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Arquivo da categoria: Percy Heath

HotBeatJazz 10′ Series – Frank Foster Quintet – Here Comes BLP 5043 (1954)

Frank Benjamin Foster nasceu em Cincinnati, Ohio, em 23 de setembro de 1928. Após ter se dedicado ao estudo do saxofone e clarinete no High School e na Wilberforce University, mudou-se para Detroit em 1949, onde tocou com Wardell Gray, importante tenorista da banda Count Basie. Convocado para servir ao exército em 1951, permaneceu longe do meio musical até maio de 1953, quando foi desligado da força. Logo após foi contratado por Count Basie, seguindo recomendações com a chancela de nomes importantes como Ernie Wilkins e Billy Eckstine. Frank iniciou seu trabalho com a orquestra em julho de 1953, sua importância para o grupo foi de tal ordem que assumiu a direção musical da banda ainda nos anos cinquenta e sua direção após a morte de Basie nos anos oitenta. O jovem Frank assumiu, com dignidade e competência, a tradição da estante de sax tenor de uma orquestra que já havia contado com Lester Young, Herschell Evans e Don Byas.

 

O som de Frank Foster traz em seu corpo a energia e vigor da escola de Coleman Hawkins e o lirismo e modernidade da de Lester Young. Frank foi um dos mais completos saxofonistas do jazz, não obtendo entre o público em geral o valôr e reconhecimento. Ele foi uma referência no som de importantes tenoristas do jazz moderno, tais como Benny Golson e John Coltrane. Possui também um enorme talento para a confecção de modernos arranjos e originais composições.

 

Frank Foster gravou sua primeira sessão como líder para a Blue Note em maio de 1954, a frente de um quinteto integrado pelo excelente trombonista Bennie Powell, o pianista Gildo Mahones, e soberba seção rítmica com o contrabaixista Percy Heath e o baterista Kenny Clarke. Cinco entre as seis composições do álbum atestam a capacidade especial de Foster como compositor. Little Red é um tema de altíssimo suingue, com solos de Foster, Powell, Mahones e Clarke. How I Spent The Night é uma balada de melodia impecável, uma amostra inconteste da superior capacidade do líder como compositor. Blues For Benny tem no drive imposto por Kenny Clarke uma atração à parte. O standard Out Of Nowhere mostra o baladista de frases inteligentes e originais que é Frank Foster. Gracias é uma rumba de melodia muito atraente, com um trabalho consistente de todo o quinteto. The Heat’s On é um blues em dó com andamento médio, uma composição típica para um músico com tão longa associação com a orquestra de Basie.

 

Frank Foster sofreu um derrame cerebral que comprometeu os movimentos de seu lado esquerdo, encerrando a carreira musical de um dos mais especiais tenoristas do jazz.

 

Benny Powell (tb) Frank Foster (ts) Gildo Mahones (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, May 5, 1954

 

1- Little Red
2- How I Spent The Night
3- Blues for Benny
4- Out Of Nowhere
5- Gracias
6- The Heat’s On
 

HotBeatJazz 10′ Series – Lee Konitz – Stan Getz – The New Sounds 10’LP PRLP 108 (1949-50)

Uma prática corriqueira no início dos anos 50 com a adoção do formato 10 polegadas foi a edição de compilações de gravações realizadas ainda no período dos 78 rotações. Lee Konitz and Stan Getz, da gravadora Prestige, foi uma dessas compilações. Trazendo no lado A quatro temas interpretados pelo quinteto do saxofonista alto Lee Konitz e no lado B quatro outras com o quarteto do saxofonista tenor Stan Getz.

