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Serge Chaloff Quartet – Blue Serge (1956)

Um homem de grande estatura adentra o estúdio de gravação da Capitol amparado por uma cadeira de rodas. Coloca-se diante do microfone, préviamente preparado a uma altura adequada, e um grande estojo negro é aberto. Com alguma dificuldade, Serge Chaloff monta as partes que compoem o imenso e pesado sax barítono que o acompanha desde que começou a aprende-lo de forma autodidata, ainda em Boston, onde nasceu em 24 de novembro de 1923. Pede que ajustem as luzes para uma intensidade mínima, mas que seja adequada aos engenheiros de áudio e auxiliares a executarem suas tarefas corriqueiras a uma sessão de gravação. Serge tem, neste 14 de março de 1956, 32 anos de idade. Seus movimentos estão sériamente comprometidos em decorrência de um tumor na medula recentemente diagnosticado. Ele está prestes a começar a gravar seu, possívelmente, último álbum como líder. E ele sabe disso.

 

Podemos imaginar, sem muito esforço, que naquele momento um rápido e alucinante filme de toda sua vida tenha percorrido, em sinapses intensas, sua mente. Seus primeiros anos de vida, quando manteve contato prematuro com a música através de seu pai, pianista da Orquestra Sinfônica de Boston, e de sua mãe, professora de música do conservatório da mesma cidade. Suas primeiras lições de piano e clarinete, instrumentos em que teve uma instrução formal. O deslumbramento pela sonoridade vigorosa do saxofone barítono de Harry Carney e Jack Washington, suas primeiras influências. Seu primeiro trabalho profissional como músico com Boyd Raeburn, e logo depois com Georgie Auld. A primeira orquestra de renome da qual participou, a de Jimmy Dorsey. Os acontecimentos vertiginosos dos últimos 10 anos, quando depois de participar da banda de Woddy Herman, como um dos Four Brothers, ao lado de Stan Getz, Herbie Stewart e Zoot Sims, foi reconhecido como um dos mais importantes baritonistas do bebop. Deve ter se lembrado dos anos negros que viveu vítima da adição em heroína, que o fizeram ficar estigmatizado temporáriamente como persona non grata no meios musicais. Com certeza, se lembrou de sua primeira sessão como líder para a Savoy, ao lado de Red Rodney, Earl Swope, George Wallington, Curley Russell e Tiny Kahn. Lembrou de sua volta para Boston, decorrência da falta de trabalho provocada por sua fama de junkie. Mas também lembrou-se da volta por cima, e dos trabalhos realizados ao lado de Bud Powell, Charlie Mariano, Herb Pomeroy, e do grande amigo Boots Mussulli.

 

Agora ele estava ali, na Capitol, sob os auspícios da produção do grande Stan Kenton, para fazer, talvez, seus últimos discursos. Está prestes a liderar um trio formado pelo magistral pianista Sonny Clark, o seguro contrabaixista Leroy Vinnegar, e a bateria mais requisitada do momento, a de Philly Joe Jones. O repertório já está decidido: seis standards e dois originais, sendo estes, um de sua autoria, um blues entitulado Susie’s Blues, e o outro do amigo Al Cohn, The Goof And I.

 

A Handful Of Stars, é exposta em andamento médio, com Chaloff explorando toda a extensão de seu instrumento. Dos registros mais graves aos agudos, Chaloff mantém sempre um timbre acurado, que sómente um músico de extremos recusros técnicos seria capaz de faze-lo. Sonny Clark particpa com um solo econômico em notas e seu acompanhamento minimalista nos remete ao piano de um Count Basie. Vinnegar é dono de um timbre especial, e suas frases tem sempre uma lógica impecável. Ele, Sonny e Serge fazem trocas de oito compassos estimulantes com Philly Joe antes de voltarem ao tema para o encerramento.

 

The Goof And I, de Al Cohn, é puro bebop. Sonny é o primeiro a solar em um fraseado que é amálgama de Bud Powell e Basie. Chaloff no bebop é simplesmente imbatível. Inexiste o problema da grande inércia no fraseado, oriunda do volume de ar a ser movido no sax barítono. Serge faz, por vezes, seu imenso instrumento soar na velocidade e fluidez de um sax alto. Nunca ouvi nada semelhante em um barítono.

 

A balada Thanks For The Memory, que em virtude do drama pessoal por que passava o líder, parece-nos hoje algo de epitáfico, é executada com uma carga emocional ímpar. Uma dosagem perfeita da dinâmica e do vibrato, faz Serge extrair o máximo em introspecção e passionalidade deste belo tema.

 

All The Things You Are, o standard preferido por 11 em 10 músicos do bebop, é inteiramente dissecada por Chaloff, que a executa com uma sintaxe que beira a perfeição. Sonny Clark não deixa a peteca cair nem 1 milímetro, em uma quase extensão do pensamento de Chaloff. Vinnegar produz um solo altamente melódico, não se desviando muito da melodia, e sendo impecávelmente sustentado por acordes de Clark. O líder expõe o tema para o encerramento de forma breve e altamente lírica.

 

Em I’ve Got The World On A String, de Harold Arlen, Chaloff faz novamente da dinâmica o ponto alto. Seu solo tem a sonoridade de um sax tenor, as idéias musicais uma originalidade de gênio. É o tema de maior duração do álbum, beirando os 7 minutos.

 

O original Susie’s Blues, um riff de 16 compassos em andamento acelerado, é veículo para mais fraseados em sintaxe bop do líder e do pianista Sonny Clark. Vinnegar constrói um vigoroso walkin bass antes das trocas de fours entre o quarteto.

