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HotbeatJazz 10′ Series – Lou Mecca Quartet – 10’LP BLP 5067 (1955)

Louis John Meccia – Lou Mecca – nasceu em 23 de dezembro de 1926, em Passaic, New Jersey. Filho de imigrantes italianos, seu pai foi trompetista em algumas orquestras sinfônicas na Itália e na América, iniciou seus estudos de música aos 8 anos de idade, no instrumento de seu pai, o trompete. O garoto, pequeno e franzino, não se adaptou muito bem ao trompete e logo depois iniciou o estudo da guitarra na The Master School of Music, onde pagava 50 cents por aula e ainda tinha uma guitarra da escola para praticar. Lou abandonou a High School no quarto ano para se tornar músico profissional tocando em um bar de Passaic como integrante de um quarteto. Lou recorda: “Nós sabíamos sete músicas e as tocávamos por toda a noite”. Por esta época, Lou iniciou o que viria a ser sua atividade principal, que lhe garantiria o sustento, lecionar música em uma escola de New Jersey. Por alguns anos Lou viveria de ensinar música e tocar nos finais de semana em bares de N.J.

 

Em 1947, Lou conheceu o guitarrista Johnny Smith. A primeira vez que Lou o ouviu, Smith estava tocando trompete na banda do exército. A partir desta amizade, Lou voltaria a se dedicar também ao trompete, abandonado na infância, tendo inclusive tocado por uma temporada inteira na Orquestra Sinfônica de Clifton. No início dos anos 50 trabalhou com grupos de pouca expressão como: Archie Bleyer, Julius LaRosa, e acompanhando vocalistas como Joni James e Alan Dale. Ganhou alguma projeção ao gravar com o saxofonista Gil Mellé para a Blue Note, seu toque foi tão especial que 1 ano após gravaria com seu quarteto este seu primeiro álbum, também para a Blue Note.

 

Nesta sessão realizada em 25 de março de 1955 nos estúdios de Rudy Van Gelder, Lou se faz acompanhar pelo vibrafonista Jack Hitchcock, pelo contrabaixista Vinnie Burke e pelo baterista Jimmy Campbell. No repertório, standards clássicos como: All The Things You Are, The Song Is You, Just One Of Those Things, You Go To My Head; o sucesso de Gerry Mulligan, Bernie’s Tune e um tema original de seu amigo pianista Stan Purdy, Stan’s Invention.

 

Em All The Things You Are, Lou faz um delicado trabalho de contraponto ao vibrafone de HItchcock. Em You Go To My Head, Lou executa um belo trabalho no estilo single-note, ele e Sal Salvador tornaram-se mestres nesta forma tocar a guitarra. The Song Is You tem uma suingante interpretação do quarteto, com destaque para o trabalho de Jimmy Campbell nas escovas.

 

Lou Mecca foi um dos mais underrateds guitarristas deste prolífico período do instrumento na história do jazz. Somente viria a gravar seu segundo álbum como líder em 1999, a somente quatro anos de sua morte, acontecida em 2003.

 

Jack Hitchcock (vib) Lou Mecca (g) Vinnie Burke (b) Jimmy Campbell (d)
Rudy Van Gelder Studio, Hackensack, NJ, March 25, 1955

 

1- All The Things You Are
2- You Go To My Head
3- Bernie’s Tune
4- Stan’s Invention
5- The Song Is You
6- Just One Of Those Things

http://ouo.io/Xfk0AV

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HotBeatJazz 10′ Series – Bud Shank – And Three Trombones 10’LP PJLP-14 (1954)

Bud Shank dividiu, nos anos 50, com Art Pepper a preferência entre os apreciadores do west-coast jazz no saxofone alto. Herb Geller e Lennie Niehaus também tinham seus adeptos, porém Shank e Pepper se tornaram a referência no instrumento para aqueles que apreciavam o movimentado cenário jazzístico oriundo da Califórnia. Tanto que na eleição da revista Down Beat em 1954, Shank foi eleito New Star no saxofone alto, desbancando seus colegas da Califórnia e os inúmeros altoístas em atividade na costa leste, a maior vitrine do jazz do período.