 

Lee Konitz foi um dos mais importantes saxofonistas do final dos anos 40 e início dos 50. Egresso do núcleo de músicos que transitavam em torno do pianista Lennie Tristano, Konitz foi um dos mais atuantes colaboradores do cool-jazz, tendo sido integrante fixo do quinteto de Tristano, membro do noneto de Miles Davis e também como líder de seu próprio combo. Nestas faixas gravadas em abril de 1950, Konitz se apresentava ao lado do pianista Sal Mosca; do guitarrista Billy Bauer, do contrabaixista Arnold Fishkin, ambos também integrantes do quinteto de Tristano, e do baterista Jeff Morton. A música produzida é um dos mais perfeitos exemplos da forma cool de se fazer jazz, um contraponto ao dominante bebop. Konitz realiza uma música quase etérea, sem formas melódicas muito delineadas, onde apenas em algumas partes o ouvinte se depara claramente com a melodia do tema. Enquanto o bebop rompeu com a forma tradicional de acentuação do beat, o cool voltava a trazer uma marcação mais homogênea, porém, com a bateria limitada a produzir uma espécie de textura rítmica. O timbre de Konitz soa frágil, delicado, e a guitarra de Billy Bauer conduz a harmonia com uma perfeita escolha de acordes, sempre muito alterados e dissonantes. O repertório seleionado trazia três originais de Konitz e o standard You Go To My Head, onde somente no primeiro chorus o ouvinte reconhece a melodia do tema. Essas quatro faixas são exemplos maiúsculos de como os instrumentistas egressos da escola de Tristano faziam uma música que beirava o experimentalismo.

 

No lado B, o quarteto de Stan Getz em duas sessões realizadas em junho de 1949 e abril de 1950. Ao lado do mais cool dos saxofonistas tenores da época, o inseparável pianista Al Haig, o contrabaixista Gene Ramey e o baterista Stan Levey, nas faixas de 49; e o pianista Tony Aless, o contrabaixista Percy Heath e o baterista Don Lamond, nas faixas de 50. A música produzida, apesar de nítidamente cool, ainda mantinha uma ligação mais robusta com o swing e o bebop. Sendo Levey um baterista típico do bebop, sua condução fornece uma pulsação mais definida, porém, respeitando os canones do cool-jazz, o mesmo se pode dizer do desempenho de Lamond.

 

New Sounds traz dois dos mais importantes músicos do cool-jazz em gravações definitivas para quem deseja entender o gênero.
Lee Konitz (as) Sal Mosca (p) Billy Bauer (g) Arnold Fishkin (b) Jeff Morton (d)
NYC, April 7, 1950

 

*Stan Getz (ts) Al Haig (p) Gene Ramey (b) Stan Levey (d)
NYC, June 21, 1949

 

**Stan Getz (ts) Tony Aless (p) Percy Heath (b) Don Lamond (d)
NYC, April 14, 1950

 

1- Lee Konitz Quintet – Rebecca
2- Lee Konitz Quintet – You Go To My Head
3- Lee Konitz Quintet – Ice Cream Konitz
4- Lee Konitz Quintet – Palo Alto
5- Stan Getz Quartet – You Stepped Out of a Dream**
6- Stan Getz Quartet – Wrap Your Troubles in Dreams**
7- Stan Getz Quartet – Indian Summer*
8- Stan Getz Quartet – Crazy Chords*
 

HotBeatJazz 10′ Series – Lou Donaldson Quartet / Quintet – New Faces New Sounds 10’LP BLP 5021 (1952)

O saxofonista Lou Donaldson faz parte da imensa quantidade de músicos de jazz que aperfeiçoaram seus talentos durante o período da II Grande Guerra Mundial. Servindo na Marinha, Lou pôde desenvolver-se no saxofone alto enquanto integrande de uma das inúmeras banda da corporação. Nascido na Carolina do Norte em 1926, filho de um pastor e de uma professora de música, Lou iniciou na clarineta tomando lições com a própria mãe. Em 1944 entra para o serviço militar e lá passa a ganhar experiência em tocar com orquestra. Foi por esta época que ele sofreu a profunda influência de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, aprendendo rápidamente a sintaxe bop, e chegando inclusive a tocar com a banda de Gillespie quando esta se apresentou em Greensboro. Encorajado pelo próprio Gillespie, Lou foi pra NYC em 1950 e cumpriu o vestibular de todo aspirante a partícipe da cena jazzística, tocou em vários clubes em incontáveis jams: Minton’s, Birdland, Le Downbeat e The Paradise. Nesses locais pôde tocar com grandes nomes da cena como: Charlie Parker, Bud Powell, Sonny Stitt, entre outros.