 

A balada Stairway To The Stars, parece mais uma escolha profética de Chaloff. Lirismo e paixão são a tônica do fraseado do saxofonista. Ecos de Ben Webster podem ser percebidos. O solo de Sonny Clark é um verdadeiro tratado sobre beleza.

 

How About You encerra o álbum de forma positiva e energética. Quem a ouve, não pode ao menos supôr que o dono do fraseado vigoroso do barítono é, na verdade, um homem que passa por sérias limitações e dificuldades físicas.

 

A doença de Chaloff evoluiu rápidamente, o levando a falecer 14 meses após esta sessão de gravação, que se tornou seu canto do cisne. O jazz possuiu vários grandes saxofonistas barítono: Gerry Mulligan e sua extremamente bela concepção harmônica, Pepper Adams e seu estilo vigoroso de hardbop, Cecil Payne e seu estilo altamente fluido e bopper, Sahib Shihab um mestre em toda a linha de instrumentos de palheta; enfim uma grande gama de visões e concepções de uso deste membro da família dos saxofones. Todos foram grandes, gênios a seu modo. Mas Serge Chaloff ocupa um lugar especial e único no mundo do jazz. E Blue Serge ocupa, com louvor, um lugar entre as gravações antológicas e fundamentais na história desta maravilhosa forma de arte.
Serge Chaloff (bars); Sonny Clark (p); Leroy Vinnegar (b); Philly Joe Jones (d)
Capitol Studios, Melrose Avenue, Los Angeles, CA, March 14, 1956

 

1- A Handful Of Stars (Lawrence, Shapiro)
2- The Goof And I (Cohn)
3- Thanks For The Memory (Rainger, Robin)
4- All The Things You Are (Hammerstein, Kern)
5- I’ve Got The World On A String (Arlen, Koehler)
6- Susie’s Blues (Chaloff)
7- Stairway To The Stars (Malneck, Parish, Signorelli)
8- How About You (Freed, Heusen, Lane)

 

http://ouo.io/r71gEX

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Frank Morgan – With Conte Candoli & Machito’s Rhythm Section (1955)

Frank Morgan tem em sua biografia uma das histórias mais trágicas e inacreditáveis do jazz. Filho do guitarrista Lanny Morgan, Frank nasceu em 1932 e ainda jovem se mostrava um talentoso clarinetista. Na adolescência incluiu o sax alto como seu principal instrumento influenciado pelo bebop, a revolução musical que Charlie Parker e outros produziam em New York. Morava em Los Angeles quando aos 15 anos foi convidado por Duke Ellington a se incorporar a banda, seu pai desfez o sonho, queria que o filho terminasse os estudos antes que saísse em turnês. Porém aos 17 já atuava em L.A. acompanhando cantoras como Josephine Baker e Billie Holiday. Músico ativo na cena bop da Califórnia, começou a participar de gravações com o vibrafonista Teddy Charles (1953), Kenny Clarke (1954) e em seu próprio nome na gravadora de Gene Norman (1955). Desgraçadamente, nesse período começou seu hábito de consumir a heroína tal qual seu ídolo maior, Parker. Morgan declarou anos depois em depoimento: “Naquela época, eu e muitos outros jovens músicos acreditávamos que, se queríamos tocar como Bird teríamos que viver como ele. Isso incluía, claro, as bebidas e as drogas pesadas.” A partir daí começava seu calvário. Foram 30 anos de carreira interrompida em virtude de prisões e condenações pelo vício. A carreira foi negligenciada mas não a música. Juntamente com seu colega de infortúnio, o também saxofonista Art Pepper, chegou a montar grandes orquestras dentro do sistema penitenciário. Segundo Frank, em San Quentin ele liderou uma das melhores orquestras com o qual já tocou. Essa é a parte trágica da história, a inacreditável é que mesmo depois desse longo hiato Frank voltou a cena musical, retomando a carreira 30 anos depois do início do flagelo com as drogas. Em 1985 resurgiu no meio e mantém uma carreira de grande sucesso até hoje.
O álbum de que trata o post foi gravado em 1955, ao lado de um grande trompetista da west coast, Conte Candoli e nas quatro primeiras faixas, de músicos da orquestra de latin jazz de maior sucesso da época, Machito. É uma sessão de verdadeiro bebop, lembrando o celebrado disco de Parker, com a orquestra de Machito, South Of The Border. Nas seis faixas seguintes, também com Candoli, a presença notável é a do sax tenor de Wardell Grey, músico que infelizmente não sobreviveu as drogas, foi encontrado morto no deserto de Nevada, assassinado por traficantes locais. Nas cinco últimas faixas Candoli é substituído por Jack Sheldon, músico sem o brilho do primeiro mas também de excelente qualidade. O álbum é todo uma grande aula de bebop, com Morgan e Candoli mostrando que absorveram tudo de seus mestres/gurus, Charlie Parker e Dizzy Gillespie.
tracks 1 – 4: frank morgan (as); conte candoli (tp); wild bill davis (org); bobby rodriguez (b); rafael miranda (d, cgas); jose mangual (bongos); ubaldo nieto (timbales)
tracks 5 – 10: frank morgan (as); conte candoli (tp); wardell gray (ts); howard roberts (g); carl perkins (p); leroy vinnegar (b); lawrence marable (d)
tracks 11 – 15: frank morgan (as); jack sheldon (tp); james clay (ts, fl); bobby timmons (p); jimmy bond (b); lawrence marable (d)
1- bernie’s tune
2- i’ll remember april
3- chooch
4- whippet
5- my old flame
6- neil’s blues
7- the champ
8- the nearness of you
9- milt’s tune
10- get happy
11- crescendo blues
12- huh!
13- autumn leaves
14- well you needn’t
15- BT