 

Neste mesmo ano de 1954, Shank gravou um álbum muito especial para a gravadora Pacific Jazz, Bud Shank And Three Trombones, disco que contou com os arranjos e composições do saxofonista Bob Cooper e as participações de três exímios trombonistas da costa oeste: Bob Enevoldsen, Stu Williamson e uma das raras oportunidades de se ouvir o conhecido trompetista canadense Maynard Ferguson atuando no trombone valvulado. A seção rítmica trazia o excelente pianista Claude Williamson e os super requisitados Joe Mondragon no contrabaixo e Shelly Manne na bateria. Às composições e os arranjos de Bob Cooper foram incluídas duas baladas do repertório popular americano: Little Girl Blue e You Don’t Know What Love Is. Cooper construiu ricas harmonias executadas pelos trombones que produzem um contraste de timbres ao saxofone alto do líder, um legítimo Parkeriano por excelência. Wailing Vessel tornou-se um clássico do west-coast, sendo revisitado por Shank em vários álbuns posteriores. Valve In Head é uma aula de arranjo ofertada por Bob Cooper e um tema de suingue contagiante. Shank produz um solo incendiário culminando em um break apoiado pela bateria sutil e melódica de Shelly Manne, de atuação destacada na faixa. Joe Mondragon inicia Cool Fool com um elegante walkin’ bass, com Shank e os trombones valorizando a escrita do arranjador. Mobile foi outro tema muito revisitado nas gravações da west-coast. Manne e Claude Williamson iniciam Baby’s Birthday Party, um tema repleto de cores tonais e de atmosfera típica do jazz da Califórnia.

 

Bud Shank And Three Trombones é um dos pontos altos do jazz da Califórnia e da discografia deste virtuose do saxofone alto.

 

Bud Shank (as); Bob Enevoldsen (tb); Maynard Ferguson (valv tb); Stu Williamson (tb); Claude Williamson (p); Joe Mondragon (b); Shelly Manne (d); Bob Cooper (arr)
Recorded in Hollywood, April and June 1954

 

1- Valve In Head
2- Cool Fool
3- Little Girl Blue
4- Mobile
5- Wailing Vessel
6- Baby’s Birthday Party
7- You Don’t Know What Love Is
8- Sing Something Simple

 

 http://ouo.io/k0HXi

 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – 10’LP Dial 207 (1947)

Chegamos ao quarto volume dos 10 polegadas com a obra de Charlie Parker na Dial. Composto por faixas registradas em 3 sessões: 5 de fevereiro de 1946, na Califórnia; 4 de novembro e 17 de dezembro de 1947, em NYC.

 

Diggin’ Diz, também conhecida como Bongo Beep ou Hot Blues, é uma paráfrase de Lover, de Richard Rodgers, composta por George Handy. Handy foi o pianista desta sessão ao lado de Dizzy Gillespie no trompete, Lucky Thompson no sax tenor, Arvin Garrison na guitarra, Ray Brown no contrabaixo e Stan Levey na bateria.

 

Na sessão de 4 de novembro de 1947, no estúdio WOR, em NYC, foram registradas: os originais Bird Feathers, Klactoveedsedstene; e os standards My Old Flame – em uma definitiva e inigualável interpretação – e Out Of Nowhere. Estes quatro temas foram gravados pelo quinteto clássico de Parker, que contava com Miles Davis, Duke Jordan, Tommy Potter e Max Roach.

 

As três faixas restantes foram registradas na sessão de 17 de dezembro, com o quinteto transformado em um sexteto com a adição do trombonista J. J. Johnson. São desta data: Air Conditioning, também chamada Drifting On A Reed ou Prezology, um blues de 12 compassos de autoria de Bird; Bongo Beep (versão Habanera Mambobop) e Crazeology, uma paráfrase do trompetista Little Benny Harris para I Got Rhythm, de George Gershwin.

 

Com este quarto volume completamos os LP’s 10 polegadas lançados pela gravadora Dial, no início dos anos 50, contendo parte da obra gravada por Charlie Parker neste sêlo.

