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HotBeatJazz 10′ Series – Serge Chaloff – Plays The Fable of Mable 10’LP 316 (1954)

Em 1954, Serge Chaloff havia retornado a Boston, sua cidade natal, e desenvolvia trabalhos com alguns dos excelentes músicos locais como: Herb Pomeroy, Charlie Mariano e Dick Twardzik. Havendo já brilhado em importantes orquestras como as de Woody Herman e Stan Kenton, Chaloff tinha consolidado nome como um dos mais importantes saxofonistas barítono de sua época. Os leitores desejosos de mais informação sobre Serge Chaloff as encontrarão em um post anterior sobre o álbum Blue Serge (1956).

 

The Fable of Mable foi gravado pela pequena gravadora de Boston, Storyville Records, em setembro de 1954. Chaloff liderou um noneto formado pelos trompetistas Herb Pomeroy e Nick Capazutto, o trombonista Gene DiStachio, o formidável sax alto Charlie Mariano, o saxofonista tenor Vardi Haritounian, o pianista Dick Twardzik, o contrabaixista Ray Oliveri e o baterista Jimmy Zitano. O grupo produziu uma música complexa e avançada, com arranjos muito precisos e executados a perfeição. O tema título é uma composição do pianista Dick Twardzik, um mini suíte em três partes, onde um leitmotif é apresentado com nuances e expressões diversas. O saxofonista Charlie Mariano contribui com três composições: Sherry, uma composição que antecipava a third stream, quase um jazz de câmara; Slam e sua atmosfera west-coast; e Eenie Meenie Minor Mode, um tema de arranjo complexo e altamente suingante. Herb Pomeroy escreveu A Salute To Tiny e o último tema do álbum vem da pena de Al Killian, Let’s Jump, tema de muito swing e veículo para os solistas Mariano, Pomeroy e Chaloff.

 

Lançado inicialmente em tiragem pequena, The Fable of Mable tornou-se um ítem disputadíssimo da obra de SErge Chaloff até ter sua música digitalizada e relançada em novo formato.

 

Herb Pomeroy (tp) Nick Capazutto (tp) Gene DiStachio (tb) Charlie Mariano (as) Vardi Haritounian (ts) Serge Chaloff (bs) Dick Twardzik (p) Ray Oliveri (b) Jimmy Zitano (d)
Recorded in Boston, September 1954

 

1- The Fable of Mabel (D. Twardzik)
2- Sherry (C. Mariano)
3- Slam (C. Mariano)
4- A Salute To Tiny (H. Pomeroy)
5- Eenie Meenie Minor Mode (C. Mariano)
6- Let’s Jump (A. Killian)

 

 

Serge Chaloff Quartet – Blue Serge (1956)

Um homem de grande estatura adentra o estúdio de gravação da Capitol amparado por uma cadeira de rodas. Coloca-se diante do microfone, préviamente preparado a uma altura adequada, e um grande estojo negro é aberto. Com alguma dificuldade, Serge Chaloff monta as partes que compoem o imenso e pesado sax barítono que o acompanha desde que começou a aprende-lo de forma autodidata, ainda em Boston, onde nasceu em 24 de novembro de 1923. Pede que ajustem as luzes para uma intensidade mínima, mas que seja adequada aos engenheiros de áudio e auxiliares a executarem suas tarefas corriqueiras a uma sessão de gravação. Serge tem, neste 14 de março de 1956, 32 anos de idade. Seus movimentos estão sériamente comprometidos em decorrência de um tumor na medula recentemente diagnosticado. Ele está prestes a começar a gravar seu, possívelmente, último álbum como líder. E ele sabe disso.