 

Em 1952, Lou já contava com um contrato com a Blue Note, gravadora onde gravaria dezenas de álbuns durante toda sua longeva carreira. Fazendo parte da série New Faces New Sounds, Lou gravou duas sessões com meses de intervalo a frente de um quarteto na primeira e de um quinteto na segunda data. O quarteto contava com a participação de um amigo feito nos estúdios de gravação, o pianista Horace Silver; o contrabaixista Gene Ramey e o baterista Art Taylor. Para esta data foram escolhidos dois originais: um de Silver, Roccus; e um blues de Lou, Lou’s Blues; ao lado de dois standards: Cheek To Cheek e The Things We Did Last Summer.

 

Na segunda sessão, a do quinteto, ao lado de Lou e Silver estão: o jovem talento do trompete Blue Mitchell, e a mais requisitada cozinha de NYC, Percy Heath e Art Blakey. No repertório: Sweet Juice, de Horace Silver; o blues Down Home; os standards The Best Things In Life Are Free e If I Love Again.

 

Esta sessão do saxofonista Lou Donaldson, mostra grandes momentos de puro bebop e é uma oportunidade de perceber os primeiros momentos do estilo que dominaria a segunda metade da década de 50, o hardbop.
Lou Donaldson (as) Horace Silver (p) Gene Ramey (b) Art Taylor (d)
WOR Studios, NYC, June 20, 1952

 

Blue Mitchell (tp -6/8) Lou Donaldson (as) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
WOR Studios, NYC, November 19, 1952*

 

1- Roccus
2- Lou’s Blues
3- Cheek To Cheek
4- The Things We Did Last Summer
5- Sweet Juice*
6- Down Home*
7- The Best Things In Life Are Free*
8- If I Love*

 

 

HotBeatJazz 10′ Series – Art Farmer Quintet – 10’LP PRLP 181 (1954)

O trompetista Art Farmer conheceu o saxofonista alto Gigi Gryce no verão de 1953. Art havia chegado a NYC como membro da orquestra de Lionel Hampton e sua atuação para a gravadora Prestige em uma data do saxofonista californiano Wardell Gray havia impressionado Bob Weinstock, o proprietário. Em julho do mesmo ano, Bob organizava uma sessão com Art Farmer como líder e outros músicos da banda de Hampton. Gravaram quatro temas para lançamento posterior em um 10 polegadas. O último tema gravado destes quatro era “Up In Quincy’s Room”, uma composição de Gigi Gryce em homenagem ao trompetista e arranjador Quincy Jones, colega de estante de Art Farmer na banda de Hampton. Gigi estava trabalhando com Tadd Dameron em Atlantic City e havia se comprometido, além do arranjo para a sua composição, a fazer as transcrições de todas as partes dos músicos. Não havendo tempo para envia-las pelo correio, Gigi as terminou em um ônibus à caminho de NYC para entregá-las em mãos. Desta forma nasceu uma das mais produtivas e perfeitas associações da época, Art Farmer e Gigi Gryce gravariam várias composições que se tornariam obrigatórias em qualquer songbook das mais representativas da época.

 

A amizade entre ambos se fortaleceria quando Gigi Gryce foi incorporado a orquestra de Hampton, uma das mais formidáveis organizações da época, que contava com um naipe de trompetes antológico: Art Farmer, Quincy Jones e o jovem prodígio Clifford Brown. A orquestra faria uma importante temporada na Europa e no seu retorno aos EUA, no final de 1953, Art e Gigi permaneceram por conta própria em Manhattan. Em 1954 iniciaram o quinteto em uma gig no Tiajuana Club, em Baltimore. Gryce compôs uma série de novos temas dotando o quinteto de um material próprio de altíssima qualidade. Mais do que rápidamente Bob Weinstock agendaria duas sessões de gravação com o grupo, acontecidas em maio de 54.