 

Dizzy Gillespie (tp) Charlie Parker (as) Lucky Thompson (ts) George Handy (p) Arvin Garrison (g) Ray Brown (b) Stan Levey (d)
Electro Broadcast Studios, Glendale, CA, February 5, 1946*

 

Miles Davis (tp) Charlie Parker (as) Duke Jordan (p) Tommy Potter (b) Max Roach (d)
WOR Studios, NYC, November 4, 1947

 

Miles Davis (tp) J. J. Johnson (tb) Charlie Parker (as) Duke Jordan (p) Tommy Potter (b) Max Roach (d)
WOR Studios, NYC, December 17, 1947**

 

1- Crazeology**
2- Air Conditioned (Drifting On A Reed) (Prezology)**
3- My Old Flame (Blue Lamp)
4- Bird Feathers
5- Klact-Oveeseds-Tene
6- Bird Feathers (Habanera Mambobop) (Bongo Beep)**
7- Out Of Nowhere
8- Bongo Beep (Diggin’ Diz)*

http://ouo.io/7cd15

 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – 10’LP Dial 203 (1947)

O ano de 1947 foi de intensa atividade para Parker, muitas apresentações em clubes e o início das atividades de seu quinteto com Miles Davis. O volume 3 da Dial traz este combo em três datas do final de 47, realizadas em 28 de outubro, 4 de novembro e 17 de dezembro. O quinteto som sua formção clássica: Parker, Miles Davis no trompete, Duke Jordan ao piano, Tommy Potter no contrabaixo e Max Roach na bateria. Na sessão de dezembro o grupo foi acrescido do trombonista J. J. Johnson. Todas as gravações aconteceram em NYC, no W.O.R. Studios.

 

No dia 28 de outubro gravaram: Dexterity, paráfrase de I Got Rhythm; Dewey Square, um tema original de Bird; Bird Of Paradise, paráfrase de All The Things You Are; e Embraceable You, de George Gershwin.

 

Em 4 de novembro foi a vez da belíssima balada Don’t Blame Me e Scrapple From The Apple, paráfrase de Honeysuckle Rose, de Fats Waller.

 

Da sessão em sexteto com J. J. Johnson gravada em 17 de dezembro, o LP traz Quasimodo, paráfrase de Embraceable You, de Gershwin.

 

Miles Davis (tp) Charlie Parker (as) Duke Jordan (p) Tommy Potter (b) Max Roach (d) J. J. Johnson** (tb)
WOR Studios, NYC, October 28, 1947
WOR Studios, NYC, November 4, 1947*
WOR Studios, NYC, December 17, 1947**
1- Don’t Blame Me*
2- Dexterity
3- Bird Of Paradise
4- Bongo Bop
5- Embraceable You
6- Dewey Square
7- Quasimodo**
8- Scrapple From The Apple*

http://ouo.io/dLcyOW

 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – 10’LP Dial 202 (1947)

Após seis meses de internação no Camarillo State Hospital, em janeiro de 1947 Parker deixa o tratamento e grava de imediato duas sessões para a Dial, nos dias 19 e 26 de fevereiro. Na primeira data ele é acompanhado por uma seção rítmica ortodoxa, ainda firmemente plantada no swing, com Erroll Garner ao piano, Red Callender no contrabaixo e Doc West na bateria. O cantor Earl Coleman participa em dua faixas: This Is Always, de Harry Warren e Mack Gordon e Dark Shadows, um blues de 32 compassos, com uma bridge, em formato aaba. Na sessão de 26 de fevereiro Parker lidera um hepteto com Howard McGhee no trompete, Wardell Gray no sax tenor, Dodo Marmarosa no piano, Barney Kessel na guitarra, Red Callender no contrabaixo e Don Lamond na bateria. Gravam quatro faixas, três originais de Howard McGhee: Cheers, Carvin’ The Bird e Stupendous, uma paráfrase para S’Wonderful de George Gershwin; e a composição de Parker, Relaxin’ At Camarillo, um blues em doze compassos.

 

Sobre os fatos acontecidos no período, o escriba se cala e dá voz á quem, de fato, é mestre no assunto. Limito-me a reproduzir o que escreveram os competentes pesquisadores e amigos Pedro Cardoso e Luis Carlos Antunes, em seu trabalho “Charlie Parker – Glória Musical, Abismo Pessoal”. Agradeço de antemão aos autores pela cessão dos originais, que em muito enriquecem este blog.