 

Podemos imaginar, sem muito esforço, que naquele momento um rápido e alucinante filme de toda sua vida tenha percorrido, em sinapses intensas, sua mente. Seus primeiros anos de vida, quando manteve contato prematuro com a música através de seu pai, pianista da Orquestra Sinfônica de Boston, e de sua mãe, professora de música do conservatório da mesma cidade. Suas primeiras lições de piano e clarinete, instrumentos em que teve uma instrução formal. O deslumbramento pela sonoridade vigorosa do saxofone barítono de Harry Carney e Jack Washington, suas primeiras influências. Seu primeiro trabalho profissional como músico com Boyd Raeburn, e logo depois com Georgie Auld. A primeira orquestra de renome da qual participou, a de Jimmy Dorsey. Os acontecimentos vertiginosos dos últimos 10 anos, quando depois de participar da banda de Woddy Herman, como um dos Four Brothers, ao lado de Stan Getz, Herbie Stewart e Zoot Sims, foi reconhecido como um dos mais importantes baritonistas do bebop. Deve ter se lembrado dos anos negros que viveu vítima da adição em heroína, que o fizeram ficar estigmatizado temporáriamente como persona non grata no meios musicais. Com certeza, se lembrou de sua primeira sessão como líder para a Savoy, ao lado de Red Rodney, Earl Swope, George Wallington, Curley Russell e Tiny Kahn. Lembrou de sua volta para Boston, decorrência da falta de trabalho provocada por sua fama de junkie. Mas também lembrou-se da volta por cima, e dos trabalhos realizados ao lado de Bud Powell, Charlie Mariano, Herb Pomeroy, e do grande amigo Boots Mussulli.

 

Agora ele estava ali, na Capitol, sob os auspícios da produção do grande Stan Kenton, para fazer, talvez, seus últimos discursos. Está prestes a liderar um trio formado pelo magistral pianista Sonny Clark, o seguro contrabaixista Leroy Vinnegar, e a bateria mais requisitada do momento, a de Philly Joe Jones. O repertório já está decidido: seis standards e dois originais, sendo estes, um de sua autoria, um blues entitulado Susie’s Blues, e o outro do amigo Al Cohn, The Goof And I.

 

A Handful Of Stars, é exposta em andamento médio, com Chaloff explorando toda a extensão de seu instrumento. Dos registros mais graves aos agudos, Chaloff mantém sempre um timbre acurado, que sómente um músico de extremos recusros técnicos seria capaz de faze-lo. Sonny Clark particpa com um solo econômico em notas e seu acompanhamento minimalista nos remete ao piano de um Count Basie. Vinnegar é dono de um timbre especial, e suas frases tem sempre uma lógica impecável. Ele, Sonny e Serge fazem trocas de oito compassos estimulantes com Philly Joe antes de voltarem ao tema para o encerramento.

 

The Goof And I, de Al Cohn, é puro bebop. Sonny é o primeiro a solar em um fraseado que é amálgama de Bud Powell e Basie. Chaloff no bebop é simplesmente imbatível. Inexiste o problema da grande inércia no fraseado, oriunda do volume de ar a ser movido no sax barítono. Serge faz, por vezes, seu imenso instrumento soar na velocidade e fluidez de um sax alto. Nunca ouvi nada semelhante em um barítono.

 

A balada Thanks For The Memory, que em virtude do drama pessoal por que passava o líder, parece-nos hoje algo de epitáfico, é executada com uma carga emocional ímpar. Uma dosagem perfeita da dinâmica e do vibrato, faz Serge extrair o máximo em introspecção e passionalidade deste belo tema.

 

All The Things You Are, o standard preferido por 11 em 10 músicos do bebop, é inteiramente dissecada por Chaloff, que a executa com uma sintaxe que beira a perfeição. Sonny Clark não deixa a peteca cair nem 1 milímetro, em uma quase extensão do pensamento de Chaloff. Vinnegar produz um solo altamente melódico, não se desviando muito da melodia, e sendo impecávelmente sustentado por acordes de Clark. O líder expõe o tema para o encerramento de forma breve e altamente lírica.

 

Em I’ve Got The World On A String, de Harold Arlen, Chaloff faz novamente da dinâmica o ponto alto. Seu solo tem a sonoridade de um sax tenor, as idéias musicais uma originalidade de gênio. É o tema de maior duração do álbum, beirando os 7 minutos.