 

A primeira delas, realizada no dia 19, contaria com os dois solistas principais e Horace Silver ao piano, Percy Heath ao contrabaixo e Kenny Clarke na bateria. Foram gravadas quatro composições de Gigi Gryce: A Night At Toni’s, Blue Concept, Deltitnu e Stupendous-Lee. A Night At Tony’s é um perfeito exemplo da capacidade de compositor e arranjador de Gryce, com uma melodia brilhante, simples e direta. Art, Gryce e Silver revelam a técnica e swing que os caracterizou por décadas a fio. Blue Concept é um delicioso blues em tom menor, onde Farmer executa um solo rico em idéias e fluência. Gryce mostra no blues o quanto absorveu de Charlie Parker em estilo e sonoridade. Silver desenvolve seu solo impregnado de alma funky sobre uma pulsação forte de Heath e Kenny Clarke troca fours com os solistas antes da volta ao tema. Stupendous-Lee é um tema que melódicamente nos remete ao jazz da west coast, composição que homenageia o grande saxofonista alto Lee Konitz. Deltitnu é um típico tema bebop, frases rápidas e ágeis impondo o máximo de controle da emissão ao trompete de Farmer.

 

Art Farmer Quintet é uma fantástica sessao de dois grandes músicos do hardbop em uma associação frutífera que perdurou até meados de 56.

 

Vale dar uma conferida no blog Jazz+Bossa+Baratos Outros onde se pode ler uma belíssima resenha sobre Gigi Gryce http://ericocordeiro.blogspot.com/2010/06/escada-e-ponte.html .

 

Art Farmer (tp) Gigi Gryce (as) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, May 19, 1954

 

1- A Night At Tony’s
2- Blue Concept
3- Stupendous-Lee
4- Deltitnu
 

HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis All Stars Vol.1 e 2 – 10’LP PRLP 196 e 200 (1954)


Como discorri no post anterior sobre o quinteto de Miles Davis – Miles Davis Quintet – 10’LP PRLP 187 (1954) – o ano de 1954 foi definitivo na direção musical que Miles seguiria pelos próximos 15 anos. O embrião de seu famoso quinteto estava se formando, porém Miles ainda participava de encontros do tipo All Stars, algo que posteriormente deixaria de fazer para dedicar-se exclusivamente a seu combo. Esta sessão realizada para a Prestige seria a última obedecendo o formato de uma jam à qual Miles participaria, exceção feita a apresentação em julho de 55 no Festival de Newport. Realizada na véspera do Natal de 54, Bob Weinstock colocou em estúdio figuras proeminentes do jazz de então: Miles ao trompete, acompanhado por Thelonious Monk ao piano, Milt Jackson ao vibrafone, Percy Heath ao contrabaixo e o veterano Kenny Clarke na bateria.

 

Cada solista principal teve a oportunidade de apresentar uma composição original, de forma que Monk escolheu seu clássico Bensha Swing, Milt Jackson o inigualável blues Bag’s Groove, e Miles sua pouco gravada Swing Spring. O quarto tema gravado foi o standard The Man I Love, de George e Ira Gerswin. Miles estava em uma de suas melhores fases como instrumentista, frases muito bem pensadas e idéias ligadas com precisão de artífice, faziam de seu trompete uma referência ao lado dos grandes da época como Clifford Brown, Kenny Dorham e, claro, Dizzy Gillespie. O grupo se entrega a longas improvisações para o padrão de gravação em estúdio da época, com as quatro faixas variando de 8 a 11 minutos de duração, e ocupando cada uma um lado inteiro do LP de 10 polegadas. Monk, como sempre, é uma atração a parte, simplesmente deixando de tocar por longo tempo – exemplo, durante o solo de Miles em Swing Spring – para depois atacar mais um de seus instigantes e percussivos solos, com a harmonia típica do mestre que sempre foi. Milt Jackson injeta o blues na veia de todos os temas, uma de suas mais marcantes características como solista.

 

Miles Davis All Stars é um dos grandes acontecimentos de 1954 em matéria de jam session em estúdio, e uma belíssima oportunidade de ouvir Miles em um contexto mais relax.
PRLP 196 Miles Davis All Stars
Miles Davis (tp) Milt Jackson (vib) Thelonious Monk (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d) Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, December 24, 1954

 

1- Bags’ Groove (M. Jackson)
2- Swing Spring (M. Davis)

 

PRLP 200 Miles Davis All Stars, Vol. 2
Miles Davis (tp) Milt Jackson (vib) Thelonious Monk (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d) Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, December 24, 1954

 

1- The Man I Love (G. Gerswin – I. Gerswin)
2- Bemsha Swing (T. Monk)

