RSS

Arquivo da categoria: Luiz Chaves

Casé – In Memoriam (1979) – Brazilian Jazz Quartet – Coffe And Jazz (1958)


A primeira e única vez em que vi Casé foi em 1978, em uma cantina italiana em Petrópolis, que funcionava em cima de um posto de gasolina. Isto foi em Março ou Abril. Ele havia sido convidado, junto com outros músicos de sampa, para tocar por algumas semanas, pelos donos do local, dois irmãos, italianos, músicos, que na década de 50 trabalharam em várias orquestras de São Paulo. Um deles, o saxofonista tenor Nino, havia sido colega de estante de Casé juntamente com Hector Costita. Casé chegou acompanhado do contrabaixista Bandeira e do pianista Dias. Eu, um adolescente de 16 anos na época, lembro-me como se fosse hoje do encanto que foi ver aqueles dois saxofones tocando melodias que já conhecia por intermédio de meu pai, desnecessário dizer que naquela época eu era um inveterado roqueiro. Esta experiência mudou radicalmente os rumos de minha vida. Casé ficaria 1 mes por lá se apresentando nos fins de semana. No próximo sábado lá estava eu subindo a serra para nova audição. Lá chegando vi Dias ao piano, Bandeira em seu suntuoso baixo acústico, Nino solando ao tenor, Rafael, seu irmão a bateria, mas nada daquele músico franzino, calado, que 1 semana antes havia me transformado ao solar Stardust, Body and Soul, All of Me, e várias outras canções que já tinha ouvido, invariavelmente em arranjos bregas, tipo Georges Mellachrino ou Clebanoff. Perguntei a Nino onde estava aquele outro saxofonista e ouvi a resposta taxativa: “O Casé não esquenta lugar, voltou para São Paulo”. Meses depois, soube pelo mesmo Nino, que Casé havia sido encontrado morto no quarto do hotel em que vivia na Boca do Lixo, em sampa. Mais alguns meses e eu compraria, feliz, em uma loja de discos no centro da cidade este Lp, “Casé In Memoriam”. Eu ainda nem fazia idéia que este Lp era um relançamento do célebre “Coffe And Jazz” do “Brazilian Jazz Quartet”, uma das mais antológicas gravações de jazz realizada no Brasil. Foi gravado em 1958 pela Columbia, com Casé acompanhado pelo pianista Moacyr Peixoto – um dos irmãos do Cauby, e pelos futuros integrantes do Zimbo Trio: o contrabaixista Luis Chaves e o baterista Rubens Barsoti. Eu também não fazia a mínima idéia que aquele saxofonista alto, que havia me encantado e mudado meus paradigmas musicais meses atras, tocava em um estilo muito parecido com Lee Konitz.
Eu também não sabia que levaria 31 anos até que eu pudesse conhecer a história da vida daquele músico especial, algo que só ocorreu graças ao magnífico empreendimento do jornalista Fernando Lichti Barros, que em um incasável trabalho reuniu em um blog um ensaio biográfico de Casé. Recomendo a todos que se interessam pela memória dos músicos brasileiros que visitem em http://saxofonistacase.blogspot.com/ . Eu também não sabia que lamentaria tanto, só te-lo visto, escutado e conhecido aos 45 do segundo tempo de sua brilhante carreira como músico. Hoje completamos 31 anos de saudade deste magnífico músico. Obrigado Casé, por ter mudado minha vida!

Casé (Jose Ferreira Godinho Filho) – sax alto; Moacyr Peixoto – piano; Rubens Barsotti (Rubinho) – bateria; Luiz Chaves – contrabaixo
1- The Lonesome Road
2- When Your Love has Gone
3- Cop-out
4- Black Satin
5- Making Whoopee
6- No Moon at All
7- Old Devil Moon
8- Don’t Get Around Much Any More
9- You’d Be So Nice to Come Home To
10- I’ll Close my Eyes
11- Alone
12- Too Marvelous for Words
Anúncios
 

Zimbo Trio – Convida Sonny Stitt (1979)

Com “Zimbo Convida Sonny Stitt”, gravado em 1979, completo a trilogia dos álbuns que em minha opinião foram os melhores do grupo em toda sua existência. O Zimbo, ao contrário do que sugere o título, foi convidado a ser o grupo de apoio do veterano saxofonista americano em sua turnê pelo Brasil. O resultado é o que se pode esperar de uma reunião dessa ordem, repertório baseado em standards do jazz, bossa nova, bebop e originais do saxofonista. Stitt foi, talvez, o saxofonista com sonoridade e fraseado mais parecido com o ícone do bop, Charlie Parker. Não que isso signifique que ele tenha sido apenas um emulador do som de Bird, absolutamente. Sonny sempre foi defrontado pela crítica com esse fato e várias vezes declarou que quando ouviu Parker pela primeira vez, ainda com Bird tocando na orquestra de Jay McShan, levou um susto tal a semelhança de estilos. Sonny Stitt era alguns anos mais velho que Bird e foi um músico iniciado ainda no período do swing. Tornou-se um dos nomes de peso do bebop, gravando alguns discos importantes com ninguem menos que Dizzy Gillespie, o outro co-fundador do estilo ao lado de Parker. Apesar de minha admiração tanto por Stitt quanto pelo Zimbo, nesse álbum nota-se que enquanto o primeiro flui o fraseado pela estética do bop, o Zimbo fica um tanto amarrado em uma estética do swing. Nada que faça do álbum um desacerto. Amilton Godoy parece ser o mais a vontade graças a influência de um Oscar Peterson em seu estilo, Luiz Chaves e Rubinho não mostram muita intimidade com a caracteristica das acentuações rítmicas do bop, principalmente no trabalho com o bumbo e a caixa e as linhas do walking bass. Mas esses são detalhes só percebidos pelos ouvidos dos já iniciados, para um público mais geral o disco é uma agradável sessão de jazz com músicos de alto gabarito em suas respectivas estéticas. À lamentar mesmo é a péssima prensagem do vinyl, fato corriqueiro nos produtos da antiga Continental e uma mixagem estranha para os acostumados ao padrão Rudy Van Gelder. Noves fora, um encontro histórico de grandes músicos brasileiros e um nome importante no saxofone jazz.
Sonny Sttit (as, ts); Amilton Godoy (p); Luiz Chaves (b); Rubens Barsotti (d)
1 – Hope’s Blues (Stitt)
2 – Corcovado (Tom Jobim)
3 – There you will never be another you (Warren – Gordon)
4 – Little Sued Shoes (C Parker)
5 – Autumm Leaves (Parsons – J.Prever – J.Kosma – Mercer)
6 – Samba do Orfeu (Antonio Maria – Luis Bonfa)
7 – Blues for Gaby (Stitt)
 