 

“No final de janeiro Parker foi liberado do Camarillo State Hospital, sob a custódia de Ross Russell (proprietário da Dial Records) e passa a viver com Doris Sydnor em apartamento no centro de Los Angeles. Ross Russell e Chan Richardson trocam cartas, movimentam-se com suas influências e conseguem trabalho para Parker.
Nos domingos 02, 09 e 16 de fevereiro Parker atuou no “Billy Berg’s”, com Erroll Garner, Red Callender e “Doc” West. Em 19/02 (4ª feira), Parker retorna ao C. P. MacGregor Studios, gravando para a Dial Records.
Em 01/março Parker integra-se ao quinteto de Howard McGhee para a abertura do “Hi-de-Ho Club” (onde Dean Benedetti inicia suas furtivas gravações dos solos de Parker).
Em 07/abril Parker e Doris mudam-se para o Hotel Dewey Square em New York.
Parker monta o quinteto com Miles Davis e inicia os ensaios na residência de Teddy Reig, Diretor de Gravação da Savoy Record (parte dos ensaios é feita na casa do baterista Max Roach, no Brooklyn).
Em 05/maio Parker participa da primeira das seis apresentações noturnas das segundas-feiras do “JATP” (Jazz At The Philharmonic) de Norman Granz, no Carnegie Hall.
Em 10/maio o nome de Parker aparece em letras “garrafais” no cartaz do “Smalls’ Paradise” (Harlem) que anuncia mais uma “Blue Monday Jazz Concert”.
Em 31/maio e com Dizzy Gillespie, Parker participa no “Town Hall” do “Salute To Negro Veterans” (homenagem aos negros veteranos da guerra).
Na 6ª feira, 18/julho Parker em quinteto inaugura o “New Bali” de Washington, onde se apresenta durante duas semanas.
De 07 a 20/agosto é a vez do “Three Deuces” programar temporada de Parker.
De 11 a 23/novembro o quinteto de Parker apresenta-se no “Argyle Lounge” de Chicago, em 29 desse mês toca no “Town Hall” (New York), de 02 a 06/dezembro é a atração do “Downbeat” da Philadelphia e de 19/dezembro até 01/01/1948 realiza temporada no “El Sino” em Detroit.”

 

Os demais dois volumes serão postados amanhã e no domingo próximo, dia em que Charlie Parker completaria 90 anos de seu nascimento.

 

Charlie Parker (as) Erroll Garner (p) Red Callender (b) Doc West (d) Earl Coleman (vo)
C.P. MacGregor Studios, Hollywood, CA, February 19, 1947

 

Howard McGhee (tp) Charlie Parker (as) Wardell Gray (ts) Dodo Marmarosa (p) Barney Kessel (g) Red Callender (b) Don Lamond (d)
C.P. MacGregor Studios, Hollywood, CA, February 26, 1947(*)

 

1- Relaxin’ At Camarillo*
2- Cheers*
3- Carvin’ The Bird*
4- Stupendous*
5- Cool Blues
6- Dark Shadows
7- Hot Blues
8- This Is Always
9- Bird’s Nest

http://ouo.io/yKyZLu

 

HotBeatJazz 10′ Series – Charlie Parker – 10’LP Dial 201

O mundo do jazz celebra neste mês de agôsto de 2010 os noventa anos de nascimento do mais influente músico desta forma de arte, Charlie “Bird” Parker. Em 29 de agôsto de 1920, nascia em Kansas City, em uma modestíssima família, um homem que iria transformar a mais importante forma de arte norte-americana. O pequeno Charlie cresceu andando descalço, pisando as ruas empoeiradas de um subúrbio pobre de Kansas City, com seu único brinquedo, um flautim, presente de sua mãe ao tímido e desengonçado menino que iria mais tarde ser apelidado de “Bird”. E assim “Bird” passava seus dias, de forma autodidata aprendendo os fundamentos de sua pequena flauta.