 

http://ouo.io/UWKIrv

 

HotBeatJazz 10′ Series – Sonny Rollins Quartet – 10’LP PRLP 137 (1951)

Mais uma vez nos voltamos à música de Walter Theodore “Sonny” Rollins, desta feita em sessão gravada para a Prestige em 1951. Sonny começou a tocar saxofone alto aos 11 anos de idade, em 1941, em 1946 mudou para o sax tenor, intrumento do qual viria a se tornar um dos maiores estilistas que o jazz já conheceu. Cresceu no Harlem, em NYC, ao lado de outros grande músicos que viriam a se destacar na década de 50, como o pianista destas faixas, Kenny Drew. Aos 14 anos, Rollins foi profundamente impactado pela música de Charlie Parker que passaria a exercer uma grande influência em seu estilo, assim como músicos mais antigos como Lester Young e Coleman Hawkins. Inciou sua carreira discográfica em 49, na orquestra do cantor Babs Gonzales, no mesmo ano ainda particparia de sessões no combo do trombonista J. J. Johnson e do pianista Bud Powell, um grande incentivador de Rollins. Em 1950, Rollins não participa de nehuma gravação, virginianamente perfeccionista, dedica-se ao estudo e prática em retiro, atitude que voltaria e tomar em 1961, quando seu hábito diário de ir praticar em solitário com seu sax na ponte Williamsburg aos fins de tarde, se converteria rápidamente em uma das mais românticas lendas do jazz.

 

Em 17 de janeiro de 1951, Miles Davis, um de seus mais ferrenhos admiradores de primeiro momento, o convida para participar de uma sessão integrando um sexteto. É desta data a gravação de I Know, em uma tomada em quarteto com Miles Davis tocando o piano, e Percy Heath e Roy Haynes completando a seção rítmica.

 

Onze meses depois, em 17 de dezembro, também em quarteto, Rollins gravaria as sete faixas restantes deste 10 polegadas. Quatro standards, baladas em sua maioria, e três temas originais: Shadrak, Scoops e Newk’s Fadeaway. Estava acompanhado pelo amigo de infância Kenny Drew ao piano, novamente Percy Heath ao contrabaixo e Art Blakey na bateria. Time On My Hands tem a mais bela e contundente interpretação em sax tenor que tenho conhecimento. This Love Of Mine é puro lirismo, num amálgama de Lester Young e certos ornamentos à la Parker. Shadrack é um tema bop por excelência com precioso trabalho de Rollins e Drew, pontuados ao estilo peculiar de Blakey. On A Slow Boat To China é apresentado em andamento rápido, com Rollins mostrando fluência e arquitetura de fraseado original antes do solo de Drew e das breves trocas com o piano antes do encerramento. Scoops é um blues com melodia típicamente bebop, Drew mostra brevemente o quanto absorveu de Bud Powell, antes das trocas de fours entre Rollins e Blakey.

 

Todas estas faixas foram lançadas ainda na fase do 78 rpm, estando portando dentro do esquema de duração não maior do que três minutos e meio. Nelas pode-se perceber o quão difícil era para um jazzista desenvolver seu improviso em tão poucos choruses, sendo o poder de síntese o que separava os homens dos garotos. Rollins foi um dos grandes homens do período, sendo ainda um garoto. Hoje, às vésperas de completar 80 anos, em 7 de setembro próximo, está ativo e se apresentando pelo mundo, mostrando uma música vigorosa e atual, que sómente pode ser produzida por um veterano, mas em espírito de garoto.
Sonny Rollins (ts) Kenny Drew (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
Apex Studios, NYC, December 17, 1951

 

*Sonny Rollins (ts) Miles Davis (p) Percy Heath (b) Roy Haynes (d)
Apex Studios, NYC, January 17, 1951
1- Time on My Hands
2- This Love of Mine
3- Shadrack
4- On a Slow Boat to China
5- Scoops
6- With a Song in My Heart
7- Newk’s Fadeaway
8- I Know*

 

 

HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis Quintet – 10’LP PRLP 187 (1954)

