível e melancólico. A interpretação de Thad para este standard é, para mim, definitiva.

 

Bitty Ditty, outra composição da pena de Thad, reverte o clima para algo alegre e ensolarado. Mingus executa uma criativa linha de baixo, produzindo acentuações repletas de swing em suporte aos solos e também em sua própria improvisação.

 

Chazzanova, é uma composição de Mingus, e como tal, nada de convencional. Uma balada repleta de surpresas melódicas. Mingus sempre possuiu esta inata capacidade, a de não escrever nada óbvio ou previsível. Thad e Frank Wess se estimulam mútuamente durante toda a execução.

 

O outro standard da sessão, I’ll Remember April, encerra o álbum de forma descontraída e relaxada. Após breve introdução de Hank, Thad expõe o tema de forma criativa e plena em técnica, antes de sua improvisação, que atesta o quanto foi negligenciado pelos críticos e escritores especializados.

 

Thad Jones foi uma verdadeira escola no seu instrumento, mas que ficou em segundo plano visto seu imenso talento para arranjar e dirigir orquestras. Algo semelhante ao que aconteceu a Oliver Nelson e alguns outros exímios instrumentistas, ofuscados pela própria diversidade de talentos e atribuições. Thad faleceu aos 63 anos, em 21 de agosto de 1986.
Thad Jones (tp) Frank Wess (ts, fl) Hank Jones (p) Charles Mingus (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, August 11, 1954

 

1- Elusive (Illusive)
2- Sombre Intrusion
3- You Don’t Know What Love Is
4- Bitty Ditty
5- Chazzanova
6- I’ll Remember April
 

HotBeatJazz 10′ Series – Art Farmer PRLP 177

Estamos inaugurando com esta postagem uma série organizada e produzida pelo próprio HotBeatJazz, com o intuito de recriar um pouco da história e do romantismo vividos pelo jazz em décadas passadas. Estaremos lançando recriações dos antigos LP’s de 10 polegadas, formatados inteiramente como foram editados na ocasião, com suas capas originais e obedecendo rigorosamente a mesma ordem de músicas. Esperamos com esta iniciativa dar uma contribuição à memória fonográfica de tempos mais românticos, quando havia de levantar-se do sofá para virar o lado do disco, ou então, empilha-los em toca-discos automáticos, produzindo deliciosos arranhões que se transformavam em chiadeiras indissociáveis do prazer da escuta.

 

Voltemos ao passado, com nosso primeiro LP 10 polegadas da série!

 

 

O trompetista Art Farmer gravou em 1954, pela Prestige, como líder de um quinteto muito especial que contava com a presença do grande saxofonista Sonny Rollins, do pianista Horace Silver, do contrabaixista Percy Heath, e de Kenny Clarke na bateria.

 

Foi um LP curto em termos de tempo de música gravada, mesmo para os padrões da época que possibilitavam até 12 minutos por face, com apenas 4 temas totalizando 9 minutos em cada lado.

 

Wisteria, uma bela balada que não conta com a participação de Sonny Rollins, sendo veículo para as qualidades do trompete extremamente lírico de Art Farmer.

 

Soft Shoe tem o tema exposto em perfeito uníssono entre Farmer e Rollins. Farmer abre seu solo com uma citação de The lady is a Tramp, o piano de Silver é impregnado de sentido bop e seus blocos de acordes de sustentação dos solistas são impecávelmente construídos. Rollins tem um solo arrebatador em economia e síntese antes de voltarem ao tema para o encerramento.

 

Confab In Tempo é um tema típicamente bebop, de andamento acelerado, onde Rollins é o primeiro a solar com extremo domínio da sintaxe do estilo. Farmer faz seu solo inteiramente em stacatto com um perfeito controle da emissão. Silver mostra conhecer bem o trumpet-piano style em breve participação antes do solo do mestre Kenny Clarke, o homem que construiu a ponte entre o swing e a bateria moderna bop.

 

I’ll Take Romance encerra este curto LP 10 polegadas com Farmer mostrando seu estilo pessoal, que o fazia diferente dos trompetistas da época, sempre muito calcados em Gillespie ou Fats Navarro. Rollins em seus primeiros anos já se mostrava um músico de estatura, embora ainda fosse desenvolver um estilo mais pessoal no decorrer dos anos. Tinha ele nesta época um timbre bem mais domesticado do que o que passou a desenvolver a partir da década de 60.

 

Este quinteto organizado por Bob Weinstock para dar suporte ao delicioso trompete de Art Farmer ficou marcado como um dos grandes combos organizados em 1954, um ano de concorrência acirrada, visto o surgimento do explendoroso quinteto de Art Blakey com Clifford Brown em fevereiro e o mesmo Clifford iniciando seu quinteto com Max Roach em abril.

 

Art Farmer (tp) Sonny Rollins (ts -2/4) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d) Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, January 20, 1954

 

1- Wisteria (take 552)
2- Soft Shoe (take 553)
3- Confab In Tempo (take 554)
4- I’ll Take Romance (take 555)