 

Kansas City era um local em que o blues estava por toda parte, e já nos anos 30 era reconhecida como um celeiro de grandes saxofonistas, que se degladiavam nas noites de fins de semana em antológicas batalhas de saxofone. Também era onde algumas das mais importantes orquestras do swing tinham sua base, notadamente a de Bennie Motten, e pouco depois, a de Count Basie. O adolescente Charlie acalentava o sonho de tocar com a banda de Baise, ao lado do seu grande ídolo do saxofone tenor, Lester Young. Quando Basie e Young começaram uma duradoura e fantástica associação, Parker tinha 16 anos de idade e já tocava em algumas bandas locais ao lado de Harlan Leonard e Lawrencw Keyes. Gostava de ouvir a pianista Mary Lou Williamson e sua admitida primeira influência no sax alto, Buster Smith. Ele tocou sax barítono antes de mudar para o alto e aos 19 anos sentia-se seguro o suficiente para tentar a vida por conta própria na capital mundial do jazz, New York. A vida não foi fácil para o jovem músico que já naquela época soava de modo bastante estranho dos demais. Parker arranjou um emprego de lavador de pratos em um clube do Harlen pela única possibilidade de ouvir o pianista da casa, o grande Art Tatum. Alguns meses depois estava de volta a Kansas City onde foi contratado pelo pianista e band leader Jay McShann e com ele voltaria a NYC. Grava, pela primeira vez em estúdio, em 9 de agôsto de 1940, as faixas Jumping At The Woodside e I Got Rhythm, como integrante da banda, na verdade um noneto com forte enfoque no blues. Em 30 de abril de 1941, em Dallas, no Texas, gravaria mais três músicas: Swingmatism, Hootie Blues e Dexter Blues. Em 2 de julho de 1942, em NYC, faz sua última sessão de gravação com a orquestra de McShann, quatro faixas: Lonely Boy Blues, Get Me On Your Mind, The Jumpin’ Blues e Sepian Bounce.

 

É então contratado pelo pianista Earl Hines para ocupar uma cadeira no naipe de saxofones de sua fantástica orquestra, que contava também com o trompetista Dizzy Gillespie, parceiro de “Bird” nas jams sessions que aconteciam no clube Minton’s Playhouse. Foi lá que, juntamente com o pianista da casa, Thelonious Monk; o guitarrista da banda de Benny Goodman, Charlie Christian; Dizzy; e alguns veteranos como os saxofonistas tenor Don Byas e Coleman Hawkins; Parker se tornaria figura de proa no desenvolvimento de uma nova sintaxe no jazz, uma nova maneira de se explorar as melodias e, principalmente, as harmonias de antigas canções do repertório popular. Dedica-se de corpo e alma a pesquisar uma nova forma de abordagem do material até então utilizado como matéria-prima do jazz. Ele mesmo conta sua aventura: “Uma tarde, trabalhando em cima de Cherokee, percebi que, se utilizasse intervalos maiores e os modulasse convenientemente, poderia finalmente reproduzir o que escutava dentro de mim mesmo.” Estava iniciada a revolução. Todo um repertório da era do swing, já desgastado e batido, iria mudar. Os solistas passariam a ter um número maior de possibilidades para improvisar. A harmonia estava ampliada. O jazz nunca mais seria o mesmo.

 