A primeira metade da década de 50 foi um período de busca pessoal e artística para Miles Davis. No campo pessoal ele procurava se livrar da adição em heroína, o que ele conseguiria pela primeira vez ainda em 1950. Artísticamente sua busca consistia em achar um modelo de som e de formação de seu combo, busca esta que iria exigir mais tempo de Miles. De 1950 à 55, Miles testou todos os tamanhos e arquiteturas de formações possíveis. Do noneto do início da década, ainda resultado do Birth of the Cool, até o quarteto básico, Miles procurou todas as possibilidades de expressão para sua música. Tocou com uma verdadeira constelação de músicos: J.J. Johnson, Stan Getz, Tadd Dameron, Lee Konitz, Gerry Mulligan, John Lewis, Fats Navarro, Brew Moore, Art Blakey, Benny Green, Roy Haynes, Kenny Drew, Eddie “Lockjaw” Davis, Billy Taylor, Charles Mingus, Jackie McLean, Walter Bishop Jr, Jimmy Forrest, Don Elliott, Al Cohn, Zoot Sims, Jimmy Heath, Max Roach, Oscar Pettiford, e até mesmo, Charlie Parker, todos estes grandes músicos contribuíram para a música de Miles. Em 1954, Miles começa a achar o rumo que seguiria pelo resto da década e que o levou ao patamar de gigante do jazz. A formação de um quinteto que consistia, além dele, de um saxofonista tenor de estilo forte e agressivo, que contrastasse com seu trompete suave; um pianista que soubesse tocar deixando espaços na música, verdadeiros vácuos harmônicos; e baterista e contrabaixista que se adaptassem a um estilo que ficava a meio caminho do bebop, do hardbop e do cool.

 

Nesta seção de 29 de junho de 1954, esta busca começava a se materializar em um combo com Sonny Rollins ao sax tenor, Horace Silver ao piano, Percy Heath ao contrabaixo, e o veterano Kenny Clark na bateria. Rollins tem importancia fundamental, não só como contraponto ao lirismo de Miles instrumentalmente, mas também, como grande compositor de temas. É o que temos neste 10 polegadas de apenas 4 músicas: 3 originais de Rollins, e um clássico de George Gershwin. Rollins nestas gravações ia se consolidando como um dos mais influentes sax tenores do jazz moderno e um dos compositores mais originais que surgiam nesta efervescente época. Horace Silver, ainda um jovem e promissor talento, entendeu à perfeição o papel que deveria desempenhar na música de Miles, não enchendo os espaços com blocos densos de acordes, mas sim, contribuindo para uma maior flexibilidade rítmica e harmônica do grupo, papel que seria depois brilhantemente executado por Red Garland no quinteto com Jonh Coltrane no tenor. Estas gravações ficaram indelévelmente marcadas na história do jazz, sendo uma mostra do poder musical que arrebataria a todos, um ano depois, com o quinteto definitivo.

 

Miles Davis (tp) Sonny Rollins (ts) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, June 29, 1954

 

1- Airegin (S. Rollins)
2- Oleo (S. Rollins)
3- But Not For Me (G. Gershwin – I. Gershwin)
4- Doxy (S. Rollins)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Sonny Rollins Quintet – 10’LP PRLP 186 (1954)

Théodore Walter – mais conhecido como Sonny – Rollins, nasceu em New York, em 1929. Quando adolescente, se reunia com seus amigos de vizinhança para tocar jazz, era uma turma de peso: Kenny Drew, Jackie McLean, Art Taylor, e o irmão caçula do gênio do piano bop Bud Powell, Richie Powell. Era uma rapaziada tão endiabrada que aos 19 anos Sonny já estava apto a tocar com grandes nomes do jazz como Bud Powell, Fats Navarro e J. J. Johnson. Foi contratado em 1950 por Bob Weinstock para fazer parte do catálogo da gravadora Prestige, onde produziria boa parte de sua obra, definitiva e fortemente influenciadora na formação dos saxofonistas modernos.