 

O original Susie’s Blues, um riff de 16 compassos em andamento acelerado, é veículo para mais fraseados em sintaxe bop do líder e do pianista Sonny Clark. Vinnegar constrói um vigoroso walkin bass antes das trocas de fours entre o quarteto.

 

A balada Stairway To The Stars, parece mais uma escolha profética de Chaloff. Lirismo e paixão são a tônica do fraseado do saxofonista. Ecos de Ben Webster podem ser percebidos. O solo de Sonny Clark é um verdadeiro tratado sobre beleza.

 

How About You encerra o álbum de forma positiva e energética. Quem a ouve, não pode ao menos supôr que o dono do fraseado vigoroso do barítono é, na verdade, um homem que passa por sérias limitações e dificuldades físicas.

 

A doença de Chaloff evoluiu rápidamente, o levando a falecer 14 meses após esta sessão de gravação, que se tornou seu canto do cisne. O jazz possuiu vários grandes saxofonistas barítono: Gerry Mulligan e sua extremamente bela concepção harmônica, Pepper Adams e seu estilo vigoroso de hardbop, Cecil Payne e seu estilo altamente fluido e bopper, Sahib Shihab um mestre em toda a linha de instrumentos de palheta; enfim uma grande gama de visões e concepções de uso deste membro da família dos saxofones. Todos foram grandes, gênios a seu modo. Mas Serge Chaloff ocupa um lugar especial e único no mundo do jazz. E Blue Serge ocupa, com louvor, um lugar entre as gravações antológicas e fundamentais na história desta maravilhosa forma de arte.
Serge Chaloff (bars); Sonny Clark (p); Leroy Vinnegar (b); Philly Joe Jones (d)
Capitol Studios, Melrose Avenue, Los Angeles, CA, March 14, 1956

 

1- A Handful Of Stars (Lawrence, Shapiro)
2- The Goof And I (Cohn)
3- Thanks For The Memory (Rainger, Robin)
4- All The Things You Are (Hammerstein, Kern)
5- I’ve Got The World On A String (Arlen, Koehler)
6- Susie’s Blues (Chaloff)
7- Stairway To The Stars (Malneck, Parish, Signorelli)
8- How About You (Freed, Heusen, Lane)

 

http://ouo.io/r71gEX

 
 