Ao mesmo tempo ele havia se tornado um virtuose, sua técnica era impressionante, e logo seria uma referência entre os músicos, Parker era agora o músico dos músicos. Faz curtas passagens pelas orquestras de Noble Sissle, Cootie Williams, Andy Kirk e na grande orquestra bebop do cantor e trombonista Billy Eckstine. Começa a gravar para o pequeno sêlo Savoy, primeiramente como sideman, no quinteto do guitarrista Tiny Grimes; ao lado de Gillespie e Don Byas no grupo do pianista Clyde Hart; e, em fevereiro de 1945, grava três faixas no sexteto de Gillespie, consideradas as primeiras gravações de bebop em pequeno combo. São na verdade aproximações do que seria o verdadeiro bebop, pois as seções rítmicas ainda eram formadas por músicos mais ligados às tradições do swing. São desta data: Groovin’ High, All The Things You Are e Dizzy Atmosphere. Em 11 de maio, ainda com Gillespie: Salt Peanuts, Shaw ‘Nuff, Hot House, e acompanha a novata cantora Sarah Vaughan em Lover Man. Em 6 de junho grava, com Dizzy, no sexteto do vibrafonista Red Norvo quatro faixas para o sêlo Dial. Em 4 de setembro grava com pianista Sir Charles Thompson, ao lado do jovem tenorista da Califórnia Dexter Gordon e músicos veteranos do swing como o trompetista Buck Clayton. Em 26 de novembro grava a primeira sessão em seu nome para a Savoy, ao seu lado estão: Miles Davis, o pianista Sadik Hakim, Dizzy Gillespie atuando no piano e trompete, o contrabaixista Curly Russell e o baterista Max Roach. Esta é a verdadeira primeira gravação de Bird exclusivamente bebop, com temas de sua autoria, seguindo sua nova fórmula de compôr, construindo paráfrases em cima das harmonias de standards já largamente conhecidos, o que confere a elas sabor e melodias novas, deixando as músicas que originaram suas composições praticamente irreconhecíveis. São desta data: Warming Up A Riff, os blues Billie’s Bounce e Now’s The Time, Thriving On A Riff, Meandering, e sua criação em cima da antiga e fundamental Cherokee, Ko-Ko.

 

No final de 45, ele e Dizzy são contratados para uma temporada na Califórnia, que revelaria-se catastrófica. Parker está, cada vez mais, entregue as bebidas e as drogas pesadas, a adição à heroína era um fato com que ele já lidava desde seus 15 anos de idade. Seu comportamento revela-se errático, nunca se sabe se ele irá ou não comparecer para tocar. O responsável Dizzy contorna o problema chamando às pressas de NYC o vibrafonista Milt Jackson, ele poderá reforçar a linha de frente do grupo na ausência de Parker e, quando da presença deste, tornar a seção rítmica mais poderosa.

 

Chegamos então às sessões de gravação reunidas neste primeiro 10 polegadas da gravadora Dial, duas datas realizadas na Califórnia, nos dias 28 de março e 29 de julho de 1946. Na primeira data ele lidera um hepteto formado por: Miles Davis no trompete, Lucky Thompson no sax tenor, Dodo Marmarosa no piano, Arvin Garrison na guitarra, Vic McMillan no contrabaixo e Roy Porter na bateria. Gravam A Night In Tunisia, de Dizzy Gillespie; Yardbird Suite, paráfrase de Parker sobre a harmonia de uma antiga canção popular chamada What Price Love; Moose The Mooche, construída sobre I Got Rhythm de George Gershwin; e Ornithology, paráfrase de How High The Moon.

 

A sessão de 29 de julho foi dramática, Parker está muito doente e debilitado pelo abuso de álcool e heroína. O baterista Roy Porter, conta que após o primeiro take, quando gravou Max Making Wax, de Oscar Pettiford, Bird precisou ser amparado para manter-se de pé e conseguir gravar os três temas restantes. O que vemos a seguir é uma versão perturbada e languriante da balada Lover Man, um angustiante discurso musical, um verdadeiro pedido de socorro de um ser-humano perdido. O mesmo acontece na outra balada, The Gypsy. Parker mesmo em seus momentos vacilantes não deixa de produzir uma música soberba, plena de emoção e de verdade. Ainda reúne suas últimas energias para gravar Bebop, de Dizzy Gillespie. Necessário destacar a belíssima participação do trompetista Howard McGhee em toda a turbulenta seção.

 

Após a gravação Parker foi para o hotel, colocou fôgo no quarto e saiu gritando nú pelo saguão. Foi internado na clínica de recuperação de dependentes em Camarillo. Depois….é assunto para a próxima postagem.
Miles Davis (tp) Charlie Parker (as) Lucky Thompson (ts) Dodo Marmarosa (p) Arvin Garrison (g) Vic McMillan (b) Roy Porter (d)
Radio Recorders, Hollywood, CA, March 28, 1946

 

Howard McGhee (tp) Charlie Parker (as) Jimmy Bunn (p) Bob Kesterson (b) Roy Porter (d)
C.P. MacGregor Studios, Hollywood, CA, July 29, 1946*