 

O LP em foco, foi gravado em agosto de 1954, com Rollins liderando um quinteto que trazia na linha de frente, a seu lado, o exímio trompetista Kenny Dorham. Dorham foi um músico bastante negligenciado, seu toque se equipara aos grandes estilistas do instrumento, é dono de um fraseado meticulosamente elaborado, emissão e timbre perfeitamente trabalhados, e um dos maiores quando o assunto é tocar bebop. A seção rítmica traz outro “underrated”, o pianista Elmo Hope, outro Nova Iorquino, forjado nos anos de ouro do bebop. Hope não conseguiu ter uma carreira regular, gravou pouco e faleceu prematuramente, em 1967, vítima de pneumonia. O contrabaixo foi executado pelo seguro e competente Percy Heath, e na bateria, atuando sob seu nome de adoção no islamismo por questões contratuais, Abudullah Buhaina, mais conhecido como Art Blakey.

 

Movin’ Out abre o disco, um bebop de tirar o fôlego, onde Rollins mostra a profunda influência de Charlie Parker em sua maneira de tocar. Kenny Dorham tem uma participação luminar, com um solo primoroso em arquitetura melódica. Elmo mostra economia nos acompanhamentos da mão esquerda, enquanto com a direita produz um fraseado percurssivo de intenso swing.

 

Swinging For Bumsy é outro bebop onde Rollins e Dorham pairam absolutos. O solo de Kenny é um dos pontos altos da sessão, um fraseado completo, com stacattos e legattos intercalados, mostrando o absoluto domínio da técnica. Mais uma vez Elmo Hope executa uma mão esquerda que chega a sugerir o antigo estilo stride.

 

Silk ‘N’ Satin é a balada da sessão, Rollins paga seu tributo a Dexter Gordon, um dos maiores baladistas do tenor moderno e grande influência na maneira de Rollins tocar.

 

Solid, é uma das mais instigantes composições de Sonny Rollins, na essência um bebop, porém já apontando na direção do hardbop. A bateria de Blakey faz acentuações primorosas, cruzando um terreno onde ele é mestre absoluto.

 

Esta gravação do quinteto de Sonny Rollins foi uma das responsáveis por vários músicos, principalmente os saxofonistas, torcerem o pescoço na direção de um som nôvo, vigoroso, que começava a ecoar e que viria a influenciar várias gerações de músicos.

* Uma excelente biografia de Elmo Hope pode ser encontrada no Jazz + Bossa +Baratos Outros

Kenny Dorham (tp) Sonny Rollins (ts) Elmo Hope (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, August 18, 1954

 

1- Movin’ Out (take 606)
2- Swinging For Bumsy (take 607)
3- Silk ‘N’ Satin (take 608)
4- Solid (take 609)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Miles Davis Quartet – 10’LP PRLP 161 (1954)

Miles Davis gravou duas sessões para a Prestige com o formato de quarteto que integram este 10 polegadas lançado em 1954. A primeira, em 19 de maio de 53, onde se deu a estréia em disco de dois temas que passariam a compor o repertório do trompetista: Tune Up e Miles Ahead, este último sendo revisitado alguns anos após com arranjos de Gil Evans, no álbum de mesmo nome. Para a data, Miles contou com a presença de John Lewis, ao piano; Percy Heath, ao contrabaixo; e seu grande amigo Max Roach, na bateria. John Lewis, que tinha compromissos já préviamente agendados, não pôde participar do último tema à ser gravado, Smoch. O contrabaixista Charles Mingus, que estava nos estúdios por acaso, deu uma mãozinha ao piano, aliás duas, e não se saiu mal. When Lights Are Low, completa os temas gravados na ocasião.

 

Em 15 de março de 1954, uma outra sessão em quarteto, completou com mais 3 faixas este 10 polegadas de número 161 da gravadora Prestige. Para a data Miles contou com Horace Silver, ao piano; mais uma vez, Percy Heath ao contrabaixo; e Art Blakey na bateria. Entre os temas gravados, mais um ítem se destacaria como frequente no repertório do trompetista, Four. O estilo inconfundível de Blakey se faz notar logo ao primeiro compasso, assim como o piano solto e bluesy de Horace Silver. O standard Old Devil Moon e Blue Haze, completam as tomadas daquela sessão.

 

Nestas tomadas em quarteto nota-se, de forma inconteste, que muitas vezes o gênio musical não necessita estar necessáriamente ligado ao virtuosismo instrumental. Miles nunca foi um virtuoso, mas sua genialidade se apresenta na forma de escolher os caminhos de seu discurso musical em perfeita consonância com sua técnica, revelando uma mente altamente criativa e inteligente em seu ofício.