 

Zimbo Trio – Zimbo (1978)

O Zimbo Trio irá completar 45 anos de carreira agora em 2009, e o blog irá, durante o ano, mostrar alguns de seus álbuns mais significativos de uma carreira não só longeva mas vitoriosa. Zimbo, gravado em 1978, faz parte de um período em que o trio deixava de ser apenas mais um, entre tantos, trio de bossa-nova para dar ênfase a um enfoque de combo jazzístico. Desnecessário frisar que o repertório continuava a privilegiar a música brasileira porém com uma pegada mais universal nos arranjos. Isso fica evidente logo no primeiro tema, “Raça”, de Milton Nascimento, com uma levada incendiária do baterista Rubinho e do contrabaixista Luiz Chaves. “Lamento”, de Pixinguinha, traz o trio acrescido de um naipe de palhetas. “No Balanço do Vovô”, de Luiz Chaves, o mote são os ritmos do norte brasileiro tão familiares ao compositor, egresso de Belém do Pará, com pitadas de caribe. Destaque para a guitarra genial de Heraldo do Monte, velho colabrorador do grupo. “Voltando Pra Casa”, de Rubens Barsotti, é um lindo e lírico tema tambem em formação de quarteto com Heraldo. Em “Caça à Raposa”, de João Bosco, novamente o naipe de palhetas faz belos ornamentos para as improvisações do Zimbo e de Heraldo. “O Batráquio”, de Amilton Godoy, é um clássico do repertório do grupo, samba-jazz da melhor qualidade com groove alucinante do baterista Rubens Barsotti. “Giselle”, é um chorinho de autoria de Heraldo do Monte, reforça que, apesar de universal, a música do Zimbo nunca descola o pé de sua terra. “Bebê”, de Hermeto Paschoal, traz o Trio em um de seus arranjos mais apreciados, a introdução e a coda são perfeitos exemplos da qualidade do arranjador Amilton Godoy. O álbum encerra em clima brasileirissimo com “Frevo Rasgado”, de Gilberto Gil.
Tudo que se possa dizer sobre a qualidade do Zimbo Trio sempre será pouco ante a evidente exuberância de sua música. Luiz Chaves já não está entre nós, mas o Zimbo permanece em plena atividade, melhorando sempre, como se isso ainda fosse possível. Vida longa ao ZIMBO TRIO!!!
Amilton Godoy (piano); Rubens Barsotti (bateria); Luiz Chaves (contrabaixo);
convidados: Heraldo do Monte (guitarra); Eduardo Pecci “Lambari” (clarinete); Isidoro “Bolao” Longano (sax soprano); Carlos Alberto (flauta)
01 – Raça (Milton Nascimento / Fernando Brant)
02 – Lamento (Pixinguinha / Vinicius de Moraes)
03 – No Balanço do Vovô (Luis Chaves)
04 – Voltando Para Casa (Rubens Barsotti)
05 – Caça a Raposa (João Bosco / Aldir Blanc)
06 – O Batraquio (Amilton Godoy)
07 – Giselle (Heraldo do Monte)
08 – Bebe (Hermeto Pascoal)
09 – Frevo Rasgado (Gilberto Gil)
 

Zimbo Trio – Zimbo (1976)

Um dos mais importantes grupos instrumentais do Brasil, o Zimbo Trio, formado por Luiz Chaves (baixo), Amilton Godoy (piano) e Rubens Barsotti (bateria), sempre esteve na vanguarda da música brasileira desde seu surgimento ainda no início da década de 60. Neste álbum, gravado em 1976, o Zimbo é acrescido de dois músicos luminares, Hector Costita (sax, flauta) e Heraldo do Monte (guitarra). Na minha opinião esse foi o melhor trabalho do grupo em seus quase 45 anos de estrada, opinião compartilhada por Carlos Piratininga, que escreveu na contracapa: “Quem ficou algum tempo sem acompanhar de perto a carreira do Zimbo Trio, vai tomar um susto com este disco”. Com uma proposta musical diferenciada e uma pegada groovy-jazzy, o quinteto detona competência e criatividade executando músicas de Milton Nascimento “Fé Cega Faca Amolada” e “Viola Violar”, temas compostos pelos integrantes como “Tudo Bem”, “Brincando”, “Laurecy, Até Já”, “Vai de Aracajú” e “Poliedro” – composição de Tito. Um trabalho imperdível.

Luiz Chaves (baixo), Amilton Godoy (piano), Rubens Barsotti (bateria)
Participação especial: Hector Costita (sax, flauta) e Heraldo do Monte (guitarra)
1- Fé Cega Faca Amolada
2- Tudo Bem
3- Brincando
4- Vai de Aracajú
5- Viola Violar
6- Poliedro
7- Laurecy, Até Já