 

1- Night In Tunisia
2- Yardbird Suite
3- Moose The Mooche
4- Ornithology
5- Loverman*
6- The Gypsy*
7- Bebop*
8- Max (is) Making Wax*

 

http://ouo.io/2c5Woj

 

HotBeatJazz 10′ Series – Clifford Brown Ensemble – Featuring Zoot Sims PJLP-19 (1954)

A curta carreira fonográfica de Clifford Brown teve momentos únicos e inusitados quando de sua estada na Califórnia em 1954. Brownnie já havia gravado em variados formatos: quarteto, em sua tournê pela França, como integrante da orquestra de Lionel Hampton em 53, ocasião em que também gravou com uma orquestra de tamanho médio os arranjos de seu colega de naipe Quincy Jones; sexteto com Gigi Gryce e como integrante do grupo do trombonista J.J. Johnson na famosa sessão para a Blue Note; quinteto com Lou Donaldson, em junho do mesmo ano, quando fez sua estréia como líder em uma sessão de gravação. Mas em 1954, enquanto estava na costa oeste com o famoso quinteto co-liderado por ele e Max Roach, Clifford teve o privilégio de gravar composições suas e alguns standards com os arranjos de Jack Montrose em um hepteto. Ele dividiu a linha de frente com o saxofonista Zoot Sims ao tenor e uma seção rítmica que causava sensação: o pianista Russ Freeman, os contrabaixistas Joe Mondragon e Carson Smith, e o baterista Shelly Manne. Completando o grupo estavam o jovem baritonista Bob Gordon e o trombonista Stu Williamson.

 

Clifford Brown Ensemble traz o trompetista em um conceito ímpar em toda sua discografia, os arranjos elaborados e sutis de Montrose vestem a execução brilhante e portentosa de Brownnie de uma delicadeza não habitual em seus outros registros, com exceção, talvez, a seu álbum acompanhado por naipe de cordas. É interessante apreciar uma outra concepção para temas que nos habituamos a ouvir com o seu quinteto com Max Roach, de orientação nítidamente hardbop, como os temas originais de Clifford: Daahoud e Joy Spring. Tiny Capers e Bones For Jones foram as outras composições de Clifford executadas pelo ensemble. Finders Keepers era um clássico das jams sessions da west-coast, um tema sempre lembrado pelos músicos da Califórnia em estúdios e em apresentações ao vivo. Gone With The Wind e Blueberry Hill são os standards apresentados com os especiais arranjos de Montrose.

 

Há que se destacar a habitual qualidade da performance do tenorista Zoot Sims, um músico de características excepcionais, tanto na sonoridade como no discurso, sempre produzido em frases longas e de extrema beleza melódica. o sax barítono de Bob Gordon tem um lugar de destaque nos ensembles, sendo o responsável principal pelos contrapontos, tão costumeiros nos arranjos de Montrose e no west-coast sound em geral.

 

Clifford Brown Ensemble é um ítem único na discografia deste trompetista que foi, talvez, o mais influente no jazz moderno ao lado de Dizzy Gillespie. Clifford Brown morreria dois anos depois em um dramático acidente automobilístico que também vitimaria o pianista de seu quinteto, Richie Powell. Clifford tinha apenas 26 na fatídica data e deixou um legado que influencia músicos até hoje.

 

Clifford Brown (tp) Stu Williamson (vtb, tp) Zoot Sims (ts) Bob Gordon (bars) Russ Freeman (p) Joe Mondragon (b) Shelly Manne (d) Jack Montrose (arr)
Capitol Studios, Melrose Avenue, Los Angeles, CA, July 12, 1954

 

*Clifford Brown (tp) Stu Williamson (vtb, tp) Zoot Sims (ts) Bob Gordon (bars) Russ Freeman (p) Carson Smith (b) Shelly Manne (d) Jack Montrose (arr)
Capitol Studios, Melrose Avenue, Los Angeles, CA, August 13, 1954

 

1- Daahoud
2- Finders Keepers
3- Joy Spring
4- Gone With the Wind*
5- Bones for Jones*
6- Blueberry Hill*
7- Tiny Capers*