 

Miles Davis (tp) John Lewis (p -1/3) Charles Mingus (p -4) Percy Heath (b) Max Roach (d)
WOR Studios, NYC, May 19, 1953
1- When Lights Are Low (take 479)
2- Tune Up (take 480)
3- Miles Ahead (take 481)
4- Smooch (take 482)

 

Miles Davis (tp) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Art Blakey (d)
Beltone Studios, NYC, March 15, 1954
5- Four (take 556)
6- Old Devil Moon (take 557)
7- Blue Haze (take 558)
 

HotBeatJazz 10′ Series – Art Farmer PRLP 177

Estamos inaugurando com esta postagem uma série organizada e produzida pelo próprio HotBeatJazz, com o intuito de recriar um pouco da história e do romantismo vividos pelo jazz em décadas passadas. Estaremos lançando recriações dos antigos LP’s de 10 polegadas, formatados inteiramente como foram editados na ocasião, com suas capas originais e obedecendo rigorosamente a mesma ordem de músicas. Esperamos com esta iniciativa dar uma contribuição à memória fonográfica de tempos mais românticos, quando havia de levantar-se do sofá para virar o lado do disco, ou então, empilha-los em toca-discos automáticos, produzindo deliciosos arranhões que se transformavam em chiadeiras indissociáveis do prazer da escuta.

 

Voltemos ao passado, com nosso primeiro LP 10 polegadas da série!

 

 

O trompetista Art Farmer gravou em 1954, pela Prestige, como líder de um quinteto muito especial que contava com a presença do grande saxofonista Sonny Rollins, do pianista Horace Silver, do contrabaixista Percy Heath, e de Kenny Clarke na bateria.

 

Foi um LP curto em termos de tempo de música gravada, mesmo para os padrões da época que possibilitavam até 12 minutos por face, com apenas 4 temas totalizando 9 minutos em cada lado.

 

Wisteria, uma bela balada que não conta com a participação de Sonny Rollins, sendo veículo para as qualidades do trompete extremamente lírico de Art Farmer.

 

Soft Shoe tem o tema exposto em perfeito uníssono entre Farmer e Rollins. Farmer abre seu solo com uma citação de The lady is a Tramp, o piano de Silver é impregnado de sentido bop e seus blocos de acordes de sustentação dos solistas são impecávelmente construídos. Rollins tem um solo arrebatador em economia e síntese antes de voltarem ao tema para o encerramento.

 

Confab In Tempo é um tema típicamente bebop, de andamento acelerado, onde Rollins é o primeiro a solar com extremo domínio da sintaxe do estilo. Farmer faz seu solo inteiramente em stacatto com um perfeito controle da emissão. Silver mostra conhecer bem o trumpet-piano style em breve participação antes do solo do mestre Kenny Clarke, o homem que construiu a ponte entre o swing e a bateria moderna bop.

 

I’ll Take Romance encerra este curto LP 10 polegadas com Farmer mostrando seu estilo pessoal, que o fazia diferente dos trompetistas da época, sempre muito calcados em Gillespie ou Fats Navarro. Rollins em seus primeiros anos já se mostrava um músico de estatura, embora ainda fosse desenvolver um estilo mais pessoal no decorrer dos anos. Tinha ele nesta época um timbre bem mais domesticado do que o que passou a desenvolver a partir da década de 60.

 

Este quinteto organizado por Bob Weinstock para dar suporte ao delicioso trompete de Art Farmer ficou marcado como um dos grandes combos organizados em 1954, um ano de concorrência acirrada, visto o surgimento do explendoroso quinteto de Art Blakey com Clifford Brown em fevereiro e o mesmo Clifford iniciando seu quinteto com Max Roach em abril.

 

Art Farmer (tp) Sonny Rollins (ts -2/4) Horace Silver (p) Percy Heath (b) Kenny Clarke (d) Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, January 20, 1954

 

1- Wisteria (take 552)
2- Soft Shoe (take 553)
3- Confab In Tempo (take 554)
4- I’ll Take Romance (take 555)