Charlie Parker and The Stars of Modern Jazz – Carnegie Hall X-mas ’49

Passadas as festas de fim de ano, agora distanciadas no funil do tempo, é hora para, sem apelos emocionais, sem motivos outros, que não a música em si, prestarmos atenção a esta noite de natal de 1949. Um concêrto no Carnegie Hall, sem jingle bell, sem velhinho amarelo-rosado em roupa de bombeiro, sem público disponível para melodias assobiáveis de forma autômata, trazia a nata do bebop para uma platéia ávida pelos ritmos frenéticos, pelas melodias sinuozas e pelas harmonias alteradas ao limite da compreensão da época. O disk-jockey Symphony Sid Torin organizou e apresentou alguns dos mais espetaculares músicos do jazz de então em uma noite memorável que teve como desfecho a apresentação do quinteto de Charlie Parker após as costumeiras confraternizações da meia noite de 24 de dezembro de 1949. Sid chama ao palco Bud Powell, o maior e mais influente pianista do bebop, à frente de seu trio formado pelos ex integrantes do combo de Parker: o contrabaixista Curley Russell e o baterista Max Roach em uma interpretação impecável de “All God’s Children Got Rhythm”, tema que era uma especialidade de Bud. O trio permanece no palco enquanto Sid anuncia mais alguns gigantes do jazz para se juntarem a eles: o trompetista Miles Davis, o trombonista Bennie Green, o saxofonista Sonny Stitt ao alto e Serge Chaloff no barítono. Inicia-se uma verdadeira jam com três temas hinos do bebop: “Move”, de Denzil Best; “Hot House”, de Dizzy Gillespie; e “Ornithology”, de Charlie Parker. Os palco é renovado com o quinteto de Stan Getz e Kai Winding. Stan, um dos famosos “four brothers” da orquestra de Woody Herman, atravessava um período de grande fama ganhando o apelido de “The Sound”, Winding surgia como uma nova voz ao trombone e em breve formaria um histórico quinteto com o pai do trombone bop, J. J. Johnson. A seção rítmica de Parker, formada por Al Haig, Tommy Potter e Roy Haynes, daria o suporte aos dois solistas em duas antigas peças da música americana: “Always” e “Sweet Miss”. Stan Getz apresenta “Long Island Sound” em formação de quarteto, deixando evidente sua sonoridade inspirada em Lester Young com um fraseado adaptado aos novos tempos do bebop. Sarah Vaughan, a voz bop por excelência, acompanhada por Jimmy Jones ao piano, interpreta dois standards: “Once In A While” e “Mean To Me”. O pianista Lennie Tristano apresenta-se acompanhado por seus alunos: o sax alto de Lee Konitz, o tenor de Warne Marsh, a guitarra de Billy Bauer, e o apoio rítmico de Joe Shulman ao contrabaixo e Jeff Morton à bateria. Sua leitura do standard “You Go To My Head” preconiza alterações harmônicas que só veríamos alguns anos depois com Bill Evans. O original “Sax Of A Kind” é veículo para as macias sonoridades de Lee Konitz ao alto e Warne Marsh ao tenor, músicos que traziam uma nova concepção timbrística ao modelo comum do bebop. Após a meia-noite chega a vez do ponto alto do concêrto, o fenomenal quinteto do pai de todos, Charlie Parker, acompanhado pelo trompetista Red Rodney, o pianista Al Haig, o contrabaixista Tommy Potter e a bateria de Roy Haynes. Parker está no auge de sua forma, com sua característica fluência de idéias e frases musicais que não teve equivalencia em toda a história do jazz. Os originais “Ornithology”, “Cheryl”, “Ko Ko”, “Bird Of Paradise” e “Now’s The Time” encerram esta noite de natal ímpar, acontecida a exatos 60 anos atraz, onde originalidade, modernidade e coragem foram a tônica deste acontecimento histórico para todo o desenvolvimento do jazz contemporâneo.
Voice Of America, Carnegie Hall, New York City, December 24 or 25, 1949.Master of ceremonies: Symphony Sid Torin.
THE BUD POWELL TRIO
Bud Powell (p), Curley Russell (sb), Max Roach (dm).December 24, 1949.
1 – All God’s Children Got Rhythm
JAM SESSION
Miles Davis (tp), Bennie Green (tb), Sonny Stitt (as), Serge Chaloff (bar), Bud Powell (p), Curley Russell (sb), Max Roach (dm). December 24, 1949.
2 – Move
3 – Hot House
4 – Ornithology (incomplete, originally)
STAN GETZ – KAI WINDING QUINTET
Kai Winding (tb), Stan Getz (ts), Al Haig (p), Tommy Potter (sb), Roy Haynes (dm). December 24 or 25, 1949.
5 – Always
6 – Sweet Miss
STAN GETZ QUARTET
7 – Long Island Sound
SARAH VAUGHAN (vocal), Jimmy Jones (p). December 24, 1949.
8 – Once In A While
9 – Mean To Me
LENNIE TRISTANO – LEE KONITZ SEXTET
Lee Konitz (as), Warne Marsh (ts), Lennie Tristano (p), Billy Bauer (g), Joe Shulman (sb), Jeff Morton (dm). December 24, 1949
10 – You Go To My Head
11 – Sax Of A Kind
THE CHARLIE PARKER QUINTET
Red Rodney (tp), Charlie Parker (as), Al Haig (p), Tommy Potter (sb), Roy Haynes (dm).December 25, 1949.
12 – Ornithology
13 – Cheryl
14 – Ko Ko
15 – Bird Of Paradise
16 – Now’s The Time